A um voo de você abre no Rio de Janeiro durante o Carnaval, quando Elle decide passar sete dias longe da vida estruturada que a espera na Itália. A escolha não é um rompimento, funciona mais como intervalo. Nesse recorte curto, ela conhece Beck, guitarrista da banda B4, acostumado a uma rotina de turnês e pouco espaço para relações fora do controle da agenda.

O encontro entre os dois nasce de um episódio simples em meio à multidão. A narrativa não investe em obstáculos para aproximá-los. Em poucos capítulos, a relação já está estabelecida em um nível de intimidade que acelera etapas naturais de construção. O resultado é um romance que avança rápido no afeto, mas sem consolidar com clareza o que sustenta essa conexão.

Quando Elle retorna para a Itália e Beck segue com a banda, a história interrompe esse primeiro bloco e salta um ano e meio até o reencontro em Roma. A cena do show é o ponto mais forte do livro em termos de impacto: ele abandona o palco, ela desaparece antes da conversa. A partir desse momento, o enredo muda de estrutura e passa a depender da busca de Beck.

Essa segunda parte se concentra no deslocamento dele por cidades italianas em busca de Elle. O livro organiza essa etapa em encontros parciais e desencontros sucessivos, mas a repetição desse padrão expõe uma limitação clara: a narrativa avança no espaço, mas pouco evolui na relação entre os dois. O movimento substitui o desenvolvimento.

Elle é escrita como alguém que tenta sustentar decisões tomadas após o período no Rio, mas o texto não aprofunda com consistência o que levou essas escolhas a se manterem. O afastamento dela se apoia mais na decisão do que em construção interna que justifique o peso emocional atribuído ao conflito.

Beck assume quase todo o eixo da narrativa na segunda metade. A insistência dele move a história, mas também concentra demais a progressão do enredo em um único ponto de vista. Isso reduz a complexidade do romance, que passa a girar em torno da perseverança masculina diante da recusa feminina, sem explorar com o mesmo cuidado as consequências dessa dinâmica para os dois lados.

A fitinha amarela do Senhor do Bonfim aparece como único elemento de continuidade mais sólido entre os tempos da narrativa, mas o livro não desenvolve esse símbolo além da função de lembrete do período no Rio.

No conjunto, o romance funciona melhor no recorte inicial, quando aposta na convivência breve entre os personagens. Depois disso, a história se apoia em deslocamentos sucessivos e reencontros pontuais que mantêm o enredo em movimento, mas não ampliam a densidade da relação central.

Avaliação geral
Nota do crítico
Notícia anteriorResenha – Cinzas do Futuro expõe um futuro de colapso ambiental e choque entre sobrevivência e invasão espacial
Esdras Barbosa
Além de fundador e editor-chefe do Almanaque Geek, Esdras também atua como administrador da agência de marketing digital Almanaque SEO. É graduado em Publicidade pela Estácio e possui formação técnica em Design Gráfico e Webdesign, reunindo experiência nas áreas de comunicação, criação visual e estratégias digitais.
resenha-a-um-voo-de-voce-constroi-um-romance-de-encontros-improvaveis-e-decisoes-que-desafiam-a-logica-do-destinoEm A Um Voo de Você, Alessa aposta em uma história que nasce do acaso e se sustenta na insistência. Elle chega ao Rio de Janeiro com a ideia de viver sete dias fora do próprio roteiro: Carnaval, rua, praia e nenhuma promessa que a prenda depois do embarque de volta para a Itália. Beck, por outro lado, carrega o peso de ser o rosto e a voz de uma banda pop rock em escala global, a B4, e tenta se afastar do desgaste que isso provoca na vida pessoal.O encontro acontece em meio ao caos típico de cidade lotada em época de festa. Um assalto interrompe o caminho dos dois e força uma aproximação que não estava no plano de nenhum deles. O gesto simples de devolver um celular vira ponto de partida para uma convivência curta, mas intensa, marcada por dias em que a rotina parece suspensa.

COMENTE

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui