Nos últimos anos, o terror vive uma fase invejável. Filmes como Sorria, Talk to Me e A Morte do Demônio: A Ascensão mostraram que ainda há espaço para ideias capazes de tirar o gênero da zona de conforto. À primeira vista, Obsessão não parece fazer parte desse grupo. A premissa de um desejo realizado da pior maneira possível já apareceu inúmeras vezes no cinema e, para completar, o protagonista toma uma sequência de decisões que parecem pedir para tudo dar errado. Ainda assim, o filme encontra um caminho próprio e surpreende justamente por fugir do óbvio.

Dirigido pelo estreante Curry Barker, o longa mostra uma segurança rara para alguém em seu primeiro trabalho. Ao lado dele, Inde Navarrette entrega uma atuação tão desconfortável quanto fascinante, elevando uma história que facilmente poderia ter sido apenas mais um terror sobrenatural. O resultado é um dos filmes mais interessantes que o gênero produziu nos últimos quinze anos.

A história acompanha Bear, um rapaz apaixonado pela melhor amiga, Nikki. O roteiro perde pouco tempo com apresentações e logo estabelece quem são aqueles personagens e como a relação entre eles funciona. Tudo acontece de maneira simples, sem precisar despejar informações no espectador.

A virada acontece quando Bear compra um salgueiro do desejo e pede que Nikki passe a amá-lo mais do que qualquer outra pessoa. O pedido funciona quase imediatamente, mas a sensação de estranheza aparece antes mesmo de qualquer explicação. Há algo profundamente errado naquele comportamento.

O mais curioso é que o filme brinca com elementos típicos de uma comédia romântica antes de revelar sua verdadeira natureza. As primeiras demonstrações de carinho de Nikki parecem até engraçadas, mas logo se tornam perturbadoras. Não porque ela esteja apaixonada, e sim porque deixou de existir como indivíduo.

O desejo de Bear não faz Nikki gostar dele. Ele simplesmente apaga sua personalidade. Ela perde vontades, opiniões e qualquer capacidade de escolha. Tudo o que resta é a necessidade absoluta de agradá-lo. A partir desse ponto, Obsessão abandona qualquer romantização e passa a discutir controle, abuso e consentimento de uma forma muito mais pesada do que sua premissa faz imaginar.

O aspecto mais incômodo é que Bear entende perfeitamente o que aconteceu. Em vez de tentar desfazer o erro, ele decide aproveitar a situação. O roteiro nunca procura aliviar suas atitudes nem transformá-lo em vítima das circunstâncias. Ele sabe que destruiu a vida da melhor amiga e continua seguindo em frente como se pudesse controlar as consequências.

Mesmo utilizando uma ideia conhecida, Curry Barker evita seguir os caminhos mais previsíveis. Sempre que a história parece caminhar para um susto fácil ou para alguma reviravolta batida, ela escolhe outra direção. Isso faz com que a tensão cresça de maneira constante até um desfecho que conversa muito bem com tudo o que foi construído desde os primeiros minutos.

Visualmente, o longa também faz escolhas inteligentes. A fotografia não tenta chamar atenção com cores exageradas ou enquadramentos extravagantes. Em vez disso, trabalha muito bem a iluminação para reforçar o estado emocional de Nikki.

Existe uma cena especialmente marcante quando ela chega à casa de Bear. O ambiente praticamente engole sua silhueta, deixando apenas seus olhos iluminados. A imagem diz muito mais do que qualquer diálogo poderia explicar. Aquela garota simplesmente deixou de existir.

Michael Johnston faz um bom trabalho como Bear, principalmente porque nunca tenta transformar o personagem em alguém digno de pena. Ainda assim, quem domina completamente o filme é Inde Navarrette.

A atriz impressiona pela facilidade com que altera pequenas expressões faciais para transmitir medo, vazio e submissão. Em alguns momentos, basta um olhar para causar mais desconforto do que qualquer cena de violência. Comparar a Nikki apresentada no início com a personagem vista na segunda metade do filme é quase como observar duas pessoas diferentes.

É difícil imaginar Obsessão funcionando da mesma maneira sem a atuação dela.

O mais curioso é que o filme praticamente dispensa sustos baratos. Também não depende de criaturas feitas em computação gráfica nem transforma o terceiro ato em uma sequência interminável de explosões ou monstros. O medo nasce da situação criada pelo roteiro e da sensação constante de impotência diante do que acontece com Nikki.

No fim das contas, o longa-metragem usa uma premissa que parecia desgastada para construir um dos terrores psicológicos mais desconfortáveis dos últimos anos. É um filme que confia muito mais na força da história e dos personagens do que em truques para assustar o público.

Inde Navarrette entrega uma atuação que merecia muito mais reconhecimento. Poucas vezes uma personagem transmite tanto sofrimento sem precisar dizer muita coisa.

E, depois de assistir ao filme, fica uma lição bastante simples: se algum dia eu encontrar um salgueiro capaz de realizar desejos, vou passar bem longe dele. Definitivamente, não pretendo cometer a mesma burrice que Bear.

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