
Desde seus primeiros minutos, Terror em Silent Hill – Regresso para o Inferno demonstra uma ambição contraditória: deseja simultaneamente dar continuidade a uma ideia já estabelecida e, ao mesmo tempo, reinventá-la. Essa indecisão conceitual se revela seu maior problema. A Konami, ao longo dos jogos, já havia promovido alterações significativas nas regras e na lógica do universo de Silent Hill. Aqui, o diretor parece seguir caminho semelhante, mas com um agravante: insiste em reciclar elementos criados por ele próprio em obras anteriores, sem a devida coerência ou aprofundamento. O resultado é um embaralhamento narrativo que fragiliza ainda mais a identidade do filme.
No campo da narrativa, as mudanças introduzidas soam, no mínimo, questionáveis. O impacto psicológico e a tragédia que deveriam sustentar emocionalmente a história são transferidos quase inteiramente para flashbacks. Em vez de enriquecer a experiência, esses retornos ao passado funcionam de maneira excessivamente funcional, raramente orgânica. Eles se limitam, basicamente, a reiterar dois pontos já claros: o amor de James por Mary e o avanço da doença que a consome. Este último aspecto, em especial, é tratado de forma artificial, chegando a recorrer novamente à presença dos cultistas — utilizados aqui como uma espécie de muleta narrativa, em vez de um elemento simbólico ou perturbador.
O uso insistente desses flashbacks fragmenta a atmosfera e compromete qualquer tentativa de construção gradual de tensão. A sensação de horror, que deveria se infiltrar lentamente no espectador, é constantemente interrompida, tornando a experiência irregular e pouco envolvente. Fora isso, o filme carrega uma aparência geral de produção limitada. A precariedade é perceptível em parte da maquiagem e dos efeitos visuais, que raramente convencem ou causam impacto. Falta terror, falta ousadia e, sobretudo, falta criatividade.
Nem mesmo Pyramid Head, um dos ícones mais reconhecíveis e simbólicos da franquia, recebe o tratamento que merece. Sua presença é superficial: não há densidade simbólica, não há construção dramática e tampouco uma cena verdadeiramente memorável. Ele surge, circula pelo cenário e desaparece, quase como um elemento decorativo — uma aparição vazia, comparável àquela caminhada constrangedora antes do início de uma sessão de cinema.
O desfecho emocional, que deveria ser o ápice devastador da experiência, representa o golpe final. Mal conduzido e apressado, o clímax falha em provocar qualquer comoção genuína. Em vez disso, gera reações involuntárias de riso na plateia — algo que se torna ainda mais grave em uma obra que depende essencialmente do horror psicológico para funcionar.
No fim das contas, trata-se de um filme cuja existência parece difícil de justificar. Como adaptação, Terror em Silent Hill – Regresso para o Inferno fracassa em compreender e traduzir a essência do jogo. Como continuação do longa de 2006, mostra-se inferior em impacto e coerência. E como uma releitura livre da história original, é raso, inconsistente e incapaz de transmitir sequer uma fração da angústia, do horror psicológico e da carga emocional que tornaram Silent Hill uma obra tão marcante e duradoura.
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