
Quem espera encontrar apenas um romance policial tradicional logo percebe que O Circo do Senhor Farfalle tem outros planos. O assassinato do dono do circo é só a primeira peça de uma história que, pouco a pouco, troca as certezas pela dúvida. A investigação continua sendo o fio que conduz a narrativa, mas a sensação é de que o chão desaparece sob os pés do protagonista a cada novo capítulo.
O cenário ajuda bastante nisso. O circo não está ali apenas para dar personalidade à história. Os bastidores, os artistas e o clima de espetáculo permanente criam um ambiente onde qualquer coisa parece possível. Existe uma estranheza constante, como se o leitor nunca pudesse relaxar completamente porque sempre há algo fora do lugar.
O ponto mais interessante do livro está na maneira como o Efeito Mandela entra na trama. Em vez de aparecer como uma referência jogada no meio da história, ele interfere diretamente na investigação. Memórias mudam, acontecimentos deixam de bater entre si e até o detetive passa a desconfiar das próprias conclusões. É o tipo de recurso que faz o leitor voltar algumas páginas para conferir se realmente leu aquilo.
As testemunhas também fogem do óbvio. A vidente, o palhaço e a influenciadora de ciência representam visões completamente diferentes sobre os mesmos acontecimentos. Nenhum deles parece carregar todas as respostas, mas cada um acrescenta uma nova camada ao mistério. Isso deixa a narrativa mais dinâmica e evita aquela sensação de que existe um personagem criado apenas para explicar tudo.
O livro também acerta ao segurar algumas respostas até os momentos finais. Em vez de despejar explicações logo de cara, prefere deixar pequenas pistas espalhadas pelo caminho. Quem gosta de montar teorias durante a leitura provavelmente vai se divertir tentando ligar os pontos.
Por outro lado, há momentos em que a quantidade de conceitos sobrenaturais cresce rápido demais. Viagens astrais, mudanças de realidade, fenômenos espirituais e outras ideias aparecem quase uma em cima da outra. Em alguns trechos, a história parece respirar menos do que deveria, e certas revelações acabam perdendo um pouco da força justamente por acontecerem em sequência.
Ainda assim, o saldo é positivo. O Circo do Senhor Farfalle não tenta copiar a estrutura dos thrillers mais tradicionais e encontra sua própria identidade ao misturar investigação, suspense psicológico e elementos sobrenaturais. É uma leitura que exige atenção, gosta de brincar com a percepção do leitor e deixa espaço para diferentes interpretações mesmo depois da última página.
















