Se você olhar de longe, Marsupilami: Confusão a Bordo pode parecer apenas mais uma comédia infantil boba e inofensiva. E, de certa forma, o filme realmente abraça essa proposta. A diferença é que ele não trata o público como se fosse incapaz de entender uma piada mais elaborada. Enquanto as crianças podem se divertir com o visual colorido e as situações absurdas, os adultos encontram um humor mais ácido, com algumas piadas que provavelmente vão passar despercebidas pelos mais novos.

O filme sabe exatamente o que quer ser e não tenta esconder sua própria tosquice. A premissa é simples e coloca a história em movimento rapidamente. David, personagem de Philippe Lacheau, recebe a missão de transportar uma carga misteriosa em um cruzeiro rumo à América do Sul. O conteúdo da encomenda, porém, está longe de ser comum: trata-se do Marsupilami, uma criatura amarela extremamente fofa que foi separada de sua família.

A partir daí, diferentes interesses entram em conflito. Enquanto alguns querem capturar o animal para fins científicos, outros fazem de tudo para devolvê-lo à natureza. É nesse cenário que a aventura se desenvolve, misturando perseguições, confusões e uma sucessão de situações cada vez mais absurdas.

A relação entre David e Tess, vivida por Élodie Fontan, é um dos melhores elementos da produção. Os dois atores têm uma boa sintonia em cena, e essa química ajuda a sustentar boa parte da comédia. A dinâmica do casal funciona especialmente bem nos momentos em que o filme deixa a aventura de lado para explorar os conflitos entre os personagens.

Grande parte da história acontece dentro do cruzeiro, e a direção consegue aproveitar bem esse espaço. Em produções desse tipo, é comum que o uso excessivo de tela verde prejudique a sensação de escala, mas isso não acontece aqui. Nas tomadas mais abertas, especialmente nas imagens aéreas, o navio transmite uma dimensão convincente e ajuda a manter a imersão.

O grande acerto visual, porém, está no próprio Marsupilami. Em vez de apostar em uma criatura inteiramente digital, o longa recorre a efeitos práticos e utiliza a computação gráfica de maneira mais pontual. A escolha faz diferença. O personagem ganha presença física, textura e uma aparência muito mais palpável. Sempre que aparece em cena, existe uma sensação de proximidade que seria difícil alcançar com um personagem criado exclusivamente por CGI.

Essa decisão também acaba favorecendo um dos pontos mais frágeis do filme: a atuação infantil. Corentin Guillot interpreta o filho do casal, personagem que tem uma função importante no lado emocional da história, mas cuja atuação é bastante limitada. A falta de expressão do ator mirim chama atenção em alguns momentos, principalmente durante as sequências de perigo, quando a reação do personagem deveria carregar mais peso.

A situação seria ainda mais complicada se o Marsupilami fosse completamente digital. A interação entre os dois poderia perder boa parte de sua força. A presença física da criatura, por outro lado, ajuda a sustentar a relação e torna essas cenas mais convincentes.

Quem está à frente de toda essa confusão é o próprio Philippe Lacheau, responsável pela direção, pelo roteiro e também pelo papel principal. Como diretor, ele não acerta em tudo. Há situações constrangedoras e algumas piadas que parecem ter sido incluídas apenas para prolongar a sequência. Ainda assim, o resultado geral é bastante eficiente.

Lacheau demonstra um bom domínio da linguagem da comédia e sabe trabalhar o espaço dentro do quadro. Os posicionamentos de câmera não parecem aleatórios, e algumas escolhas visuais funcionam muito bem. Logo nos primeiros minutos, por exemplo, há uma cena em que David e Tess discutem enquanto, ao fundo, completamente desfocado, o caos começa a tomar conta do ambiente. Quando os personagens finalmente percebem o que aconteceu, o estrago já está feito. É um momento simples, mas que mostra o cuidado da direção com a construção da gag.

Outro ponto positivo está na maneira como o roteiro planta informações ao longo da narrativa. Elementos apresentados no começo retornam durante o ato final, criando uma sensação de continuidade e ajudando a preparar o terreno para um desfecho cada vez mais caótico.

E quando o assunto é caos, Marsupilami não economiza. As cenas de ação passam por perseguições dentro do cruzeiro e envolvem motos, carros e até helicópteros. Uma sequência em plano-sequência se destaca pelo nível de execução e mostra uma ambição técnica que vai além do que normalmente se espera de uma comédia desse porte. Há espaço até para uma referência divertida a Dragon Ball, uma daquelas piscadelas para a cultura pop que podem arrancar um sorriso de quem reconhece.

Por trás de toda a correria, das piadas recorrentes e das situações absurdas, existe também uma história sobre família. O desejo da criança de ver os pais separados novamente juntos funciona como o principal motor emocional da trama. Aos poucos, o sequestro do Marsupilami e a crítica, um tanto superficial, à busca por viralização nas redes sociais acabam ficando em segundo plano diante dessa tentativa de reconstrução familiar.

Não sou particularmente um grande admirador de comédias, mas Marsupilami conseguiu me prender do início ao fim. O filme é exagerado, frenético e, principalmente, não tem medo de abraçar o próprio absurdo. Algumas escolhas funcionam melhor do que outras, e nem todas as piadas acertam o alvo, mas existe uma energia constante que mantém a história em movimento.

No fim, Marsupilami é uma montanha-russa. Uma experiência barulhenta, desajeitada em alguns momentos e completamente fora do eixo em outros, mas que sabe transformar essa falta de controle em parte da diversão. É uma aventura que pode funcionar para diferentes idades, com humor suficiente para arrancar risadas de quem está disposto a embarcar na brincadeira.

Avaliação geral
Nota do crítico
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Louam Leone
Apaixonado por cinema e atento aos mínimos detalhes, vejo os filmes muito além da tela: são histórias vivas, capazes de despertar emoções e que merecem ser contadas com sensibilidade. Com um olhar apurado para o roteiro e, principalmente, para a força da construção visual, busco analisar a identidade, a estética e as escolhas técnicas que tornam cada obra única.
critica-marsupilami-confusao-a-bordo-e-uma-montanha-russa-que-abraca-o-absurdo-e-surpreendeMarsupilami é aquela rara comédia que recusa a tática de subestimar o público. Enquanto as crianças se encantam pela textura e pelo visual genuíno da criatura criada com efeitos práticos, os adultos são fisgados pelo humor afiado de Philippe Lacheau. É uma verdadeira montanha-russa que equilibra ação absurda, referências à cultura pop e comédia familiar de forma inesperadamente competente.

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