
Escolher o que assistir no cinema pode ser tão empolgante quanto o próprio filme. Entre estreias aguardadas e produções que prometem provocar sensações fortes, este final de semana (16 a 18 de janeiro de 2026) chega com opções que dialogam com diferentes emoções: o suspense psicológico que se infiltra lentamente, o terror pós-apocalíptico que confronta nossos instintos mais primitivos e um drama sensível que transforma luto em arte.

Suspense psicológico costuma funcionar melhor quando não depende apenas de reviravoltas, mas da tensão constante, daquele incômodo que cresce em silêncio. A Empregada, dirigido por Paul Feig, entende isso com precisão. Conhecido por sua carreira ligada à comédia, o diretor surpreende ao conduzir uma narrativa sombria, sufocante e profundamente humana, adaptada do best-seller de Freida McFadden, com roteiro de Rebecca Sonnenshine.
A história gira em torno de Millie Calloway, interpretada por Sydney Sweeney, uma mulher marcada por um passado que insiste em defini-la. Ex-presidiária em liberdade condicional, Millie tenta reconstruir a própria vida, mas se vê constantemente rejeitada em entrevistas de emprego assim que seu histórico vem à tona. O filme acerta ao retratar essa exclusão social sem didatismo, mostrando como a culpa passada se torna uma prisão invisível.
A virada acontece quando Millie conhece Nina Winchester, papel de Amanda Seyfried. Elegante, rica e aparentemente segura de si, Nina oferece o emprego sem questionamentos, como se o passado de Millie fosse irrelevante. A proposta soa generosa demais para ser verdadeira, e o filme faz questão de deixar isso claro desde os primeiros momentos.
Ao se mudar para a casa dos Winchester, Millie conhece Andrew, o marido de Nina, vivido por Brandon Sklenar, e a filha do casal. O convite para morar na residência parece um gesto de confiança, mas logo revela sua face cruel: Millie é instalada em um quarto minúsculo e abafado no sótão, isolada do restante da casa. O espaço físico se transforma em metáfora da posição que ela ocupa naquela dinâmica familiar.
Com o passar dos dias, o comportamento de Nina se torna cada vez mais perturbador. Explosões de humor, manipulações sutis e humilhações constantes fazem com que Millie caminhe sobre uma linha tênue entre gratidão e medo. Nina passa a sujar propositalmente os cômodos da casa, criando situações de abuso psicológico que corroem lentamente a protagonista. Nesse ambiente opressivo, Millie acaba se aproximando de Andrew, e uma atração mútua surge, empurrando todos para um triângulo emocionalmente explosivo.
A entrada de Enzo Accardi, o jardineiro italiano interpretado por Michele Morrone, adiciona mais camadas de mistério e ameaça. A Empregada não se contenta em ser apenas um thriller de segredos; o filme discute poder, controle, desejo e o preço da aparente segurança. É um suspense que cresce no olhar, nos silêncios e na sensação de que, naquela casa, ninguém é realmente inocente.

Se o terror sempre foi um espelho dos medos coletivos, Extermínio: O Templo dos Ossos atualiza esse reflexo para um mundo que já se acostumou à ideia de colapso. Quase trinta anos após o vírus da Raiva escapar de um laboratório de armas biológicas, o planeta apresentado no filme não é apenas devastado, mas profundamente transformado.
A trama acompanha um grupo de sobreviventes que vive em uma pequena ilha, conectada ao continente por uma única ponte fortemente vigiada. Esse detalhe simples concentra toda a tensão do filme: a ponte é, ao mesmo tempo, proteção e ameaça. Quando um dos membros do grupo decide atravessá-la em uma missão arriscada, o longa se expande para um território ainda mais sombrio, revelando não só a evolução dos infectados, mas também as distorções morais dos próprios humanos.
O filme vai além do horror explícito ao abordar a sobrevivência a longo prazo. Não se trata apenas de escapar da morte, mas de entender o que resta da humanidade quando as regras sociais deixam de existir. Comunidades se reorganizam, a violência se normaliza e a esperança se torna um recurso raro.
Visualmente, Extermínio: O Templo dos Ossos é uma experiência inquietante. Danny Boyle e o diretor de fotografia Anthony Dod Mantle optaram por gravar grande parte das cenas com iPhones 15 Pro Max, utilizando múltiplos aparelhos simultaneamente. O resultado é uma estética crua, quase documental, que coloca o espectador dentro do caos. A escolha dialoga com o espírito do filme original e reforça a ideia de que, em um mundo em colapso, qualquer ferramenta pode se tornar um meio de registro — ou sobrevivência.

Encerrando o passeio cinematográfico do final de semana, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet oferece uma experiência completamente diferente. Em vez de tensão e violência, o filme aposta na delicadeza, no silêncio e na contemplação. Inspirado no romance de Maggie O’Farrell, o longa imagina a vida de William Shakespeare e de sua esposa Agnes após a morte do filho de 11 anos, Hamnet.
Dirigido por Chloé Zhao, que assina o roteiro ao lado da autora do livro, o filme se afasta da figura mítica do escritor para apresentar um homem comum, atravessado pela dor. Paul Mescal e Jessie Buckley entregam performances intensas e contidas, construindo um retrato sensível de um casal tentando sobreviver à ausência.
A narrativa não se preocupa em seguir uma linha cronológica rígida. Em vez disso, trabalha com memórias, sensações e pequenos gestos, mostrando como o luto se infiltra no cotidiano. Filmado no País de Gales, com fotografia de Łukasz Żal, Hamnet transforma paisagens naturais em extensões do estado emocional dos personagens.













