
O cinema espanhol viveu um momento histórico na mais recente edição do Prêmio Goya. O longa Surda saiu consagrado com três estatuetas e protagonizou um marco de representatividade: Miriam Garlo tornou-se a primeira mulher surda a vencer um Goya, ao receber o prêmio de Melhor Atriz Revelação.
Dirigido por Eva Libertad, irmã da protagonista, o filme também garantiu à cineasta o troféu de Melhor Direção Estreante. Já Álvaro Cervantes, que interpreta Héctor, levou o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante. A produção chega aos cinemas brasileiros em 14 de maio, com distribuição da Retrato Filmes.
Mais do que uma vitória artística, “Surda” simboliza um avanço importante na discussão sobre inclusão, identidade e protagonismo de pessoas com deficiência no audiovisual.
Um discurso que ecoou além do teatro
A cerimônia foi marcada por discursos emocionantes. Ao subir ao palco para receber seu prêmio, Miriam Garlo fez uma fala que rapidamente repercutiu nas redes e na imprensa internacional:
“Nenhuma pessoa surda é muda. Somos pessoas surdas, temos nossa própria identidade e nossa própria voz, mas nem sempre é oral.”
A declaração foi recebida com aplausos de pé e reforçou um ponto central do filme: a necessidade de romper estereótipos e ampliar a compreensão sobre a comunidade surda.
Eva Libertad também compartilhou suas inquietações iniciais. Segundo a diretora, havia o receio de que o longa fosse rotulado como um filme “de nicho”, restrito a um público específico. O que aconteceu foi o oposto. “Encontramos um público que nos acolheu de braços abertos”, afirmou. A recepção calorosa confirma que histórias particulares podem, sim, alcançar dimensão universal quando contadas com honestidade e sensibilidade.
Álvaro Cervantes, por sua vez, aproveitou o momento para refletir sobre o capacitismo estrutural presente na sociedade. “As pessoas surdas que conheci nesse filme me fizeram entender que a empatia não pode se basear apenas em boas intenções, mas sim em analisar nossos próprios privilégios”, declarou o ator.
Da vivência pessoal para as telas
Baseado em um curta-metragem homônimo, “Surda” nasce de uma experiência profundamente íntima. A história acompanha Ângela, uma mulher surda que engravida de seu parceiro ouvinte, Héctor. A chegada do bebê, que deveria ser apenas motivo de celebração, revela tensões invisíveis no relacionamento e expõe as barreiras impostas por uma sociedade pouco preparada para acolher pessoas com deficiência.
A maternidade surge como ponto central da narrativa. Ângela precisa lidar com inseguranças, julgamentos externos e o desafio de criar sua filha em um mundo estruturado majoritariamente para ouvintes. O filme não romantiza a situação, mas também não a transforma em um drama excessivamente sombrio. Há delicadeza, contradições e momentos de afeto que equilibram a intensidade do tema.
A escolha de Miriam Garlo para interpretar uma personagem inspirada em sua própria vivência confere autenticidade à produção. A atuação é construída a partir de gestos, olhares e silêncios que comunicam tanto quanto qualquer diálogo falado.
Reconhecimento internacional
Antes mesmo de conquistar o Goya, “Surda” já vinha trilhando uma trajetória consistente em festivais. O filme teve estreia mundial no Festival Internacional de Cinema de Berlim, onde integrou a Mostra Panorama e conquistou o Prêmio do Público — um indicativo da conexão imediata com espectadores de diferentes culturas.
Ao longo do circuito internacional, também foi premiado em festivais como Seattle, Málaga e Guadalajara. No Brasil, a primeira exibição ocorreu no Festival do Rio, onde despertou atenção pela abordagem sensível e pela força da protagonista.
Esse percurso reforça a dimensão global da obra. Ainda que trate de uma realidade específica, o filme dialoga com questões universais: pertencimento, comunicação, preconceito e amor.
Acessibilidade como prioridade
Coerente com sua temática, a estreia brasileira de “Surda” contará com recursos de acessibilidade em todas as sessões. O longa terá legenda descritiva, audiodescrição e interpretação em Libras por meio do aplicativo Conecta (@conectaacessibilidade), que permite o download desses recursos diretamente no celular, dentro da sala de cinema.
A iniciativa amplia o alcance da produção e reforça a importância de tornar o cinema um espaço verdadeiramente inclusivo. Não se trata apenas de contar histórias sobre pessoas com deficiência, mas de garantir que elas também possam acessar plenamente essas narrativas.
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