
“Por quê?” é uma pergunta que ecoa do início ao fim desta narrativa. Por que duas pessoas foram vítimas de uma armação tão cruel? Por que a violência social pesa mais sobre a mulher? Por que o casamento ainda surge como “reparação” diante de uma tragédia? E, principalmente, por que insistimos em transformar dor em silêncio? O romance parte de uma premissa intensa e desconfortável para construir uma história sobre trauma, responsabilidade e a possibilidade — nada simples — de recomeçar.
A trama acompanha uma adolescente que sofre bullying devido a uma deformidade nasal. A promessa de uma cirurgia corretiva apenas após a maioridade não é apenas um detalhe médico: é símbolo de uma juventude suspensa, de uma autoestima condicionada ao olhar alheio. A protagonista já vive em estado de fragilidade quando, em uma festa de formatura, torna-se vítima de uma trama perversa: bebida adulterada, consciência comprometida e um encontro forçado com um homem igualmente dopado e manipulado por uma ex-companheira vingativa.
O despertar dos dois, nus e com lembranças fragmentadas, é um dos momentos mais impactantes da narrativa. Não há romantização da cena — ao contrário, há desconforto. O texto toca em um ponto delicado e urgente: a zona cinzenta do consentimento sob efeito de substâncias. Ambos foram vítimas, ambos foram usados. Ainda assim, é ela quem arcará com as consequências físicas e sociais.
A gravidez transforma o drama íntimo em escândalo familiar. Pais tradicionalistas exigem casamento como forma de “reparação”, sob ameaça de denúncia por possível estupro inconsciente. Aqui, o romance assume um tom crítico contundente ao expor como estruturas sociais conservadoras frequentemente priorizam reputação em detrimento de acolhimento. O casamento civil, realizado contra a vontade dos dois, é menos união e mais imposição — um contrato firmado sob pressão.
A narrativa ganha fôlego quando os personagens seguem caminhos separados no exterior. A protagonista, especialmente, é construída com cuidado: ela estuda, cria a filha, supera inseguranças e se destaca na área de tecnologia. Sua ascensão profissional é um dos pontos mais consistentes da obra, pois desloca o foco do trauma para a potência. A cirurgia corretiva, quando finalmente acontece, não é apresentada como milagre transformador, mas como parte de um processo maior de reconstrução interna.
O reencontro anos depois, motivado por laços empresariais entre as famílias, devolve à história sua tensão original. O marido, agora mais maduro, busca conhecer a filha e reconquistar a mulher que foi obrigada a desposar. O jogo de egos, ressentimentos e silêncios é bem explorado, embora por vezes se aproxime de convenções típicas do melodrama. Ainda assim, o texto sustenta interesse ao enfatizar que o maior conflito não está no ambiente externo, mas dentro deles.
A filha surge como elemento emocionalmente inteligente, quase mediadora involuntária do casal. Sua presença suaviza o peso do passado e oferece uma perspectiva menos contaminada pela culpa. É através dela que o romance ganha calor humano e evita cair apenas na lógica do sofrimento.
Contudo, a obra também provoca questionamentos importantes. Ao transformar uma situação inicialmente traumática em história de amor, o enredo caminha em terreno sensível. Há o risco de que leitores interpretem a reconciliação como romantização de uma origem violenta. O mérito do texto está em não ignorar essa complexidade: o amor que nasce no final não é fruto do episódio inicial, mas da convivência, da maturidade e do enfrentamento consciente dos traumas.
“Por quê?” é, portanto, um romance sobre reconstrução. Não é uma história leve, nem pretende ser. É uma narrativa que incomoda ao tocar em temas como consentimento, pressão social, machismo estrutural e perdão. Seu maior acerto está em mostrar que o amor verdadeiro não surge da imposição, mas da escolha — e que perdoar não significa esquecer, e sim ressignificar.
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