Daniel Hass começa a história lidando com uma perda pesada: os pais. Só que o livro não fica muito tempo nesse ponto mais “pé no chão”. Logo ele já está atravessando dimensões, vivendo outras versões de si mesmo e entrando em histórias que não parecem ter regra fixa.

Em uma dessas realidades, ele ocupa a vida de um homem que está atrás da filha desaparecida. A partir daí, a narrativa vira outra coisa. O que parecia investigação vira um quebra-cabeça que muda de forma o tempo todo. Quando uma pista surge, outra versão dos fatos aparece logo depois e desmonta tudo.

O mais curioso é que Daniel nunca parece preparado para o que está acontecendo. Ele não conduz essas mudanças, ele é puxado por elas. Tem hora que está num cenário de investigação, no seguinte está dentro de uma estrutura de controle que mexe com tempo e realidade, e depois tudo muda de novo sem aviso claro.

O livro brinca bastante com essa sensação de instabilidade. Nada fica parado por muito tempo. Quando o leitor acha que entendeu o funcionamento daquele mundo, a narrativa muda as regras. Isso cria um efeito constante de reconstrução, como se a história estivesse sempre sendo reescrita enquanto acontece.

As cenas de ação entram nesse ritmo sem freio. Explosões, perseguições e confrontos aparecem entre uma virada e outra. Em alguns momentos ajudam a empurrar a história para frente, em outros passam rápido demais e deixam a sensação de que certas ideias poderiam ter sido mais exploradas antes de tudo mudar outra vez.

O ponto mais forte do livro não está em explicar o que é cada coisa, mas em fazer o leitor duvidar o tempo inteiro do que está vendo. Realidade, simulação, linha do tempo, versão alternativa… tudo se mistura a ponto de perder fronteiras claras. E isso não é um detalhe, é o centro da experiência.

Ao mesmo tempo, essa escolha cobra seu preço. O livro coloca muita coisa na mesa ao mesmo tempo. Dimensões diferentes, futuro, passado, sistemas de controle, governos, manipulação da realidade. Em alguns capítulos, essa mistura pesa e dá uma sensação de excesso, como se a história estivesse sempre acelerando antes de terminar de explicar o que acabou de apresentar.

Mesmo assim, o livro prende pela curiosidade. Não pela vontade de chegar numa resposta simples, mas pela forma como ele desmonta qualquer tentativa de estabilidade. Quando parece que algo vai fazer sentido, outra camada entra em cena e muda tudo de novo.

Avaliação geral
Nota do crítico
Notícia anteriorResenha – O Circo do Senhor Farfalle transforma um assassinato em um quebra-cabeça onde a lógica perde espaço
Próxima notíciaResenha – Cinzas do Futuro expõe um futuro de colapso ambiental e choque entre sobrevivência e invasão espacial
Esdras Barbosa
Além de fundador e editor-chefe do Almanaque Geek, Esdras também atua como administrador da agência de marketing digital Almanaque SEO. É graduado em Publicidade pela Estácio e possui formação técnica em Design Gráfico e Webdesign, reunindo experiência nas áreas de comunicação, criação visual e estratégias digitais.
resenha-viagem-alem-da-realidade-embaralha-tudo-e-faz-o-leitor-perder-o-chao-junto-com-o-protagonistaViagem Além da Realidade funciona melhor quando abraça essa confusão de mundos e versões. Nem sempre consegue organizar bem tudo o que propõe, mas compensa isso com uma narrativa que nunca deixa o leitor confortável — e isso, aqui, é justamente o que sustenta a leitura.

COMENTE

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui