
Após a morte de Cameron Boyce e a saída de Dove Cameron, Sofia Carson e Booboo Stewart, a franquia Descendentes precisou encontrar um novo caminho. Quando a Disney decidiu retomar a série com um quarto filme centrado em Red e Chloe, o resultado ficou muito abaixo do que se esperava. O longa anterior tomou decisões narrativas questionáveis, bagunçou o próprio cânone ao colocar heróis e vilões estudando juntos no passado e ainda sofreu com problemas técnicos evidentes, como perucas que mudavam de aparência entre as cenas e a promessa de um baile que nunca chegou a acontecer.
Parecia difícil imaginar um retorno convincente. Felizmente, Descendentes: País das Maravilhas Malvado consegue mostrar que ainda havia espaço para recuperar a franquia.
A maior qualidade do quinto filme está justamente na disposição de corrigir os erros anteriores. A história começa contextualizando as consequências da viagem no tempo apresentada no longa passado, evitando que o público fique perdido diante da nova realidade. A premissa também funciona melhor ao explorar a ideia de que toda ação gera uma consequência.
Como a Rainha de Copas agora é uma pessoa boa, surge um novo espaço para o conflito. É nesse cenário que aparece Maddox, filho do Chapeleiro Maluco, interpretado por Leonardo Nam. O personagem assume o papel de antagonista e sequestra a Rainha dentro do próprio palácio. A dinâmica lembra, em alguns aspectos, o que Audrey fez em Descendentes 3, com o vilão agindo pelas sombras e estabelecendo as próprias regras.
Essa nova realidade também coloca Red e Chloe diante de conflitos mais interessantes. Red, vivida por Kylie Cantrall, precisa se adaptar a uma posição social completamente diferente. Sem o peso de ser vista como uma vilã, ela já não exerce o mesmo tipo de influência sobre as pessoas ao seu redor. Chloe, interpretada por Malia Baker, por sua vez, descobre que sua mãe, Cinderela, se tornou uma figura muito mais rígida no presente.
A relação entre as duas protagonistas é um dos pontos mais bem trabalhados do filme. Suas diferenças são exploradas de maneira mais natural, e o roteiro consegue desenvolver essa amizade sem transformar os conflitos em discussões artificiais.
O elenco de apoio, porém, oscila bastante. Em alguns momentos, surgem personagens que roubam a cena. É o caso de Max, interpretado por Brendon Tremblay, e Hazel, filha do Capitão Gancho vivida por Kiara Romero. Hazel tem uma presença forte e chama atenção sempre que aparece, enquanto Max ganha um arco dramático interessante ao questionar as perdas que seu pai sofreu por causa das mudanças provocadas pela viagem no tempo.
O humor também encontra um bom equilíbrio com Luís Madrigal, vivido por Alexandro Byrd, que acrescenta leveza à história e mostra que a expansão desse universo ainda pode render bons personagens.
Por outro lado, o filme repete um problema recorrente da franquia ao inserir figuras que parecem existir mais para ampliar a linha de produtos do que para contribuir com a narrativa. Robbie Hood, interpretado por Joel Oulette, e os gêmeos Smee são exemplos claros disso. Ambos têm pouco impacto na trama e poderiam ser retirados sem causar grandes consequências.
O mesmo acontece com Pink, a nova irmã de Red. Liamani Segura tem uma ótima voz, mas a personagem ainda não encontrou uma personalidade própria. A escolha de Ruby Rose Turner, que interpretou a versão jovem da Rainha de Copas no quarto filme, poderia ter criado uma conexão visual mais interessante entre as personagens. Pink, da forma como foi apresentada, acaba parecendo mais uma preparação para uma possível história futura do que alguém realmente importante para este capítulo.
Visualmente, o salto de qualidade é enorme. O orçamento maior aparece principalmente na construção dos cenários, com uma decisão acertada de priorizar ambientes práticos. O País das Maravilhas ganha vida justamente porque boa parte dos espaços é construída de forma física, enquanto o CGI fica concentrado em momentos que realmente precisam de efeitos digitais.
A direção de arte também corrige problemas que incomodavam no filme anterior. Os figurinos estão mais elaborados e consistentes, embora ainda exista uma dependência excessiva de roupas monocromáticas para diferenciar visualmente as protagonistas.
Na parte musical, a identidade teatral de Descendentes continua presente. A trilha sonora talvez não tenha músicas tão imediatamente memoráveis quanto as da trilogia original, mas duas sequências se destacam.
A primeira é uma disputa musical criativa em que os personagens são reduzidos de tamanho e cantam sobre um enorme tabuleiro de xadrez. A ideia é visualmente interessante e aproveita bem o conceito do País das Maravilhas. A segunda é “Heartless”, um dueto pop-rock entre Chloe e Max que injeta energia na segunda metade da história e funciona especialmente bem pela química entre os intérpretes.
O principal problema estrutural está no ritmo. A trama se passa em um período muito curto, de aproximadamente um dia e meio, e o filme raramente permite que os personagens respirem. Falta aquela sensação de passagem de tempo presente nos primeiros capítulos, quando havia espaço para momentos cotidianos, como conversas mais longas ou cenas aparentemente simples que ajudavam a desenvolver as relações.
Aqui, quase tudo acontece em sequência. Um acontecimento leva imediatamente ao próximo, e o roteiro raramente desacelera para que as consequências sejam absorvidas pelos personagens ou pelo público.
Ainda assim, o resultado final é positivo. O desfecho deixa diversas pontas abertas e praticamente prepara o terreno para um sexto filme, mas, dessa vez, a possibilidade de continuação não parece um problema. Pelo contrário, existe a sensação de que a franquia finalmente encontrou uma direção mais segura.
Descendentes: País das Maravilhas Malvado não reinventa a fórmula, mas entende melhor o que funcionava nela. Com cenários mais convincentes, atuações mais engajadas e uma preocupação maior em respeitar a própria mitologia, o filme recupera parte do encanto perdido no capítulo anterior.
Depois de um quarto filme bastante problemático, a franquia finalmente volta aos trilhos. O resultado não chega ao nível da trilogia original, mas representa uma recuperação significativa e, até aqui, é o melhor capítulo desde Descendentes 2.
















