Desde a primeira página, fica claro que Daniel Freedman e Robert Sammelin não estão interessados em introduções delicadas ou construções graduais: aqui, a narrativa começa no impacto e só desacelera quando já é tarde demais. Esfaqueada, envenenada e descartada pela própria gangue de motociclistas, Kali não inicia uma jornada de redenção ou aprendizado — ela entra em modo de sobrevivência absoluta. O mundo ao redor pode estar em ruínas, mas a verdadeira devastação já aconteceu dentro dela.

O cenário é um deserto pós-apocalíptico que parece existir apenas para reforçar a brutalidade da experiência. Não há nostalgia, não há esperança de reconstrução, não há promessas de futuro. Tudo em Kali é presente imediato: o agora da dor, o agora da perseguição, o agora da vingança. A influência de Mad Max é evidente, mas o quadrinho não tenta disfarçar isso — pelo contrário, abraça o excesso como identidade. Explosões, perseguições, corpos em colisão e motores rugindo formam uma sinfonia caótica que sustenta praticamente toda a narrativa.

Kali, como protagonista, é menos uma pessoa no sentido tradicional e mais uma força em movimento. Ela fala pouco, sente pouco (ou, ao menos, não demonstra) e age o tempo todo. Seu corpo ferido — envenenado, sangrando, quebrado — se torna parte essencial da história, quase um cronômetro narrativo: cada página reforça a ideia de que o tempo está acabando. A morte não é uma possibilidade distante, mas uma presença constante, correndo junto com ela na estrada. Essa escolha torna a leitura visceral, mas também impõe limites claros à profundidade emocional da personagem.

O quadrinho não se preocupa em explicar motivações com longos diálogos ou flashbacks extensos. A traição da gangue é apresentada como fato consumado, e a vingança surge não como escolha moral, mas como instinto. Isso dá à obra uma honestidade brutal: não há justificativas, apenas consequências. Kali não quer redenção, justiça ou compreensão — ela quer sobreviver tempo suficiente para causar dano. E, nesse sentido, o roteiro é coerente do início ao fim.

Visualmente, Kali é um ataque sensorial. O traço de Robert Sammelin é agressivo, sujo e deliberadamente exagerado. Os enquadramentos transmitem velocidade e descontrole, enquanto as expressões faciais e os corpos em movimento reforçam a ideia de um mundo onde tudo é extremo. Não há beleza tradicional no desenho, mas há energia — muita energia. Cada página parece vibrar, como se estivesse prestes a sair do papel. É um estilo que pode cansar leitores mais sensíveis à repetição visual, mas que funciona perfeitamente dentro da proposta da obra.

Por outro lado, essa aposta constante no impacto também revela a principal fragilidade do quadrinho. Kali raramente permite pausas. Não há silêncio narrativo, não há momentos de reflexão prolongada, não há espaço para que o leitor respire. Em determinados pontos, a sucessão ininterrupta de ação começa a perder força justamente por nunca variar de tom. O excesso, que inicialmente empolga, pode se tornar saturante. A sensação é a de assistir a uma perseguição interminável — eletrizante, sim, mas emocionalmente plana.

Outro ponto que merece atenção é a construção do mundo. Embora o cenário apocalíptico seja visualmente forte, ele permanece genérico em muitos aspectos. Sabemos que há uma guerra, que há facções, que a violência é regra, mas pouco se explora sobre como esse mundo funciona além da estrada. Isso não chega a comprometer a narrativa, mas reforça a impressão de que o universo existe apenas para servir à ação, não para ser compreendido.

Ainda assim, seria injusto cobrar de Kali algo que ele claramente não se propõe a oferecer. Este não é um quadrinho sobre complexidade psicológica, reconstrução social ou dilemas filosóficos profundos. É uma obra sobre fúria, movimento e resistência corporal. Kali sobrevive não porque acredita em algo maior, mas porque se recusa a cair. E há algo de poderoso nessa recusa silenciosa, quase animalesca.

No fim, Kali se destaca como uma experiência intensa, direta e sem concessões. Não é uma leitura confortável, nem pretende ser. É um quadrinho que entende sua própria natureza e vai até o limite dela, mesmo correndo o risco de se desgastar no processo. Para leitores que buscam ação pura, estética agressiva e um ritmo que não pede licença, a obra entrega exatamente o que pro

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Avaliação geral
Nota do crítico
Esdras Ribeiro
Além de fundador e editor-chefe do Almanaque Geek, Esdras também atua como administrador da agência de marketing digital Almanaque SEO. É graduado em Publicidade pela Estácio e possui formação técnica em Design Gráfico e Webdesign, reunindo experiência nas áreas de comunicação, criação visual e estratégias digitais.
resenha-kali-e-um-grito-de-vinganca-acelerado-ate-a-exaustaoKali é um quadrinho de ação extrema que aposta na velocidade, na violência e no impacto visual para contar uma história de vingança em um mundo pós-apocalíptico. Com uma protagonista movida mais pelo instinto do que pela reflexão, a obra entrega uma leitura intensa e coerente com sua proposta, embora sacrifique profundidade emocional e construção de mundo em favor do espetáculo constante.

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