A promessa era simples e quase simbólica. Uma noite só delas. Depois de meses dedicadas integralmente aos filhos recém-nascidos, as mulheres do Clube de Mães de West Hollywood decidiram celebrar a sobrevivência emocional e física à fase mais intensa da maternidade. O que deveria ser um brinde à amizade e à liberdade temporária se transforma em tragédia quando Kiersten McCann, anfitriã da reunião, é encontrada morta, boiando na própria piscina. A partir desse momento, Mentiras Submersas abandona o clima de confraternização e mergulha em um suspense marcado por desconfiança, tensão e revelações dolorosas.

A morte de Kiersten não atinge apenas o grupo, mas expõe as fissuras que já existiam sob a superfície de uma amizade aparentemente sólida. À medida que a polícia inicia a investigação, três mulheres passam a concentrar as suspeitas. Whitney, a melhor amiga da vítima, que conhecia seus medos e inseguranças mais íntimos. Jade, a mais reservada do grupo, sempre mais observadora do que participante. Brooke, aquela que nunca se encaixou completamente, vivendo na fronteira entre aceitação e exclusão. Cada uma delas guarda algo que preferia manter escondido, e conforme os interrogatórios avançam, os segredos começam a emergir.

O grande acerto do livro está na construção das personagens. Não se trata apenas de descobrir quem matou, mas de entender o que cada uma estava vivendo naquela noite. A maternidade, que muitas vezes é retratada de forma idealizada, surge aqui com suas contradições. Há amor incondicional, mas também cansaço extremo, comparação constante e uma cobrança silenciosa para manter a aparência de que tudo está sob controle. Em meio a esse cenário, pequenas mágoas podem ganhar proporções inesperadas.

West Hollywood funciona como pano de fundo simbólico. Casas impecáveis, corpos que parecem ter se recuperado rapidamente do parto, redes sociais exibindo vidas organizadas e felizes. O contraste entre essa estética perfeita e a realidade emocional das personagens é um dos elementos mais interessantes da narrativa. O suspense não nasce apenas da investigação policial, mas do desmoronamento dessas imagens cuidadosamente construídas.

A autora conduz a trama com foco no aspecto psicológico. A tensão cresce gradualmente, revelando que o perigo nem sempre se manifesta em grandes explosões, mas em ressentimentos acumulados, invejas sutis e mal-entendidos não resolvidos. A dinâmica do grupo, que deveria oferecer apoio, acaba revelando competição e julgamentos silenciosos. Quem é a melhor mãe. Quem voltou ao trabalho mais rápido. Quem mantém o casamento aparentemente estável. Nesse ambiente, vulnerabilidade pode ser vista como fraqueza.

Embora o ritmo priorize o drama interpessoal em vez de cenas investigativas aceleradas, essa escolha fortalece a narrativa. O leitor não é apenas espectador de um crime, mas cúmplice na tentativa de compreender aquelas mulheres. A cada revelação, a percepção sobre vítima e suspeitas se transforma, tornando impossível manter uma visão simplista da situação.

Mentiras Submersas é um suspense que fala sobre aparência e verdade. A piscina onde Kiersten é encontrada morta simboliza aquilo que tentamos manter escondido. Por mais profundas que sejam as águas, o que foi submerso sempre encontra uma forma de retornar à superfície.

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Esdras Ribeiro
Além de fundador e editor-chefe do Almanaque Geek, Esdras também atua como administrador da agência de marketing digital Almanaque SEO. É graduado em Publicidade pela Estácio e possui formação técnica em Design Gráfico e Webdesign, reunindo experiência nas áreas de comunicação, criação visual e estratégias digitais.

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