O último episódio de Os Casos de Harry Hole entrega mais do que a simples resolução de um caso policial. A série constrói um final denso, emocionalmente carregado e, acima de tudo, inquietante. Ao longo da temporada, o público acompanha o detetive vivido por Tobias Santelmann em uma investigação que começa como um enigma ritualístico e termina como um retrato cruel de obsessão, manipulação e falhas institucionais.

O enigma do “Assassino do Pentagrama”

Desde os primeiros episódios, a narrativa gira em torno de uma sequência de crimes que seguem um padrão específico. As vítimas aparecem com um dedo decepado, sempre acompanhadas por um diamante vermelho em formato de estrela de cinco pontas. Esse detalhe leva a polícia de Oslo a acreditar que está diante de um assassino metódico, guiado por símbolos e rituais.

A investigação, nesse momento, se desenvolve sob uma lógica quase mística. Cada pista parece reforçar a ideia de um criminoso calculista, interessado em deixar marcas e provocar a polícia. Esse cenário cria tensão constante e conduz tanto os investigadores quanto o público por um caminho que, mais tarde, se revela cuidadosamente manipulado.

A verdade por trás dos crimes

A virada acontece quando Harry começa a desconfiar que o padrão dos assassinatos pode não ser o que aparenta. A revelação de que Willy Barli, um respeitado diretor de teatro, está por trás dos crimes muda completamente a leitura da história.

Diferente da imagem construída ao longo da investigação, Willy não é apenas mais um suspeito. Ele é o arquiteto de todo o plano. A motivação, no entanto, não está ligada a rituais ou simbolismos complexos, mas a algo profundamente humano: a descoberta de uma traição.

Ao perceber que sua esposa, Lisbeth, mantinha um relacionamento com Martin Aminov, um homem ligado ao tráfico de armas e diamantes, Willy reage de forma extrema. O detalhe das cartas trocadas entre os amantes, iniciadas ainda na lua de mel, intensifica o impacto emocional dessa descoberta e ajuda a explicar a espiral de decisões que se segue.

Um crime encoberto com precisão

Após assassinar a esposa, Willy não tenta fugir ou desaparecer. Pelo contrário, ele elabora um plano minucioso para garantir que jamais seria associado ao crime. O corpo de Lisbeth é escondido dentro de um colchão inflável preenchido com substâncias químicas, uma estratégia pensada para retardar sinais de decomposição e evitar qualquer suspeita imediata.

Esse elemento não apenas reforça o caráter frio e calculista do personagem, como também se torna uma das imagens mais perturbadoras da série. A escolha de esconder o corpo dessa forma evidencia o nível de planejamento envolvido.

Paralelamente, Willy cria uma sequência de assassinatos que simula a atuação de um serial killer. Esses crimes funcionam como distração, desviando o foco da polícia e construindo uma narrativa falsa que sustenta sua inocência. Ao mesmo tempo, ele tenta incriminar Martin, forçando-o a retornar à cidade e se colocar em uma posição vulnerável.

O manipulador dentro da investigação

Um dos aspectos mais inquietantes do plano de Willy é sua proximidade com a própria polícia. Ele participa, opina e acompanha os desdobramentos da investigação, sempre com o objetivo de controlar o rumo das suspeitas. Essa postura faz com que ele pareça colaborativo, quando, na verdade, está conduzindo tudo nos bastidores.

A estratégia começa a desmoronar quando Harry encontra o corpo de Lisbeth. A descoberta rompe a narrativa construída ao longo da temporada e leva ao inevitável confronto entre investigador e assassino. Sem alternativas, Willy confessa o crime. Em seguida, opta por tirar a própria vida, encerrando sua trajetória de forma abrupta e evitando julgamento.

Vítimas colaterais e consequências

A complexidade do plano também atinge personagens secundários. Uma mulher que assume o lugar de Lisbeth em um espetáculo musical acaba se envolvendo diretamente na trama. Ao descobrir a verdade, ela se torna mais uma vítima, evidenciando como as ações de Willy ultrapassaram o crime inicial e afetaram diversas vidas ao redor.

O confronto final e a corrupção exposta

Enquanto o caso principal se resolve, a série desenvolve um segundo eixo dramático. Harry enfrenta Tom Waaler, personagem de Joel Kinnaman, um policial cuja conduta levanta suspeitas desde o início. O confronto entre os dois acontece em um elevador e é marcado por tensão e violência.

Waaler sofre um ferimento grave e não sobrevive, encerrando sua participação de maneira trágica. No entanto, sua morte não representa uma solução. Pelo contrário, revela que ele era apenas parte de um problema maior.

A série deixa claro que a corrupção dentro da polícia norueguesa não se limita a indivíduos isolados. Há indícios de uma estrutura comprometida, que se estende a níveis mais altos da instituição.

Um final sem alívio

Ao final, Harry Hole não encontra redenção. A resolução do caso não traz sensação de justiça plena, mas sim um novo conjunto de dúvidas. A morte de Waaler abre caminho para investigações mais profundas, enquanto as revelações sobre o sistema policial ampliam a sensação de insegurança. Inspirada na obra de Jo Nesbø, especialmente no livro A Estrela do Diabo, a série constrói um desfecho que combina respostas e inquietações. Mais do que encerrar uma história, o final aponta para novos caminhos.

No último momento, surge ainda uma revelação que aprofunda o cenário de corrupção. Harry descobre que Tom Waaler estava envolvido no tráfico de armas para gangues, operando dentro da própria polícia e usando sua posição para encobrir atividades ilegais. O álibi do policial se conecta diretamente ao caso principal, já que ele mantinha vínculos indiretos com o amante da esposa assassinada. Essa conexão sugere que a rede criminosa é ainda mais ampla do que parecia, envolvendo diferentes figuras e interesses. A descoberta reforça a ideia de que, mesmo após solucionar o caso, Harry está apenas começando a entender a dimensão real do sistema que enfrenta.

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