
Marty Supreme, novo filme da A24 dirigido por Josh Safdie, surge como uma obra que não apenas observa a ambição, mas a encarna em cada escolha estética, narrativa e performática. Trata-se de um filme que vibra, transpira e colapsa diante dos nossos olhos, conduzido por uma atuação de Timothée Chalamet que já pode ser considerada uma das mais impactantes do cinema do século XXI. O que impressiona não é apenas a grandiosidade do desempenho, mas a naturalidade com que ele acontece, como se a intensidade fosse um estado permanente e inevitável.
Safdie constrói um filme que, à primeira vista, parece abraçar sem pudor a lógica da grandeza hollywoodiana. Marty Supreme se apresenta como um épico moderno, sedutor em sua escala emocional e estética, convidando o espectador a acreditar no mito do sucesso absoluto, da ascensão que tudo justifica. No entanto, esse convite é uma armadilha cuidadosamente arquitetada. À medida que a narrativa avança, o filme começa a se dobrar sobre si mesmo e a questionar o próprio impulso que o move. Por que desejar tanto? O que existe do outro lado da obsessão pela vitória, pelo reconhecimento, pela imortalidade simbólica?
Chalamet interpreta um personagem movido por uma compulsão quase patológica pela excelência, alguém que não sabe existir fora da ideia de ser extraordinário. Essa obsessão não é romantizada, mas tampouco condenada de forma simplista. Safdie prefere o caminho mais desconfortável: expor o fascínio e o horror que coexistem nesse tipo de ambição. O resultado é um retrato profundamente humano, ainda que extremo, de alguém que confunde identidade com desempenho e afeto com admiração.
É impossível ignorar o caráter metatextual do filme. Marty Supreme foi claramente escrito para Chalamet, moldado ao seu corpo, à sua imagem pública e ao momento específico de sua carreira. Ainda assim, reduzir a obra a um comentário sobre sua estrela seria empobrecedor. O filme transcende essa camada ao se afirmar como um retrato geracional, interessado em discutir como sonhos são fabricados, vendidos e internalizados, especialmente dentro de uma cultura que transforma sucesso em medida de valor pessoal.
Visualmente e sonoramente, o longa é um organismo em constante ebulição. A direção de Safdie imprime um ritmo febril, sustentado por uma edição cortante e por uma trilha sonora que pulsa como um coração acelerado. Cada cena parece carregada de urgência, como se o filme estivesse sempre à beira do excesso, do colapso ou da revelação. Essa sensação de movimento constante não é gratuita, mas espelha o estado psicológico do protagonista, alguém incapaz de desacelerar sem se confrontar com o vazio.
O que emerge dessa construção é um filme que se assemelha a um disparo, intenso e incontrolável, mas também profundamente melancólico. Marty Supreme funciona como uma odisseia judaico-americana emblemática, refletindo sobre herança, pertencimento e a promessa do sonho como força motriz e armadilha. O longa investiga de onde esses sonhos surgem, até onde podem levar alguém e, principalmente, em que momento começam a se romper, revelando o custo emocional, físico e moral de sustentá-los.
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