Quando Michael foi anunciado, havia duas certezas. A primeira era que qualquer filme sobre Michael Jackson seria cercado de debates. A segunda, que o interesse do público seria enorme. O que poucos imaginavam era a dimensão desse sucesso. Poucos meses após a estreia, a cinebiografia dirigida por Antoine Fuqua já acumula US$ 977 milhões nas bilheterias mundiais e assume o posto de cinebiografia musical de maior arrecadação da história.

O número impressiona porque não veio acompanhado de unanimidade. Longe disso. O longa dividiu a crítica desde as primeiras exibições, mas encontrou no público um aliado muito mais importante para sua trajetória comercial. Em um ano competitivo para os cinemas, a produção transformou curiosidade em ingressos vendidos e entrou de vez na lista dos maiores sucessos de 2026.

A história acompanha a trajetória do Rei do Pop desde a infância, quando ainda dividia os palcos com os irmãos no Jackson 5, até o encerramento da Bad Tour, no fim dos anos 1980. Esse recorte define o tom do roteiro. Em vez de condensar toda a vida do cantor em pouco mais de duas horas, o filme concentra seus esforços no período em que ele deixou de ser um garoto prodígio para se tornar um dos maiores artistas da música mundial.

Ao longo da narrativa, o público revisita momentos decisivos de sua carreira. Estão lá a gravação de Off the Wall, a explosão de Thriller, a histórica apresentação de Billie Jean no especial Motown 25 e o acidente durante a gravação de um comercial da Pepsi, que provocou queimaduras graves em seu couro cabeludo e mudou sua vida.

Quem sustenta boa parte dessa reconstrução é Jaafar Jackson. Escalado para seu primeiro trabalho no cinema, o sobrinho do cantor carregava uma responsabilidade difícil de medir. Interpretar um artista tão conhecido inevitavelmente geraria comparações. No fim, a escolha funcionou. Jaafar reproduz gestos, postura e a presença de palco do tio com uma naturalidade que acabou se tornando um dos poucos consensos entre público e crítica.

O elenco ainda reúne Colman Domingo como Joe Jackson, pai e empresário da família, Nia Long como Katherine Jackson, Miles Teller no papel do advogado John Branca e Laura Harrier como Suzanne de Passe, executiva da Motown que acompanhou os primeiros anos da carreira do astro.

Se diante das câmeras o projeto encontrou seu equilíbrio, nos bastidores a história foi bem diferente.

As filmagens precisaram passar por mudanças importantes depois que a equipe descobriu uma cláusula ligada ao acordo judicial firmado pelo artista em 1993. O terceiro ato foi reescrito, novas cenas foram gravadas em 2025 e qualquer referência direta às acusações de abuso sexual infantil acabou ficando de fora da versão exibida nos cinemas.

Essa decisão definiu boa parte do debate em torno da produção. Muitos críticos consideraram que o roteiro preferiu preservar a imagem do músico em vez de enfrentar os episódios mais controversos de sua trajetória. É uma observação difícil de ignorar. Quem conhece sua história provavelmente perceberá essas ausências.

Ainda assim, reduzir o longa apenas a essa discussão talvez explique por que a distância entre a avaliação da crítica e a resposta do público foi tão grande. Boa parte dos espectadores foi ao cinema interessada em revisitar a ascensão daquele que redefiniu o pop nas décadas de 1970 e 1980. As recriações dos shows, das coreografias e dos bastidores da indústria musical acabam ocupando o centro da narrativa e são, sem dúvida, o ponto mais consistente do filme.

Antoine Fuqua, diretor de Dia de Treinamento e O Protetor, conduz a produção sem tentar reinventar a cinebiografia tradicional. Seu foco está na reconstrução de momentos históricos, especialmente das apresentações ao vivo. O cuidado com figurinos, cenários e coreografias ajuda a dar autenticidade às sequências musicais, que estão entre os trechos mais elogiados.

Produzido com um orçamento estimado entre US$ 155 milhões e US$ 200 milhões, o longa já recuperou esse investimento com ampla margem. O resultado praticamente elimina qualquer dúvida sobre a continuação da história nos cinemas. Um segundo filme já está em desenvolvimento e deve abordar os anos 1990 e 2000, período marcado por novos recordes na música, transformações na carreira e pelas controvérsias que passaram a dominar sua imagem pública.

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