O cinema brasileiro estará novamente na disputa principal do Festival de Cinema de Veneza com Retorno a Buenos Aires, novo filme dirigido por Marco Bechis, cineasta argentino-italiano conhecido por obras como Garage Olimpo, Terra Vermelha e Alambrado. A produção é uma coprodução entre Brasil e Itália e integra a competição oficial da edição de 2026, concorrendo ao Leão de Ouro.

O longa tem Adriano Giannini como protagonista e conta ainda com Paula Cohen, Eduardo Hoy, Ana Celentano, Vero Gerez e Olivia Nuss no elenco. Bechis divide o roteiro com Vijaya Bechis Boll.

Qual é a história do filme?

A trama acompanha Mariano Guerra, um homem que passou 33 anos vivendo na Itália e decide voltar à Argentina em 2008. O motivo da viagem está ligado a um dos períodos mais violentos da história recente do país: a ditadura militar.

Mariano retorna a Buenos Aires para testemunhar no julgamento dos militares responsáveis por seu sequestro, tortura e escravização durante o regime. Hospedado nas instalações do Ministério da Justiça ao lado de outros sobreviventes, ele passa os dias esperando pelo momento de prestar seu depoimento.

O reencontro com pessoas que viveram situações semelhantes faz com que lembranças antigas voltem a ocupar espaço na vida de Mariano. O julgamento representa uma tentativa de responsabilizar os envolvidos, mas a história do personagem também levanta uma questão mais difícil: como seguir vivendo depois de sobreviver a algo que matou ou destruiu tantas outras pessoas?

Por que a história tem uma ligação tão pessoal com Marco Bechis?

O tema está diretamente relacionado à trajetória do próprio diretor. Bechis foi preso político durante a ditadura argentina e já abordou os efeitos daquele período em outros trabalhos de sua carreira.

Em Retorno a Buenos Aires, porém, ele optou por contar a história de um personagem fictício. Mariano não é uma representação direta do cineasta, embora carregue uma situação que Bechis conhece de perto.

O diretor explicou que escolheu a ficção porque ela permitia abordar uma questão que continua presente em sua vida: o chamado sentimento de culpa do sobrevivente. A história se passa décadas depois dos crimes, mas o tempo não apaga necessariamente aquilo que aconteceu.

A produção também ganhou um significado especial por ter encerrado suas filmagens no período que marcou os 50 anos do início da ditadura argentina, instaurada em março de 1976.

Como foi a produção entre Brasil e Itália?

O filme teve três meses de preparação antes das gravações. As filmagens passaram quatro semanas por Porto Alegre, no Brasil, e depois seguiram para Turim, no norte da Itália, onde foram realizadas outras três semanas de trabalho.

A produção brasileira ficou a cargo da 34 Filmes, de Brasília, em parceria com as italianas Fandango, 39Films, Karta Film e Rai Cinema. O projeto também contou com recursos do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), administrados pelo BRDE, por meio do edital de coprodução internacional de 2024.

Profissionais brasileiros participaram de diferentes áreas da produção. Entre eles estão Eduardo Antunes, responsável pela direção de arte; Alessandra Tosi, na produção de elenco; Coca Serpa, no figurino; e Beto Rodrigues, como line producer. André Ristum e Patrick de Jongh assinam a produção executiva.

Para a 34 Filmes, o projeto também representa um momento importante para o cinema produzido fora do eixo tradicional do audiovisual brasileiro. A produtora destacou que Retorno a Buenos Aires é o primeiro filme da região CONNE, que reúne Centro-Oeste, Norte e Nordeste, selecionado para a competição principal do Festival de Veneza.

Quem está no elenco?

Adriano Giannini interpreta Mariano Guerra. O elenco também reúne Eduardo Hoy, que vive a versão jovem do protagonista, e Paula Cohen, no papel da juíza Desideria Losada.

Completam o elenco Ana Celentano como Amalia Mendez, Veronica Gerez como Evelyn, Olivia Nuss como Muneca, Adrian Fondari como Doctor K, Marcelo Chaparro como o advogado Enrique Caseros, Vijaya Bechis Boll como Sofia Guerra, Marcela Serli como a advogada dos militares e Maria Layla Fernandez como a promotora pública.

Quando o filme chega a Veneza?

A participação na competição oficial coloca Retorno a Buenos Aires novamente o cinema brasileiro entre os concorrentes ao principal prêmio do Festival de Veneza. A produção chega ao evento com uma história centrada em memória, julgamento e nas marcas deixadas pela ditadura argentina, mas sem transformar seu protagonista em um simples símbolo histórico.

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