O terror brasileiro ganha contornos raros e profundamente pessoais em “Herança de Narcisa”, longa-metragem estrelado por Paolla Oliveira que integra a programação da 29ª Mostra de Cinema de Tiradentes. Longe de sustos fáceis ou fórmulas consagradas, o filme aposta em um medo que nasce da memória, do afeto mal resolvido e das marcas deixadas pelas relações familiares. A exibição acontece no dia 29 de janeiro, às 21h, no Cine Petrobras na Praça, dentro da Mostra Praça, com entrada gratuita.

Dirigido por Clarissa Appelt e Daniel Dias, o filme chega ao festival após uma trajetória expressiva no circuito nacional. A passagem pelo Festival do Rio, onde foi consagrado com o prêmio de Melhor Filme pelo Júri Popular, ajudou a consolidar o longa como uma das produções mais comentadas do terror brasileiro recente, justamente por subverter expectativas e tensionar os limites entre o gênero e o drama psicológico.

Na história, Paolla Oliveira interpreta Ana, uma mulher que retorna ao casarão onde cresceu após a morte da mãe, Narcisa, uma ex-vedete cuja presença continua a dominar o espaço mesmo após sua ausência física. A casa, localizada no Rio de Janeiro, é o único bem deixado aos filhos e precisa ser organizada para venda. Ao lado do irmão Diego, vivido por Pedro Henrique Müller, Ana acredita que o retorno será breve e prático. O que ela não prevê é que o imóvel guarda muito mais do que objetos antigos.

À medida que a personagem percorre os cômodos da casa, o filme constrói uma atmosfera sufocante, na qual lembranças, ressentimentos e traumas emergem de forma quase orgânica. O terror não se manifesta apenas por ruídos ou aparições, mas pela sensação constante de que o passado se recusa a permanecer enterrado. A limpeza do espaço se transforma em um confronto direto com uma herança emocional marcada por abandono, culpa e violência simbólica.

É nesse ponto que “Herança de Narcisa” se distancia do terror convencional. Em vez de entidades demoníacas ou possessões tradicionais, o longa apresenta uma maldição ancestral que opera como metáfora para os vínculos tóxicos entre mãe e filha. O sobrenatural surge como extensão do trauma, revelando como relações não elaboradas podem atravessar gerações e se manifestar como fantasmas íntimos.

A diretora Clarissa Appelt, que assina o roteiro ao lado de Daniel Dias, define o filme como uma obra sobre exorcismo emocional. Para ela, a narrativa propõe a ideia de que romper ciclos de dor exige um reconhecimento mútuo entre aqueles que os perpetuaram, mesmo quando essa relação já foi interrompida pela morte. A influência do sincretismo religioso brasileiro aparece de forma simbólica, reforçando a noção de que só ao nomear os fantasmas é possível libertá-los.

A atuação de Paolla Oliveira é um dos pilares do filme. Conhecida por personagens populares e carismáticos, a atriz surge aqui em um registro contido e intenso, explorando fragilidades, silêncios e explosões emocionais com precisão. Sua estreia no terror marca um deslocamento significativo em sua carreira e revela uma disposição clara para enfrentar personagens menos confortáveis e mais ambíguos.

A presença do longa em Tiradentes também marca o retorno de Clarissa Appelt ao festival. Em 2015, a cineasta apresentou “A Casa de Cecília” na Mostra Aurora. Uma década depois, ela retorna com um filme mais radical em sua proposta estética e temática, reafirmando sua pesquisa sobre memória, espaço e subjetividade feminina.

Produzido pela Camisa Preta Filmes, com coprodução da Urca Filmes e do Telecine, “Herança de Narcisa” tem distribuição da Olhar Filmes. Após a circulação por festivais, o longa tem estreia comercial prevista para maio, ampliando o acesso do público a uma obra que desafia classificações fáceis.

Para não perder nenhuma novidade do universo geek, acompanhe nossas atualizações diárias sobre filmes, séries, televisão, HQs e literatura no Almanaque Geek. Siga o site nas redes sociais — Facebook, Twitter/X, Instagram e Google News — e esteja sempre por dentro do que está movimentando o mundo da cultura pop.

Esdras Ribeiro
Além de fundador e editor-chefe do Almanaque Geek, Esdras também atua como administrador da agência de marketing digital Almanaque SEO. É graduado em Publicidade pela Estácio e possui formação técnica em Design Gráfico e Webdesign, reunindo experiência nas áreas de comunicação, criação visual e estratégias digitais.

COMENTE

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui