Asterix Omnibus (Vol. 2) é, ao mesmo tempo, um lembrete do enorme talento criativo de René Goscinny e Albert Uderzo e uma prova de como um clássico pode sobreviver — e ser questionado — fora do seu tempo original. A coletânea reúne três aventuras fundamentais (Asterix Gladiador, Uma Volta pela Gália com Asterix e Asterix e Cleópatra), mas o que realmente sustenta o volume não é apenas o humor, e sim a inteligência política por trás de cada piada.

Por trás do tom leve e do traço cartunesco, Asterix sempre foi um comentário ácido sobre poder, imperialismo e resistência cultural. Aqui, isso fica ainda mais evidente. Os romanos não são apenas vilões caricatos; representam sistemas burocráticos, autoritários e absurdamente confiantes na própria superioridade. A aldeia gaulesa, por sua vez, funciona como metáfora da identidade que se recusa a ser apagada — nem pela força, nem pela “civilização” imposta.

Em Asterix Gladiador, o espetáculo da violência romana é tratado com humor, mas também com crítica clara: transformar sofrimento em entretenimento é uma prática antiga — e assustadoramente atual. A forma como Asterix e Obelix subvertem o sistema dos gladiadores expõe o ridículo de uma estrutura que só funciona enquanto ninguém questiona suas regras. O riso aqui não é inocente; é corrosivo.

Uma Volta pela Gália com Asterix talvez seja a história mais politicamente afiada do volume. A tentativa romana de isolar a aldeia com uma paliçada é uma imagem poderosa de controle territorial e cerceamento cultural. A resposta dos gauleses — atravessar o país celebrando comidas, sotaques e costumes — transforma a gastronomia em ato de resistência. É uma aventura simples na forma, mas sofisticada no discurso, exaltando a diversidade como antídoto contra a homogeneização forçada.

Já Asterix e Cleópatra brinca com vaidade, poder e ego nacional, usando o Egito como palco para uma sátira sobre líderes que confundem grandeza pessoal com grandeza histórica. Apesar do tom cômico, há aqui uma crítica direta à obsessão por monumentos, fama e legado, enquanto pessoas comuns lidam com as consequências dessas ambições.

Ainda assim, vale dizer: nem tudo envelheceu perfeitamente. Algumas piadas visuais e estereótipos refletem o contexto da época e podem soar datados para leitores mais atentos hoje. Isso não invalida a obra, mas convida à leitura crítica — algo que, ironicamente, combina muito com o espírito questionador da própria série.

No fim, Asterix Omnibus (Vol. 2) funciona menos como simples entretenimento infantil e mais como uma aula disfarçada de quadrinhos. Um clássico que diverte, sim, mas que também provoca, ironiza o poder e lembra que rir pode ser um ato profundamente político.

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Avaliação geral
Nota do crítico
Esdras Ribeiro
Além de fundador e editor-chefe do Almanaque Geek, Esdras também atua como administrador da agência de marketing digital Almanaque SEO. É graduado em Publicidade pela Estácio e possui formação técnica em Design Gráfico e Webdesign, reunindo experiência nas áreas de comunicação, criação visual e estratégias digitais.
resenha-asterix-omnibus-volume-2-e-a-prova-de-que-o-humor-tambem-pode-ser-um-ato-de-resistenciaAsterix Omnibus (Volume 2) reúne três aventuras clássicas que vão muito além do entretenimento leve. Por trás das piadas, das pancadarias cartunescas e da famosa poção mágica, a obra constrói uma sátira afiada sobre poder, imperialismo e identidade cultural. Cada história usa o humor como ferramenta de crítica: seja ao transformar a violência em espetáculo, ao ironizar o controle territorial romano ou ao ridicularizar a vaidade dos grandes líderes. Mesmo com alguns elementos datados, o volume segue atual ao mostrar que resistir também pode ser rir, e que questionar estruturas de poder nunca sai de moda.

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