O Alquimista de Bastos nasce de uma pergunta simples e irresistível: e se a alquimia tivesse dado certo? A partir dessa ideia, o livro constrói uma França alternativa do século XVIII que intriga desde o primeiro momento. Aqui, o paganismo deixa de ser perseguido e passa a ocupar o centro das políticas do Estado, enquanto a alquimia abandona o campo da crença para se firmar como ciência reconhecida. Esse cenário reinventado não serve apenas como pano de fundo, mas molda toda a narrativa, criando uma atmosfera densa, carregada de tensão política e dilemas morais constantes.

É nesse contexto que conhecemos Damian Willard, um britânico que chega a Paris fingindo ser apenas mais um estudante. Por trás da fachada acadêmica, porém, ele esconde sua verdadeira missão: investigar o desaparecimento de jovens ligados a um curso de esoterismo. Damian é um protagonista profundamente humano. Jornalista, racional e cético, ele se vê cercado por um universo onde fé, símbolos e poder se misturam de forma sedutora e perigosa. Esse conflito interno — entre aquilo em que acredita e aquilo que começa a presenciar — sustenta boa parte da força emocional da história.

Ainda assim, é impossível falar do livro sem destacar Simon Durant. Misterioso, magnético e inquietante, ele rouba a atenção sempre que surge. Simon não é apenas um mestre em alquimia; ele encarna a promessa do conhecimento absoluto, do poder que transcende limites humanos. Sua presença provoca fascínio e desconforto na mesma medida. A relação que se forma entre ele e Damian é construída com cuidado, explorando nuances psicológicas, jogos de influência e uma tensão constante que faz o leitor questionar intenções e verdades a todo momento.

O suspense da obra não depende de grandes reviravoltas ou choques repentinos. Ele cresce de forma silenciosa, quase sufocante. Os desaparecimentos funcionam mais como um alerta do que como o foco central da trama. O verdadeiro perigo está nas escolhas feitas ao longo do caminho, na facilidade com que convicções podem se quebrar e no preço cobrado por se aproximar demais de conhecimentos que talvez nunca devessem ser alcançados. Aqui, a alquimia deixa de ser apenas a busca pelo ouro e se transforma em metáfora para mudança, corrupção e perda de si mesmo.

A escrita acompanha esse tom com elegância e cuidado. As descrições da Paris alquímica, do ambiente universitário e dos rituais são ricas e imersivas, convidando o leitor a caminhar por esse mundo com atenção. O ritmo é mais contemplativo, o que favorece a atmosfera, mas exige entrega. O Alquimista de Bastos não é um livro para ser devorado com pressa, e sim absorvido aos poucos, como um experimento perigoso que precisa ser observado com cautela.

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Avaliação geral
Nota do crítico
Esdras Ribeiro
Além de fundador e editor-chefe do Almanaque Geek, Esdras também atua como administrador da agência de marketing digital Almanaque SEO. É graduado em Publicidade pela Estácio e possui formação técnica em Design Gráfico e Webdesign, reunindo experiência nas áreas de comunicação, criação visual e estratégias digitais.
resenha-o-alquimista-de-bastos-e-uma-fantasia-historica-inquietanteO Alquimista de Bastos é aquele tipo de livro que conquista pela atmosfera antes mesmo de conquistar pela trama. Desde as primeiras páginas, somos lançados em uma França do século XVIII que parece familiar, mas funciona sob regras completamente diferentes. O paganismo é política oficial, a alquimia é ciência legitimada e o senso de moral parece constantemente em disputa. Esse cenário, por si só, já prende o leitor.

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