O Diabo Veste Prada 2 chega cercado de expectativa, mas também de um risco enorme: mexer em um dos filmes mais icônicos da cultura pop recente. E a verdade é que essa continuação não tenta ser simpática com o público o tempo todo. Ela escolhe incomodar, desacelerar e até contrariar o que muitos esperavam ver.

Se o primeiro filme era sobre descoberta, ambição e choque de mundos, este aqui é sobre desgaste. Sobre o que sobra quando a juventude da carreira passa e as escolhas começam a cobrar juros emocionais. Não é um filme feito para agradar fácil. E isso, curiosamente, é o que o torna mais interessante do que muita continuação confortável por aí.

Uma direção que abandona o brilho fácil

A direção parece menos preocupada em impressionar e mais interessada em observar o desconforto dos personagens. Isso deixa o filme menos “fashion espetáculo” e mais drama silencioso com roupas caras no fundo.

Em alguns momentos, essa escolha funciona muito bem. O filme ganha profundidade quando aposta em pausas, olhares e situações que não pedem aplauso. Em outros, porém, essa contenção beira o excesso. Há cenas que parecem segurar emoção demais, como se o filme tivesse medo de assumir o próprio impacto. Ainda assim, é uma decisão consciente. E é melhor um filme que arrisca desacelerar do que uma sequência que só copia o ritmo do passado.

Fotografia e figurino com mais significado do que glamour

A fotografia continua elegante, mas agora menos sedutora. O brilho existe, mas não domina mais a narrativa. Existe uma frieza intencional em vários ambientes que deixa claro: aqui não estamos mais no auge de nada.

O figurino, como era esperado, continua impecável. Só que ele agora carrega um tom mais funcional do que aspiracional. As roupas não servem apenas para impressionar, mas para contar em que estado emocional cada personagem está. Isso é inteligente, mas também menos encantador do que antes. A verdade é que o filme parece ter consciência de que o glamour não sustenta mais a história sozinho.

Um roteiro mais maduro, mas nem sempre envolvente

O roteiro é, ao mesmo tempo, o ponto mais ambicioso e o mais irregular do filme. Ele tenta fugir da nostalgia óbvia e isso é um mérito enorme. Só que, em alguns momentos, essa fuga vira uma certa rigidez emocional.

As personagens agora lidam com consequências, envelhecimento profissional, relevância e desgaste emocional. Tudo isso é interessante no papel, mas nem sempre pulsa na tela com a força necessária.

O filme parece mais preocupado em ser “inteligente” do que em ser realmente envolvente em alguns trechos. E isso cria um certo distanciamento que pode incomodar quem espera mais energia narrativa.

Elenco forte em um filme que pede mais silêncio do que explosão

O reencontro entre Meryl Streep e Anne Hathaway continua sendo o grande atrativo. Mas aqui não há espaço para aquela dinâmica mais explosiva e carismática do primeiro filme. O que existe é algo mais contido, mais frio e, em certos momentos, até desconfortável.

Meryl Streep mantém uma presença absurda em cena, mas agora sua Miranda Priestly parece mais cansada do mundo do que simplesmente poderosa. Isso adiciona camadas interessantes, mas também tira parte do prazer que vinha do personagem no original.

Anne Hathaway entrega uma Andy mais madura, mas o roteiro nem sempre dá espaço para que ela brilhe com consistência. Há momentos fortes, mas também decisões narrativas que parecem segurar seu potencial.

Emily Blunt e Stanley Tucci continuam sendo alívios importantes, trazendo humanidade e leveza para um filme que, às vezes, se leva um pouco a sério demais.

O que o filme quer dizer sobre mulheres e carreira

O discurso do filme sobre mulheres no ambiente de trabalho é mais direto aqui, mas nem sempre mais eficiente. Existe uma tentativa clara de discutir pressão, envelhecimento e exigência constante de perfeição.

O problema é que, em alguns momentos, o filme fala mais do que mostra. E quando isso acontece, perde um pouco da força que o original tinha justamente por sugerir mais do que explicar.

Ainda assim, é impossível ignorar que há uma crítica interessante aqui sobre como mulheres são cobradas por desempenho permanente, sem direito real a pausa ou falha.

Bastidores e a expectativa que pesa no resultado

O desenvolvimento do filme começou em julho de 2024, com retorno confirmado de Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Blunt e Stanley Tucci, além da volta de David Frankel na direção e Aline Brosh McKenna no roteiro.

As filmagens aconteceram entre junho e outubro de 2025, passando por Nova Iorque e Milão, com gravações adicionais em Newark. O lançamento está previsto para 30 de abril de 2026 no Brasil e em Portugal, após premiere em Nova Iorque.

Vale a pena assistir? Uma resposta menos confortável do que o esperado

A resposta mais honesta é: depende do que você espera.

Se a ideia é reviver o mesmo impacto leve, afiado e divertido do primeiro filme, a decepção é provável. Essa continuação não tem interesse em ser confortável. Ela é mais lenta, mais introspectiva e, em alguns momentos, até meio distante do público.

Agora, se a leitura for outra, mais madura e menos nostálgica, o filme ganha outro peso. Ele não tenta substituir o original. Ele tenta discutir o que acontece depois dele. E isso, goste-se ou não, é uma escolha corajosa.

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