Nos últimos anos, muitos filmes de terror passaram a usar o sobrenatural para falar de problemas que existem fora da tela. Leviticus faz isso de um jeito diferente. Em vez de colocar uma criatura no centro da história desde o início, o filme parte de uma situação bem real: dois adolescentes vivendo em uma comunidade onde qualquer tentativa de fugir das regras pode custar muito caro.

Dirigido por Adrian Chiarella, o longa estreou na mostra Midnight do Festival de Sundance 2026, conhecida por revelar alguns dos títulos de terror mais comentados do circuito independente. A repercussão foi suficiente para que a Neon, distribuidora responsável por filmes como Longlegs e Parasita nos Estados Unidos, adquirisse rapidamente os direitos internacionais da produção.

Sobre o que fala Leviticus?

A história acompanha Naim (Joe Bird) e Ryan (Stacy Clausen), dois adolescentes que vivem em uma pequena comunidade cristã no interior da Austrália. Quando os dois começam a se aproximar, o relacionamento é descoberto pelo pastor local, que convence as famílias a submetê-los a um ritual de conversão religiosa.

Só que o ritual sai completamente do controle.

Em vez de “corrigir” os garotos, a cerimônia libera uma entidade violenta que passa a perseguir os moradores da região. A criatura tem uma característica incomum: ela assume a aparência da pessoa mais desejada por cada vítima. Para Naim e Ryan, isso significa enxergar um no outro justamente aquilo que tentaram obrigá-los a negar.

O sobrenatural passa a funcionar como consequência da violência vivida pelos personagens, e não apenas como um recurso para provocar sustos.

O terror realmente funciona?

Funciona, mas de um jeito bem diferente do que muita gente espera.

Quem procura sustos a cada cinco minutos talvez estranhe o ritmo. Adrian Chiarella prefere gastar tempo mostrando como funciona aquela comunidade antes de colocar a criatura em cena. Isso faz diferença, porque quando o horror finalmente explode, o espectador já entende exatamente o que está em jogo.

Boa parte da tensão nasce das pessoas, não da entidade. Os olhares, os sermões, o medo constante de ser descoberto e a sensação de não existir um lugar seguro acabam sendo tão desconfortáveis quanto qualquer cena sobrenatural.

Por isso, Leviticus conversa muito mais com filmes como Saint Maud, Fale Comigo e The Babadook do que com franquias tradicionais de possessão.

O elenco convence?

Sim, principalmente porque o filme depende muito dos protagonistas.

Joe Bird e Stacy Clausen conseguem construir uma relação que parece natural, sem exageros ou discursos explicativos. O roteiro confia bastante nos silêncios e nas pequenas reações dos dois, o que ajuda a tornar o drama mais convincente.

O elenco ainda reúne Mia Wasikowska como Arlene, mãe de Naim, e Ewen Leslie como o pastor que conduz o ritual responsável por desencadear toda a história. Também aparecem Nicholas Hope, Zahra Newman, Davida McKenzie, Shannon Berry e Edwina Wren.

O que faz Leviticus se destacar?

O filme evita transformar o terror em uma disputa simples entre pessoas e um demônio.

A criatura existe, mas ela nunca é o verdadeiro centro da história. O peso maior está nas consequências do fanatismo religioso, da culpa e da repressão. Isso faz com que várias cenas continuem funcionando mesmo quando não há nenhum elemento sobrenatural em quadro.

Também chama atenção o fato de o roteiro não tentar explicar tudo. Existem perguntas que permanecem sem resposta até os créditos finais, deixando espaço para diferentes interpretações sobre a origem da entidade e o significado de suas aparições.

Vale a pena assistir?

Se a ideia é encontrar um terror cheio de sustos rápidos, talvez existam opções mais adequadas.

Agora, se você gosta de filmes que continuam rendendo conversa depois da sessão, Leviticus merece entrar na lista. O horror está presente, mas o que realmente fica na memória é a forma como a história usa o sobrenatural para falar de intolerância, culpa e identidade.

Produzido com cerca de US$ 3,5 milhões, o longa arrecadou aproximadamente US$ 8,5 milhões e ganhou força após Sundance, onde passou a ser citado entre os títulos de terror mais comentados do festival.

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