
O cinema brasileiro dá um passo ousado e simbólico rumo a novos territórios narrativos com “Yellow Cake”, longa-metragem dirigido por Tiago Melo, que acaba de divulgar seu primeiro trailer e já se posiciona como um dos filmes nacionais mais relevantes do ano. A produção é o único representante do Brasil na Tiger Competition do Festival Internacional de Cinema de Roterdã, uma das mostras mais prestigiadas do circuito mundial, conhecida por destacar obras autorais, inovadoras e de forte identidade estética.
Com estreia mundial marcada para o dia 2 de fevereiro, Yellow Cake chega ao festival apresentando uma proposta rara no audiovisual nacional: uma ficção científica brasileira profundamente conectada à cultura popular, aos saberes tradicionais e às tensões sociais do país, especialmente do Nordeste. Estrelado por Rejane Faria (Marte Um), Tânia Maria (O Agente Secreto) e Valmir do Côco (Azougue Nazaré), o filme mistura elementos científicos, políticos e fantásticos em uma narrativa que dialoga diretamente com medos reais da população brasileira.
Um futuro próximo moldado por uma ameaça conhecida
A trama de Yellow Cake se passa em um futuro próximo, onde o Brasil enfrenta uma crise sanitária sem precedentes provocada pelas doenças transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti. Dengue, zika e chikungunya deixaram de ser problemas sazonais e passaram a representar uma ameaça constante à saúde pública. Diante desse cenário crítico, a pequena cidade de Picuí, localizada no sertão da Paraíba, é escolhida para sediar um experimento científico internacional que promete erradicar definitivamente o mosquito.
Um grupo de cientistas estrangeiros chega à região para conduzir testes sigilosos utilizando urânio extraído localmente como parte do processo experimental. No entanto, o que parecia ser a solução definitiva rapidamente se transforma em um pesadelo. O teste fracassa, eventos estranhos começam a se manifestar na cidade e a sensação de controle dá lugar ao medo do desconhecido.
É nesse contexto que surge Rúbia Ribeiro (Rejane Faria), uma cientista nuclear brasileira diretamente envolvida no projeto. Quando a situação sai do controle, ela se vê obrigada a assumir a liderança e enfrentar não apenas as consequências científicas do experimento, mas também os dilemas éticos, humanos e sociais que ameaçam transformar o desastre local em uma catástrofe de proporções nacionais — ou até globais.
Picuí como personagem e território simbólico
Mais do que um simples cenário, Picuí se impõe como um verdadeiro personagem dentro da narrativa. Situada em uma região conhecida pelas chamadas “Terras Raras”, a cidade carrega uma história marcada pela mineração e pela presença de minerais estratégicos como nióbio, tântalo e urânio. Esses elementos fazem parte tanto da economia local quanto do imaginário popular, alimentando histórias transmitidas de geração em geração sobre contaminações, mutações e transformações inexplicáveis.
Tiago Melo se apropria desse universo simbólico para construir uma ficção científica que nasce do chão nordestino, conectando realidade, mito e especulação científica. A presença constante da mineração e seus impactos ambientais e humanos funcionam como metáfora para discutir temas urgentes como exploração de recursos naturais, colonialismo científico, desigualdade regional e a relação entre progresso e destruição.
Um elenco que reforça a força do cinema nacional
O elenco de Yellow Cake reúne nomes que vêm se destacando no cinema brasileiro contemporâneo. Rejane Faria, após o reconhecimento internacional com Marte Um, assume aqui um papel denso e desafiador, dando vida a uma protagonista feminina complexa, científica e nordestina — uma figura ainda pouco explorada no gênero.
Tânia Maria, revelação recente em O Agente Secreto, amplia sua presença no cinema nacional com uma atuação que promete intensidade e profundidade emocional. Já Valmir do Côco, colaborador recorrente de Tiago Melo, traz para o filme a força de personagens enraizados na cultura popular, ajudando a construir o contraste entre o saber científico institucionalizado e os conhecimentos tradicionais da região.
Retorno triunfal a Roterdã
Yellow Cake marca o retorno de Tiago Melo ao Festival de Roterdã, onde ele foi premiado em 2018 com o Bright Future Award por Azougue Nazaré. Agora, o cineasta integra a Tiger Competition, considerada o coração artístico do festival, voltada a diretores que apresentam obras autorais e ousadas.
“Estar de volta a Roterdã, agora participando da Tiger, é muito especial”, afirma Tiago Melo. “Acreditamos que este é o lugar ideal para apresentar o filme pela primeira vez, pois o festival dialoga diretamente com o tipo de cinema que buscamos fazer, especialmente com o universo fantástico que exploramos em Yellow Cake.”
Além da sessão de estreia no dia 2 de fevereiro, o longa terá novas exibições nos dias 4 e 6, ampliando seu contato com o público internacional. Após a première, haverá um Q&A com Tiago Melo e Rejane Faria, que também participam de outro encontro com o público após a sessão do dia 4, fortalecendo o diálogo entre realizadores e espectadores.
Uma produção brasileira com alcance internacional
O filme é uma produção da Lucinda Filmes, Urânio Filmes e Jaraguá Produções, com coprodução da Cinemascópio e Olhar Filmes. A distribuição nos cinemas brasileiros ficará a cargo da Olhar Filmes, o que indica uma futura circulação nacional após sua trajetória em festivais.
Yellow Cake foi viabilizado por meio de recursos do Fundo Setorial do Audiovisual, Funcultura, Sic Recife e da Lei Paulo Gustavo, além de contar com o apoio do Projeto Paradiso, fundamental para sua estratégia de lançamento internacional e inserção em um dos principais festivais do mundo.
Para não perder nenhuma novidade do universo geek, acompanhe nossas atualizações diárias sobre filmes, séries, televisão, HQs e literatura no Almanaque Geek. Siga o site nas redes sociais — Facebook, Twitter/X, Instagram e Google News — e esteja sempre por dentro do que está movimentando o mundo da cultura pop.




















