
Em Ao Meu Redor, André Vianco retorna ao horror com uma proposta clara: usar o sobrenatural não como espetáculo, mas como consequência direta de escolhas morais extremas. O livro parte de uma pergunta provocadora — até onde alguém iria para escapar do próprio inferno? — e responde de forma cruel: sempre existe algo pior à espera.
A protagonista, Teodora, é uma policial corrupta que já surge no limite da queda. Não há tentativa de torná-la simpática ou justificável, e esse é um dos acertos do romance. Sua relação com Raoni, chefe do tráfico, é baseada em conveniência e violência, e a traição que sofre apenas acelera um colapso que já estava em curso. Quando Teodora mata Raoni e inicia uma corrida desesperada atrás do dinheiro do crime, a narrativa assume um ritmo sufocante, marcado por paranoia, culpa e impulsos destrutivos.
O ponto de virada da história acontece com a entrada de Jéssica, a irmã afastada, uma cientista brilhante e emocionalmente instável. A criação da Iboga-7 — uma droga capaz de abrir um canal entre vivos e mortos — desloca o livro do thriller criminal para o horror metafísico. Vianco acerta ao tratar essa transição não como ruptura, mas como aprofundamento: o sobrenatural surge como extensão do caos psicológico e moral das personagens.
A relação entre as duas irmãs é um dos pilares mais interessantes da narrativa. Não há afeto idealizado, apenas ressentimento, dependência e feridas antigas nunca cicatrizadas. O terror que se desenrola no “outro lado” é constantemente atravessado por traumas familiares, tornando difícil separar o que é manifestação do além e o que é projeção da culpa. Ao Meu Redor deixa claro que atravessar mundos não significa escapar de si mesmo.
O horror aqui não se constrói apenas com monstros ou visões perturbadoras, mas com a sensação constante de aprisionamento. O além apresentado por Vianco é hostil, opressor e profundamente psicológico. A experiência é menos sobre o medo do desconhecido e mais sobre o reconhecimento de que certas condenações são autoimpostas. Nesse sentido, o livro se aproxima mais do horror existencial do que do terror clássico.
Narrativamente, Vianco aposta em uma escrita direta, agressiva e sem concessões. O ritmo é intenso, por vezes quase exaustivo, o que reforça a sensação de desespero que acompanha as protagonistas. Em alguns momentos, o excesso de brutalidade pode afastar leitores mais sensíveis, mas essa escolha parece consciente: Ao Meu Redor não quer ser confortável.
O maior mérito do livro está em sua coerência temática. O sobrenatural nunca surge como solução, apenas como ampliação da tragédia. Não há redenção fácil, nem punições simplistas. O horror verdadeiro não está apenas no mundo dos mortos, mas na soma de escolhas feitas em vida — e nas consequências que continuam ecoando depois dela.
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