Tem filmes que abraçam o absurdo e funcionam justamente por isso. Outros tentam ser sérios, realistas, quase documentais… e acabam tropeçando quando exageram na dose. Ataque Brutal, novo título da Netflix, fica preso exatamente nesse limbo desconfortável. Ele quer parecer um retrato cru de uma tragédia climática, mas ao mesmo tempo joga tubarões gigantes no meio da história como se isso fosse a coisa mais natural do mundo.

A premissa até chama atenção. Uma cidade litorânea é atingida por um furacão de categoria máxima, daqueles que deixam um rastro de destruição difícil de ignorar. Casas alagadas, ruas virando rios, pessoas isoladas, energia cortada. O início funciona. Existe uma sensação de caos real, de perigo iminente, de que algo sério está acontecendo. Por alguns minutos, o filme parece que vai seguir um caminho mais tenso, quase angustiante.

Só que essa expectativa dura pouco.

Quando o realismo afunda e o absurdo assume o controle

Quando os tubarões começam a aparecer nas águas da cidade, Ataque Brutal muda completamente de tom e parece não perceber isso. O problema não é nem a ideia em si. O cinema já mostrou várias vezes que conceitos absurdos podem render ótimos filmes quando existe consciência do próprio exagero. Aqui, no entanto, falta essa noção.

O longa continua tentando se levar a sério, mesmo quando a situação já passou do ponto do plausível. E isso quebra a experiência. Em vez de gerar tensão, muitos momentos acabam soando involuntariamente cômicos. Não porque sejam engraçados de propósito, mas porque é difícil comprar a lógica do que está acontecendo.

O espetáculo do exagero que prende, mas também cansa

Ao mesmo tempo, existe algo curioso. Mesmo com todos os problemas, o filme consegue prender a atenção. E isso acontece por um motivo bem simples: o espetáculo do absurdo. Cada novo ataque de tubarão vira quase um evento. Você sabe que vai exagerar, sabe que provavelmente não faz muito sentido, mas ainda assim quer ver até onde o filme vai.

E ele vai longe.

As cenas de ataque apostam em um nível de violência que, em vários momentos, beira o desnecessário. Não é aquele tipo de brutalidade que serve à história ou aos personagens. É mais um recurso para chocar, para causar impacto imediato. Funciona em partes, mas também cansa. Chega uma hora em que parece repetitivo, como se o filme dependesse disso para se manter interessante.

Efeitos visuais irregulares que revelam mais do que escondem

Tecnicamente, o filme também oscila bastante. O uso de efeitos visuais é inconsistente. Em algumas cenas, os tubarões até convencem, especialmente quando aparecem de forma mais sugerida, escondidos na água turva. Nessas horas, o suspense cresce e o filme mostra que poderia ter seguido um caminho mais eficiente.

Mas quando resolve mostrar demais, tudo perde força. O CGI entrega o jogo, e o perigo deixa de ser assustador para virar apenas barulho visual.

Personagens esquecíveis em meio ao caos

Outro ponto que pesa é a falta de conexão com os personagens. Em um cenário tão extremo, seria natural se importar com quem está tentando sobreviver. Só que o filme não dedica tempo suficiente para desenvolver essas pessoas. Elas estão ali mais para reagir ao caos do que para viver de fato a história.

Isso faz diferença. Sem envolvimento emocional, as cenas de perigo perdem impacto. Não importa tanto quem vai escapar ou quem não vai, porque o filme não constrói esse vínculo com o público.

Comparações inevitáveis que escancaram as falhas

Inevitavelmente, surgem comparações com produções como Águas Rasas e Predadores Assassinos, que conseguem equilibrar tensão, entretenimento e uma certa lógica interna. “Ataque Brutal” tenta seguir essa linha, mas não alcança o mesmo resultado. Falta controle, falta identidade e, principalmente, falta decidir que tipo de filme quer ser.

No fim, o problema não são os tubarões

No fim das contas, a sensação é de uma oportunidade mal aproveitada. Havia espaço para um thriller de sobrevivência intenso, talvez até angustiante, usando o desastre natural como base. Também havia espaço para um filme assumidamente exagerado, quase divertido no seu absurdo.

Mas ao tentar ser os dois ao mesmo tempo, o longa-metragem acaba não sendo nenhum deles por completo.

Ainda assim, não dá para dizer que é uma experiência totalmente descartável. Existe um certo entretenimento ali, principalmente para quem gosta de filmes caóticos, exagerados e sem muito compromisso com a lógica. É aquele tipo de produção que você assiste mais pela curiosidade do que pela qualidade.

Só não espere coerência.

Porque, no fim, o maior problema de Ataque Brutal não são os tubarões. É a falta de direção clara.

Avaliação geral
Nota do crítico
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Esdras Barbosa
Além de fundador e editor-chefe do Almanaque Geek, Esdras também atua como administrador da agência de marketing digital Almanaque SEO. É graduado em Publicidade pela Estácio e possui formação técnica em Design Gráfico e Webdesign, reunindo experiência nas áreas de comunicação, criação visual e estratégias digitais.
critica-ataque-brutal-tenta-ser-realista-mas-se-afoga-no-proprio-absurdo-com-tubaroes“Ataque Brutal”, disponível na Netflix, é um filme que chama atenção pela proposta inusitada, mas se perde na execução. A mistura entre desastre natural e ataque de tubarões até desperta curiosidade, porém o longa não consegue equilibrar realismo e absurdo. Em vários momentos, tenta ser sério demais para uma ideia tão exagerada, o que acaba quebrando a imersão.Apesar disso, o filme ainda entrega um certo nível de entretenimento. As cenas de ataque, mesmo exageradas e por vezes repetitivas, mantêm o público engajado pela curiosidade. Tecnicamente irregular e com personagens pouco desenvolvidos, a produção funciona mais como um passatempo despretensioso do que como um thriller marcante.

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