
Lançada sem grande alarde no catálogo da Netflix, Santita chama atenção por seguir um caminho pouco confortável dentro do drama contemporâneo. Em vez de conduzir o espectador por uma narrativa de superação previsível, a produção opta por um retrato mais áspero das relações humanas, onde nem sempre há evolução clara ou aprendizado evidente.
A trama acompanha María José Cano, conhecida como Santita, vivida por Paulina Dávila. Médica, ela vê sua vida sofrer uma ruptura brusca após um acidente que a deixa em uma cadeira de rodas. O ponto de partida poderia conduzir a uma narrativa inspiradora, mas a série evita esse caminho. O foco recai sobre as fissuras emocionais que emergem dessa nova condição, explorando como a mudança impacta sua forma de se relacionar com o mundo.
O que a série aborda?
A narrativa gira em torno de temas como autonomia, orgulho e afeto, mas sem recorrer a didatismos ou lições prontas. Santita é construída como uma protagonista difícil, que não busca compreensão nem tenta suavizar suas atitudes. Suas reações frequentemente afastam quem está ao seu redor, criando uma dinâmica que desafia o espectador a permanecer interessado mesmo sem um vínculo empático imediato.
A reentrada do ex-noivo na história reforça essa proposta. Em vez de abrir espaço para reconciliações idealizadas, o reencontro é marcado por desconforto e ressentimentos acumulados. Há um passado mal resolvido que se impõe em cada diálogo, revelando uma relação atravessada por frustrações e silêncios prolongados. A série utiliza esse vínculo para tensionar questões sobre orgulho, desgaste emocional e a viabilidade de relações em que nenhuma das partes parece disposta a ceder.
O roteiro assinado por Luis Cámara e Gabrielle Galanter aposta em uma condução pouco convencional. Os conflitos não caminham para resoluções claras; ao contrário, são prolongados, revisitados e, em alguns momentos, reiterados. Essa escolha reforça a proposta de realismo, mas também pode gerar a sensação de estagnação narrativa, especialmente quando determinadas situações parecem se repetir sem avanço significativo.
Na direção, Rodrigo García adota um ritmo deliberadamente lento. A mise-en-scène valoriza silêncios, pausas e diálogos inconclusivos, criando uma atmosfera que oscila entre o intimismo e a dispersão. Em seus melhores momentos, essa abordagem aproxima o espectador da experiência dos personagens; em outros, evidencia um excesso de dilatação que compromete a fluidez do episódio.
Como funcionam as atuações?
Paulina Dávila sustenta a narrativa com uma interpretação econômica e precisa. Sua composição evita grandes explosões dramáticas e se apoia em nuances, utilizando olhares e pausas para revelar camadas da personagem. No papel de Simón, Mauricio Garcia Muela funciona como contraponto emocional. Sua atuação transmite um esforço constante de reconexão, frequentemente frustrado pela resistência de Santita, o que mantém a relação em um estado permanente de tensão. Héctor Kotsifakis, como Genaro, contribui para ampliar o universo da protagonista, embora seu arco narrativo careça de maior desenvolvimento. Já Harding Junior, interpretando Pascal, aparece de forma pontual, funcionando mais como elemento de apoio na dinâmica relacional.
Vale a pena assistir?
Santita não é uma obra interessada em agradar a todos os públicos. Sua recusa em seguir estruturas tradicionais e em oferecer resoluções claras pode afastar quem busca narrativas mais ágeis ou emocionalmente acessíveis. Por outro lado, a série se destaca ao propor um olhar mais cru sobre relações humanas, evitando simplificações e respostas fáceis. Para o espectador disposto a acompanhar uma história centrada em personagens imperfeitos e conflitos persistentes, trata-se de uma experiência consistente, ainda que, por vezes, irregular em seu ritmo e desenvolvimento.













