Eles Vão te Matar acompanha Asia Reaves (Zazie Beetz), uma ex-presidiária que tenta reconstruir sua vida trabalhando como empregada doméstica no luxuoso edifício The Virgil, em Nova York. O que parecia ser uma oportunidade de recomeço rapidamente se transforma em um pesadelo: logo em sua primeira noite, Asia descobre que os moradores fazem parte de um culto satânico e que ela não é apenas uma testemunha indesejada, mas também uma peça central em um ritual macabro. Enquanto luta desesperadamente para sobreviver, precisa ainda salvar sua irmã, Maria, marcada como sacrifício.

Zazie Beetz entrega, sem dúvida, o ponto mais sólido do filme. Sua performance carrega uma intensidade física e emocional que sustenta a narrativa mesmo quando o roteiro vacila. Beetz constrói com firmeza a chamada “final girl”, traduzindo sua força tanto nas cenas de ação quanto nos momentos mais íntimos. Medo, desespero e resiliência são transmitidos de maneira convincente, mantendo o espectador engajado mesmo diante das limitações do material. É uma atuação que claramente supera os limites do próprio filme.

Tecnicamente, o longa encontra seus melhores momentos na direção de ação e na cinematografia. As sequências são dinâmicas, bem ritmadas e, em vários momentos, imersivas. A cena envolvendo fogo se destaca, não apenas pelo impacto visual, mas também pela coreografia que mistura tensão e explosão de forma eficaz. A fotografia merece destaque: o uso de iluminação baixa, enquadramentos fechados e movimentos de câmera mais agressivos, como zooms rápidos, cria uma sensação constante de claustrofobia e urgência. Visualmente, o filme consegue colocar o espectador dentro do caos.

No entanto, é justamente fora do campo técnico que Eles Vão Te Matar começa a desmoronar. O roteiro carece de profundidade e ousadia. Embora sugira camadas temáticas como poder, exploração e desumanização, nenhuma é explorada com a complexidade necessária. O resultado é uma narrativa superficial diante do potencial existente. Ao evitar riscos, o filme se torna genérico, deixando de desenvolver adequadamente não apenas Asia, mas também sua relação com Maria, que poderia carregar um peso emocional muito maior.

Os personagens secundários são outro ponto fraco. Figuras como Lily, Sharon e Kevin são mal desenvolvidas e não possuem motivações claras ou interessantes. Patricia Arquette, no papel de Lily, é a única que oferece algum valor narrativo, ainda que limitado. No geral, os antagonistas falham em causar impacto, sendo previsíveis e reduzidos a falas clichês que enfraquecem ainda mais o tom do filme.

Um dos elementos mais problemáticos é a inclusão abrupta do “porco satânico”, que surge sem qualquer construção narrativa. Em vez de provocar medo, o elemento soa quase como uma paródia involuntária, quebrando a imersão. Esse tipo de escolha evidencia um problema maior: o filme não consegue equilibrar seu próprio tom, oscilando entre o terror e algo quase caricatural.

Outro fator que prejudica a tensão é a ideia de imortalidade dos personagens. Ao eliminar o senso de risco real, o filme compromete o suspense, pilar fundamental do gênero. A repetição desse recurso torna os confrontos previsíveis e diminui o impacto emocional das cenas. Curiosamente, o filme sugere, ao final, que a escala do culto é uma ameaça muito maior, levantando a questão: por que não explorar esse conflito de forma mais intensa, em vez de recorrer a soluções narrativas que enfraquecem o clímax?

O diálogo também deixa a desejar. Repleto de clichês e frases previsíveis, contribui para uma sensação constante de déjà vu. A inspiração em Casamento Sangrento é evidente, mas o filme falha em trazer algo novo. Há ainda uma estética de ação que remete ao estilo de Quentin Tarantino, mas sem a mesma identidade ou refinamento; tudo soa familiar, mas não de maneira positiva.

Os efeitos visuais apresentam inconsistências. Enquanto sequências como a do fogo funcionam bem, outras, como as envolvendo o “porco” e a explosão final, são visivelmente artificiais, quebrando a imersão e reforçando a sensação de que o filme não se leva totalmente a sério.

No fim, Eles Vão Te Matar é um thriller de altos e baixos marcantes. Há competência técnica, boas ideias e uma performance central sólida, mas tudo isso é prejudicado por um roteiro fraco, escolhas criativas questionáveis e falta de identidade própria. O resultado é um filme que entretém em seus melhores momentos, mas que não sustenta seu impacto a longo prazo e dificilmente justificaria uma revisita.

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Avaliação geral
Nota do crítico
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Esdras Barbosa
Além de fundador e editor-chefe do Almanaque Geek, Esdras também atua como administrador da agência de marketing digital Almanaque SEO. É graduado em Publicidade pela Estácio e possui formação técnica em Design Gráfico e Webdesign, reunindo experiência nas áreas de comunicação, criação visual e estratégias digitais.
critica-eles-vao-te-matar-e-um-terror-que-impressiona-nas-atuacoes-mas-falha-no-roteiroEles Vão Te Matar é um thriller que mistura terror e ação, acompanhando Asia Reaves (Zazie Beetz), uma ex-presidiária que descobre que os moradores do luxuoso edifício onde trabalha fazem parte de um culto satânico. O filme se destaca pela atuação intensa de Beetz, pela direção de ação bem coordenada e pela cinematografia que cria tensão e claustrofobia. No entanto, sofre com roteiro superficial, personagens secundários pouco desenvolvidos, diálogos clichês e inconsistência nos efeitos visuais. Elementos como o “porco satânico” e a sensação de imortalidade dos antagonistas enfraquecem o suspense, tornando o filme irregular e previsível. Apesar de momentos impactantes, a produção não consegue sustentar seu potencial até o fim.

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