
100 Noites de Desejo chega com uma proposta ambiciosa e, em muitos momentos, realmente chama atenção pelo cuidado visual e pela trama que constrói. Há um trabalho de direção de arte bastante elaborado, uma fotografia que ajuda a criar um universo de conto de fadas sombrio e uma tentativa clara de transformar ideias complexas em fantasia simbólica. No início, isso funciona bem e desperta curiosidade sobre o que está por vir.
O filme também parte de temas importantes e muito atuais. Ele fala sobre patriarcado, controle dos corpos femininos, violência estrutural e silenciamento histórico das mulheres. São assuntos fortes e que têm bastante potencial dentro de uma narrativa fantástica, especialmente quando trabalhados de forma simbólica e visual.
O problema é que, com o passar do tempo, o filme parece confiar menos na força das imagens e mais na necessidade de explicar tudo o que está dizendo. Em vez de deixar que o espectador interprete e sinta, a narrativa acaba reforçando suas ideias de forma constante. Isso tira parte da sutileza e faz com que a crítica social soe repetitiva em alguns momentos. Personagens também ficam presos em funções muito claras dentro da história, sem muita ambiguidade ou profundidade.
Na segunda metade, essa sensação se intensifica de forma evidente.
O que antes parecia uma fantasia sombria promissora começa a se transformar em uma sequência de escolhas narrativas que nem sempre se sustentam. A cena em que a lua desce para conduzir o casal ao paraíso e depois os transforma em estrelas é um exemplo disso. A ideia é poética, mas a execução não acompanha a grandiosidade que a cena parece querer alcançar. Em vez de emoção ou transcendência, o resultado acaba gerando estranhamento. O mesmo acontece no desfecho romântico nesse paraíso, que soa mais como uma colagem estética do que como um encerramento realmente construído.
Outro ponto que pesa é a dificuldade do filme em equilibrar suas próprias intenções. Ele tenta ser fantasia, romance, alegoria feminista e drama ao mesmo tempo, mas nem sempre consegue unir essas camadas de forma orgânica. O tom varia bastante, o humor aparece em momentos que nem sempre conversam com o resto da obra e a mitologia desse universo surge de forma apressada, sem o desenvolvimento necessário para criar envolvimento real.
Existe um mundo interessante ali, mas ele chega mais como algo explicado do que como algo descoberto aos poucos. Isso afeta a experiência, porque tira a sensação de imersão. A estética continua sendo um dos pontos fortes, mas em alguns momentos também passa uma impressão de artificialidade, como se estivéssemos vendo uma versão reduzida de uma história que poderia ser mais rica.
Um dos aspectos mais frustrantes é como a contagem regressiva dos cem dias vai perdendo força ao longo da narrativa. Um elemento que poderia sustentar a tensão dramática acaba ficando em segundo plano justamente quando mais deveria importar, e o filme acaba enfraquecendo suas próprias regras internas.
Ainda assim, há méritos claros. O elenco entrega boas atuações dentro da proposta e a construção visual do universo é consistente em vários momentos. Quem conhece a graphic novel original pode inclusive encontrar mais camadas de significado, já que parte importante dessa riqueza vem do material de origem.
No fim, 100 Noites de Desejo é uma obra que impressiona pelo que sugere, mas se perde no caminho entre a ideia e a execução. É bonito de ver, interessante de acompanhar em alguns momentos, mas deixa a sensação de que poderia ter sido muito mais impactante se confiasse um pouco mais no próprio universo e um pouco menos na necessidade de explicar tudo o tempo todo.











