
No romance Mortes no Sobrado, a escritora Fátima Sá Paraíba convida o leitor a atravessar as ruas empoeiradas da fictícia Aroeira, no sertão da Paraíba, para encarar uma verdade incômoda: o passado nunca desaparece completamente. Ele se instala nas paredes das casas antigas, nos olhares desconfiados da vizinhança e nas histórias que ninguém tem coragem de contar em voz alta.
A narrativa se desenrola entre as décadas de 1970 e 1990, período em que a cidade carrega as marcas de um poder concentrado nas mãos de poucos. No centro de tudo está um sobrado antigo, imponente e silencioso, que funciona quase como personagem. Ali viveu o temido Coronel Gomes, figura associada a abusos e mortes que, embora jamais plenamente esclarecidos, deixaram cicatrizes profundas na comunidade. Seu filho, Zé Gomes, herdou as terras, o sobrenome e também o peso de uma reputação construída sobre medo e autoridade.
Quando Zé Gomes é encontrado morto ao lado de uma jovem, em um caso oficialmente tratado como suicídio por envenenamento, a versão policial não consegue conter os rumores. Em cidades pequenas, a memória coletiva costuma ser mais persistente que qualquer laudo técnico. O episódio permanece como ferida aberta, atravessando gerações e alimentando desconfianças.
Anos depois, dois corpos desconhecidos surgem boiando na fonte do sobrado. A imagem é forte, quase simbólica: como se aquilo que foi enterrado no passado tivesse decidido emergir. Aroeira volta a sussurrar. O medo reaparece. E a sensação de que há contas antigas a serem pagas ganha força.
É nesse cenário que o delegado Tião aciona o inspetor Pingo D’Água, investigador experiente e conhecido pela atenção minuciosa aos detalhes. Diferente de quem se deixa levar por pressões políticas ou pela influência das famílias tradicionais, Pingo trabalha com paciência e escuta. Ele entende que, naquele caso, desvendar o crime significa também decifrar relações de poder, silêncios convenientes e pactos invisíveis.
Fátima Sá Paraíba constrói a investigação com ritmo cuidadoso, alternando tensão e introspecção. As pistas surgem aos poucos, conduzindo o leitor por um labirinto de suspeitas que envolve a família Gomes Barreto e personagens marcados por ressentimentos, perdas e lealdades ambíguas. Entre eles, destaca-se a figura enigmática de Fedorento, o flautista da praça, presença discreta que parece observar mais do que revela.
O grande mérito do romance está na forma como o mistério policial se entrelaça ao regionalismo. A autora utiliza expressões típicas, costumes locais e referências culturais do sertão paraibano para dar autenticidade à narrativa. O cenário não é apenas pano de fundo; ele molda comportamentos, decisões e conflitos. A seca, o calor e as relações de vizinhança compõem uma atmosfera que intensifica a sensação de clausura e vigilância constante.
Ao mesmo tempo, “Mortes no Sobrado” vai além da investigação criminal. A obra propõe uma reflexão sobre heranças históricas e ciclos de opressão. O poder exercido pelo coronel no passado não se dissolve com sua morte; ele reverbera nas estruturas sociais, na desigualdade e na dificuldade de romper com padrões antigos. O crime, nesse contexto, não é um acontecimento isolado, mas resultado de um sistema que naturaliza abusos e silencia vítimas.
Mesmo envolta em sombras, a narrativa preserva espaço para a esperança. A postura ética do inspetor Pingo D’Água representa a possibilidade de romper o ciclo. Sua insistência em buscar a verdade, ainda que isso desagrade figuras influentes, sugere que justiça pode ser lenta, mas não precisa ser inexistente.
Com linguagem acessível e forte senso de lugar, Fátima Sá Paraíba entrega um romance que dialoga tanto com leitores apaixonados por suspense quanto com aqueles interessados em histórias marcadas por identidade e crítica social. “Mortes no Sobrado” é, acima de tudo, um lembrete de que memórias reprimidas não desaparecem — elas aguardam o momento certo para retornar.
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