

Na madrugada desta quinta, 15 de janeiro de 2026, a TV Globo leva ao ar, na faixa Corujão I, o filme brasileiro Noites de Alface, uma obra delicada e profundamente humana que transforma pequenos gestos cotidianos em reflexões sobre perda, afeto e convivência. Dirigido por Zeca Ferreira e José Buarque Ferreira, o longa aposta em uma narrativa intimista para falar de temas universais, conduzindo o espectador por uma história silenciosa, melancólica e, ao mesmo tempo, cheia de nuances emocionais.
No centro da trama está Otto, vivido por Everaldo Pontes, um homem rabugento, metódico e resistente a mudanças. Sua rotina é abruptamente interrompida após a morte de sua esposa Ada, interpretada por Marieta Severo, em uma participação breve, porém marcante. Ada não era apenas a companheira de Otto, mas o eixo que organizava seus dias, seus hábitos e até mesmo seu sono. Todas as noites, era ela quem preparava o ritual simples, mas essencial, do chá de alface, o remédio natural que ajudava o marido a dormir.
Com a ausência da esposa, Otto se vê incapaz de repousar. As noites passam a ser longas, silenciosas e angustiantes. Sem o chá, sem Ada e sem saber lidar com o próprio luto, ele mergulha em uma insônia persistente que funciona como metáfora de sua dificuldade em seguir em frente. O sono que não vem reflete uma vida que perdeu o equilíbrio, presa a lembranças e a um passado que insiste em se repetir na memória.
É nesse estado de exaustão física e emocional que Otto passa a observar, da janela de seu apartamento, o cotidiano de seus vizinhos. Inicialmente, essa observação surge como uma forma de distração, quase um passatempo involuntário para preencher as madrugadas vazias. No entanto, pouco a pouco, o olhar distante se transforma em envolvimento. Otto deixa de ser apenas um espectador silencioso e passa a interferir, ainda que de maneira sutil, na vida das pessoas ao seu redor.
Os vizinhos que cercam Otto são figuras excêntricas, humanas e cheias de camadas, interpretadas por um elenco que valoriza o cinema nacional. João Pedro Zappa, Romeu Evaristo, Teuda Bara e Inês Peixoto dão vida a personagens que, assim como Otto, carregam suas próprias fragilidades, manias e dores. Cada um deles representa uma possibilidade de contato, de escuta e de reconexão com o mundo, ainda que esse processo aconteça de forma lenta e, muitas vezes, desconfortável.
Noites de Alface se constrói a partir de silêncios, pausas e gestos mínimos. O roteiro evita grandes conflitos ou reviravoltas dramáticas, apostando em uma abordagem mais contemplativa. O luto de Otto não é tratado de maneira explosiva, mas como um estado constante, que se infiltra nos detalhes do dia a dia. A ausência de Ada é sentida nos objetos da casa, na rotina interrompida e, principalmente, na solidão que se instala de forma quase invisível.
A direção de Zeca Ferreira e José Buarque Ferreira demonstra sensibilidade ao retratar personagens envelhecidos emocionalmente, presos a hábitos e resistências. Otto é um protagonista difícil, muitas vezes antipático, mas profundamente real. Sua birra, seu mau humor e sua dificuldade de se abrir para o outro não são caricaturas, mas defesas construídas ao longo de uma vida marcada por perdas e silêncios. O filme convida o espectador a olhar para esse homem com empatia, compreendendo que sua rigidez é, na verdade, uma forma de sobrevivência.
Marieta Severo, mesmo com pouco tempo de tela, deixa uma forte impressão. Sua Ada é lembrada não apenas como esposa, mas como presença afetiva que continua ecoando mesmo após a morte. A relação do casal é revelada mais pelas ausências do que por cenas explícitas, o que reforça o tom delicado da narrativa. Ada permanece viva na memória de Otto e, de certa forma, também na do espectador.
Outro ponto de destaque do filme é a maneira como ele aborda a convivência urbana. Os prédios, as janelas e os corredores funcionam como espaços de conexão e isolamento ao mesmo tempo. Noites de Alface sugere que, mesmo cercadas por pessoas, muitas vidas seguem solitárias, aguardando um pequeno gesto que rompa a distância. A aproximação entre Otto e seus vizinhos acontece sem pressa, respeitando o tempo de cada personagem e evitando soluções fáceis.

Já no Corujão II, a emissora exibe o filme Escola de Quebrada, produção nacional que aposta no humor e na linguagem jovem para retratar os desafios, desejos e contradições da adolescência nas escolas públicas da periferia de São Paulo. Leve, divertida e cheia de referências ao cotidiano dos estudantes, a obra dialoga diretamente com o público jovem ao mesmo tempo em que propõe reflexões sobre pertencimento, autoestima e coletividade.
Dirigido por Kaique Alves e Thiago Eva, Escola de Quebrada acompanha a trajetória de Luan, interpretado por Mauricio Sasi, um estudante da Zona Leste de São Paulo que, como tantos outros adolescentes, vive o dilema de querer se encaixar, ser reconhecido e conquistar seu espaço. Luan sonha em ser popular dentro da escola e, principalmente, chamar a atenção de Camila, vivida por Laura Castro, por quem nutre uma paixão silenciosa e idealizada.
Movido pelo desejo de aceitação, Luan passa a tomar decisões impulsivas na tentativa de se enturmar com os colegas mais populares. No entanto, suas ações acabam tendo o efeito oposto ao esperado. Em vez de conquistar respeito e admiração, ele se envolve em situações que colocam em risco o campeonato de futsal da escola, um dos eventos mais importantes para os alunos e símbolo de união da comunidade escolar. A partir desse conflito, o filme constrói sua espinha dorsal narrativa, mesclando humor, confusões e aprendizados.
O campeonato de futsal é supervisionado pela rígida diretora da escola, interpretada por Mawusi Tulani, e pelo carismático inspetor Piu-Piu, vivido por Oscar Filho, que adiciona um tom cômico e acessível à trama. Enquanto a diretora representa a autoridade e a disciplina, Piu-Piu surge como uma figura mais próxima dos alunos, funcionando como um mediador entre regras e empatia. Essa dinâmica contribui para o tom leve do filme, sem deixar de retratar as tensões reais do ambiente escolar.
Quando percebe que suas atitudes podem prejudicar não apenas a si mesmo, mas toda a escola, Luan se vê diante da necessidade de rever suas escolhas. É nesse momento que entram em cena seus verdadeiros aliados. Rayane, interpretada por Bea Oliveira, e David, vivido por Lucas Righi, são os amigos que permanecem ao seu lado mesmo quando tudo parece dar errado. Juntos, eles representam a força da amizade genuína, aquela que não depende de status, popularidade ou aparências.
A partir dessa união, o trio passa a buscar uma solução para salvar o campeonato de futsal e restaurar a confiança da comunidade escolar. O filme mostra que crescer também significa assumir responsabilidades, reconhecer erros e entender que o reconhecimento verdadeiro nasce do respeito e da solidariedade. O desejo inicial de Luan, que era apenas conquistar a atenção de Camila, ganha novos significados ao longo da narrativa, à medida que ele aprende a valorizar quem realmente importa.
Escola de Quebrada utiliza uma linguagem acessível, diálogos dinâmicos e situações típicas da adolescência para criar identificação com o público. As inseguranças de Luan, o medo da rejeição e a busca por pertencimento são sentimentos universais, apresentados aqui sob o recorte específico da escola pública e da realidade periférica. O filme evita estereótipos caricatos e aposta em personagens que, mesmo exagerados em alguns momentos por conta do tom cômico, permanecem humanos e reconhecíveis.
A ambientação na Zona Leste de São Paulo é um dos pontos fortes da produção. A escola, as quadras esportivas e os corredores funcionam como espaços de convivência, conflito e aprendizado. O futsal surge não apenas como esporte, mas como elemento de integração social, capaz de unir alunos com perfis diferentes em torno de um objetivo comum. Ao colocar o campeonato em risco, o roteiro cria uma situação que afeta coletivamente todos os personagens, reforçando a importância do trabalho em equipe.
Do ponto de vista temático, o filme aborda questões como autoestima, pressão social e amadurecimento emocional. Luan começa a história movido por uma necessidade externa de validação, mas termina compreendendo que popularidade não garante felicidade nem respeito. O afeto de Camila, que inicialmente parecia o objetivo final, passa a ser apenas uma parte de um processo maior de autoconhecimento e crescimento pessoal.
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