
Em um mercado cada vez mais dominado por superpoderes, universos compartilhados e conflitos tratados como espetáculo, Battle Action surge como um lembrete incômodo — e necessário — do que os quadrinhos de guerra sempre fizeram de melhor: confrontar o leitor com a brutalidade do conflito armado sem oferecer atalhos heroicos ou finais reconfortantes. A reunião de duas das mais importantes revistas britânicas do gênero não soa como nostalgia vazia, mas como uma reafirmação de identidade.
A coletânea apresenta sete histórias ambientadas em diferentes frentes de batalha, todas guiadas por uma mesma intenção editorial: mostrar a guerra como ela é vivida por quem está no chão, longe de discursos políticos ou estratégias grandiosas. Não há protagonistas idealizados nem vilões unidimensionais. O foco está no soldado comum, nas decisões tomadas sob pressão extrema e nas consequências físicas e psicológicas que permanecem mesmo quando os tiros cessam.

O maior mérito de Battle Action está em sua recusa deliberada ao romantismo. Cada narrativa se constrói a partir do desgaste, do medo e da sensação constante de que a vida pode acabar a qualquer instante. A violência não é usada como atração visual, mas como linguagem narrativa. Ela existe para causar desconforto, não admiração. Explosões, mortes e ferimentos são apresentados de forma seca, muitas vezes abrupta, reforçando a imprevisibilidade do campo de batalha.
Visualmente, a obra dialoga com a tradição clássica dos quadrinhos de guerra britânicos, mas sem parecer datada. Os traços são densos, expressivos e carregados de textura, criando ambientes sufocantes que ajudam a transmitir o clima de tensão constante. A composição das páginas valoriza o silêncio tanto quanto a ação, usando enquadramentos fechados e pausas visuais para enfatizar o impacto emocional dos acontecimentos. É uma arte que serve à narrativa, e não o contrário.
Narrativamente, a coletânea é desigual — e isso não chega a ser um problema. Algumas histórias se destacam pela profundidade psicológica e pela força do desfecho, enquanto outras funcionam mais como vinhetas rápidas, deixando a sensação de que poderiam ter ido além. Ainda assim, o conjunto se mantém coeso, sustentado por uma visão clara sobre o que se quer comunicar: a guerra como experiência humana limite, marcada por perdas irreparáveis.
A influência de autores como Garth Ennis é perceptível, não apenas na abordagem crua, mas no respeito ao gênero. Battle Action entende que histórias de guerra não precisam chocar pelo excesso, mas pela honestidade. Ao evitar discursos morais explícitos, a HQ permite que o próprio leitor chegue às suas conclusões, tornando a experiência mais potente e reflexiva.
Em tempos de conflitos reais transmitidos diariamente, Battle Action ganha ainda mais relevância. Não por oferecer respostas, mas por insistir em fazer perguntas difíceis: quem paga o preço da guerra? O que sobra depois da vitória? E quantas histórias nunca são contadas? Ao recuperar o espírito crítico que consagrou os quadrinhos de guerra britânicos, a obra se posiciona não apenas como entretenimento, mas como registro e alerta.
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