Foto: Reprodução/ Internet

Existe algo profundamente instável e indomável em O Morro dos Ventos Uivantes — e talvez por isso, desde 1847, artistas de todas as gerações tentem decifrá-lo. Agora, mais de um século e meio depois, a cineasta vencedora do Oscar Emerald Fennell encara esse desafio com uma coragem estética que poucas histórias exigem. Com o lançamento do primeiro trailer oficial pela Warner Bros. Pictures, fica claro: ela não veio repetir nada. Veio incendiar o que restou.

Ao assistir ao vídeo, a sensação é quase clandestina: como se o espectador invadisse um terreno emocional privado, intenso e desconfortável. A fotografia carregada, as sombras vivas, os movimentos de câmera inquietos e a trilha de Charli XCX criam uma estética moderna, sensual e perturbadora. Fennell não parece interessada na beleza da paixão, mas em seus danos — na forma como o amor, quando nasce torto, consome tudo ao redor.

O filme estreia nos cinemas brasileiros em 12 de fevereiro de 2026, mas o impacto do material de divulgação já o transforma em um dos projetos mais comentados do próximo ano — tanto pela ousadia visual quanto pelo reencontro entre dois nomes que já provaram ter química explosiva diante e atrás das câmeras: Margot Robbie e Jacob Elordi.

Margot Robbie e Jacob Elordi: tempestades espelhadas

Margot Robbie entrega uma Catherine de intensidade rara. Há algo inquietante na forma como ela sorri e logo depois parece despedaçar-se por dentro; como segura a borda de um vestido como quem tenta fugir do próprio corpo. É uma Catherine menos romântica e mais humana, vulnerável a ponto de machucar. Jacob Elordi, por sua vez, apresenta um Heathcliff que mistura charme, brutalidade emocional e silêncio. Ele não é vilão nem herói: é alguém que nunca aprendeu a ser amado e, por isso, mal sabe amar sem ferir. Juntos, eles funcionam como tempestades que se reconhecem — sedutoras, imprevisíveis, perigosas. E Fennell, que já dirigiu Elordi em Saltburn, sabe exatamente como capturar essa combustão.

Um gótico que abraça o sensual e o assustador

Muitos insistem em ver O Morro dos Ventos Uivantes como uma história de amor, mas Emerald Fennell parece determinada a revelar o que o livro sempre gritou: trata-se de obsessão. Pessoas que confundem posse com afeto, dor com devoção, paixão com destruição. O trailer não suaviza nada. A paleta de cores traz neblina, terra molhada, suor, sangue e tecidos pesados, e os corredores da casa Earnshaw parecem vivos — carregados por memórias de brigas, gritos e segredos sussurrados ao pé da porta. Este não é um filme que busca ser bonito. É um filme que deseja ser visceral.

Um elenco de apoio que sustenta a tragédia

O longa conta com um time que adiciona profundidade emocional à narrativa: Hong Chau, como Nelly Dean, observa tudo enquanto carrega histórias que não lhe pertencem; Shazad Latif, como Edgar Linton, surge com uma elegância vulnerável que contrasta com o caos de Heathcliff; Alison Oliver, como Isabella Linton, tenta amar um homem incapaz de lidar com o amor; Martin Clunes, como Sr. Earnshaw, altera o destino de todos ao levar Heathcliff para casa; e Ewan Mitchell surge em um papel sombrio e enigmático, já apelidado pelos fãs como “o chicote da desgraça”. Crianças estreantes também interpretam as versões jovens dos protagonistas — fundamental, já que a semente dessa relação doentia nasce justamente na infância.

A disputa pelos direitos e o desejo de permanecer nos cinemas

A história por trás da produção é quase tão turbulenta quanto o romance de Brontë. A Netflix chegou a oferecer cerca de US$ 150 milhões pelos direitos de distribuição, uma oferta que paralisou a indústria e parecia impossível de superar. Mas Emerald Fennell, apoiada por Margot Robbie como produtora, tinha um propósito claro: essa história precisava estrear nos cinemas, precisar sentir a escuridão da sala, o som envolvente e a tela grande devorando o público. Não fazia sentido confiná-la ao streaming. A Warner Bros., mesmo oferecendo menos dinheiro, garantiu o que elas queriam — salas, campanha, experiência. Assim, venceu não pela cifra, mas pelo compromisso.

Por que esse romance sempre volta — e ainda dói?

Alguns clássicos sobrevivem porque são atemporais; outros, porque são dolorosos demais para morrer. O Morro dos Ventos Uivantes pertence à segunda categoria. Emily Brontë escreveu uma história que se recusa a ser romantizada: é sobre feridas herdadas, sobre o amor que destrói, sobre rancor, vingança e a impossibilidade de abandonar alguém que marca como cicatriz. E é exatamente essa crueza que Emerald Fennell parece determinada a resgatar. Ela não quer o amor idealizado — quer o amor intoxicado. Talvez por isso, mesmo em 2025, Catherine e Heathcliff continuem tão reais. Porque todos já viram, viveram ou temeram uma história assim.

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Esdras Ribeiro
Além de fundador e editor-chefe do Almanaque Geek, Esdras também atua como administrador da agência de marketing digital Almanaque SEO. É graduado em Publicidade pela Estácio e possui formação técnica em Design Gráfico e Webdesign, reunindo experiência nas áreas de comunicação, criação visual e estratégias digitais.

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