
A Casa Triângulo inaugura, em 24 de janeiro de 2026, a exposição “Jardim Flamejante”, primeira individual da artista plástica autodidata Rafael Chavez na galeria. Natural de Santa Luzia, no Vale do Sabugi, sertão da Paraíba, Chavez apresenta um conjunto de obras que transforma o território nordestino em matéria viva de investigação estética, espiritual e política. Mais do que representar a paisagem, a artista a incorpora como corpo, memória e energia, propondo ao público uma experiência sensorial que atravessa pintura, escultura e imaginário cosmológico.
O Vale do Sabugi, região onde Chavez cresceu e construiu sua formação artística, é reconhecido por sua importância arqueológica, reunindo mais de 25 sítios catalogados pelo IPHAN. Esse contexto não aparece na exposição como dado ilustrativo, mas como fundamento conceitual. Em Jardim Flamejante, o sertão é entendido como um campo ancestral de forças, onde história, natureza e espiritualidade coexistem de maneira indissociável. A exposição nasce justamente desse encontro entre matéria e mito, técnica e rito.
Com texto crítico assinado por Walter Arcela, a mostra inscreve o trabalho de Chavez em um território expandido da arte contemporânea, no qual os limites tradicionais entre linguagens se dissolvem. A artista construiu ao longo dos anos uma trajetória marcada pela experimentação constante, transitando por pintura a óleo, acrílica e aquarela, pintura digital, animação, escultura, videoarte e música. Essa diversidade de meios não se apresenta como dispersão, mas como um sistema integrado de pesquisa visual, orientado pela inquietação e pelo desejo de ampliar possibilidades expressivas.
Nas pinturas apresentadas, Rafael Chavez rompe com a noção clássica da tela como janela para o mundo. Em vez de organizar o espaço a partir de uma perspectiva estável, suas imagens sugerem interiores, cavidades e campos que se confundem com o horizonte. O olhar não se posiciona diante da paisagem, mas se projeta dentro dela. Muitas das obras possuem orientação vertical e se impõem como estruturas tensionadas, evocando troncos, colunas ou eixos que conectam o chão ao céu, o humano ao cósmico.
Essa verticalidade recorrente constrói uma gramática visual própria, na qual o sertão não é visto como superfície árida, mas como organismo pulsante. As cores intensas, os gestos marcados e a composição densa fazem da pintura um espaço de condensação de calor, memória e espiritualidade. Não há idealização folclórica nem apego a símbolos óbvios. A mística surge da matéria, da cor e da relação direta com o território.
As esculturas cerâmicas reforçam essa dimensão sensorial e simbólica. Butijas, totens, casulos e recipientes, produzidos a partir de referências diretas do sertão paraibano, ocupam o espaço expositivo como corpos carregados de presença. Suas superfícies irradiam uma luminosidade quase física, evocando calor, abrigo e contenção. São objetos que parecem guardar algo em seu interior, como se fossem depósitos de energia, memória e tempo.
As butijas sugerem volumes que capturam a chama, ativando uma memória ancestral ligada à água, à sobrevivência e à arqueologia da caatinga. Já os totens se dobram e se erguem como portais, articulando a ideia de passagem e transformação. Os recipientes, por sua vez, funcionam como abrigos densos, lugares onde a luz parece habitar a própria matéria. Em todas essas formas, o objeto deixa de ser apenas escultura e se aproxima de um artefato ritual.
Um dos eixos mais potentes do trabalho de Rafael Chavez é a presença de corpos queer e desviantes, que atravessam sua produção como afirmação política e poética. Ao inserir essas corporalidades no centro de sua obra, a artista confronta narrativas hegemônicas que historicamente associaram o sertão a ideias de rigidez, conservadorismo e homogeneidade. Em Jardim Flamejante, o território sertanejo é ressignificado como espaço plural, diverso e profundamente contemporâneo.
O sertão, em sua obra, não é paisagem distante nem símbolo fixo, mas um corpo vivo, atravessado por desejo, espiritualidade e conflito. Chavez articula elementos da cultura local, da experiência afetiva e das possibilidades arqueológicas da caatinga para construir imagens que ultrapassam a representação figurativa e operam no campo do sensível. Suas obras convidam o público a sentir antes de interpretar, a habitar o espaço antes de nomeá-lo.
A exposição também propõe reflexões sobre existência, resistência e transformação. As obras funcionam como portais para pensar o presente a partir de saberes ancestrais, deslocando leituras estereotipadas sobre o Nordeste e abrindo espaço para narrativas mais complexas e plurais. A arte de Chavez não busca conciliação fácil, mas provoca fricções entre tradição e invenção, matéria e espírito, identidade e desvio.
Com Jardim Flamejante, Rafael Chavez consolida sua relevância como uma das vozes mais instigantes da produção artística contemporânea surgida do sertão paraibano. O conjunto apresentado configura um território ardente, onde paisagem, cor e calor se transformam em corpos de intensidade. Trata-se de uma exposição que não apenas ocupa o espaço da galeria, mas o atravessa com força simbólica, convidando o público a repensar limites, normatividades e formas de pertencimento.
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