Foto: Reprodução/ Internet

Após o enorme sucesso de A Morte do Demônio: A Ascensão, impulsionado por uma ótima bilheteria e por uma recepção bastante positiva do público, uma continuação parecia inevitável. É nesse cenário que A Morte do Demônio: Em Chamas chega aos cinemas, apostando em uma escala não apenas maior, mas também mais sangrenta e angustiante. Há mais violência, mais gore e, surpreendentemente, menos roteiro. Como se a franquia tivesse decidido que o espectador não precisa de motivo, só de estômago forte.

Com roteiro e direção de Sébastien Vaniček, o filme acompanha uma família e coloca Alice, personagem interpretada por Souheila Yacoub, no centro da história. Logo nos primeiros minutos, fica estabelecido que o relacionamento entre Alice e Will não vive sua melhor fase. Mas calma, porque qualquer chance de desenvolver essa dinâmica é interrompida quando Will sofre um acidente de carro. Nada como uma entidade maligna para resolver uma crise de casal.

Os parentes de Will, por sua vez, formam um grupo completamente desestabilizado que despreza Alice sem qualquer sutileza. A situação familiar, já constrangedora o suficiente para um jantar de Natal, piora rapidamente. Antes que um deadite assuma o corpo do pai de Will, todos decidem se refugiar em uma casa isolada, no meio do nada, caindo aos pedaços. Porque, evidentemente, em filme de terror, bom senso não existe.

À medida que o pai vai ficando mais perturbador, a tensão cresce de forma eficiente, até desaguar em uma cena angustiante em que ele mata um cachorro a sangue-frio. A partir daí, a sanidade do roteiro vai junto com a do personagem.

A ideia de explorar conflitos familiares e inseguranças, com os deadites usando essas fragilidades contra as próprias vítimas, é boa no papel. O problema é que o roteiro empilha tantas inconsistências e conveniências que fica difícil fingir que não notou. Personagens fazem coisas simplesmente porque a trama precisa se mover, não porque fariam sentido enquanto seres humanos minimamente funcionais.

Depois de ver o próprio pai matar um cachorro na frente de todo mundo, a família resolve, com toda a cautela do mundo, levá-lo ao hospital. Resultado óbvio: mais uma tragédia. É o tipo de decisão que exige do público uma fé cega na burrice alheia.

O longa também flerta com a comédia e, por vezes, funciona. A grande questão é que boa parte do humor gira em torno de uma mesma frase de efeito repetida à exaustão, como se o roteiro tivesse encontrado uma piada e decidido nunca mais soltá-la. Engraçada na primeira vez, cansativa na quinta.

Se o roteiro decepciona, a direção de Vaniček compensa e sobra. Há sequências visualmente impressionantes, com destaque para um plano-sequência que acompanha Alice rastejando pelo chão enquanto uma luta caótica acontece ao fundo, sem um único corte. É coreografia de verdade, não só caos filmado com câmera tremida.

A fotografia aposta em tons acinzentados, evitando pretos absolutos, o que dá ao filme uma sujeira visual que combina com a casa decadente que serve de cenário. A câmera passeia por todos os cômodos, banheiro, escada, sótão e teto, até o público sentir que conhece aquele lugar de cor. Nada de cenário decorativo esquecido no canto.

A maquiagem, os efeitos práticos e as cenas de gore são de outro nível. Nesse quesito, A Morte do Demônio: Em Chamas entrega alguns dos momentos mais extremos e criativos da franquia, com mutilações e sangue em fartura suficiente para agradar quem veio para isso mesmo. Pelo menos até o terceiro ato decidir estragar a festa.

Porque aí está o maior problema do filme. Havia um ponto perfeito para encerrar a história, com impacto e economia. Só que alguém decidiu que aquilo não bastava, abraçou a computação gráfica e transformou o desfecho em uma farofa espetaculosa que passou longe do ponto. Tem gosto de final trocado de última hora, aquele que promete grandiosidade e entrega inchaço. Em vez de fechar com força, o filme escolhe se afogar em CGI.

Com personagens que tentam (e às vezes conseguem) ser interessantes, uma família disfuncional em tempo integral e sangue à vontade, A Morte do Demônio: Em Chamas funciona melhor quando você desliga o cérebro crítico e aceita as regras absurdas do jogo. É divertido, é uma boa pedida para quem gosta de horror sujo e visceral, com cenas agonizantes muito bem executadas tecnicamente. Só uma pena que o roteiro não tenha vindo com o mesmo capricho da direção, da maquiagem e dos efeitos práticos.

Ainda assim, o filme tem seus méritos e vai encontrar seu público. Particularmente, eu fugiria no exato instante em que meu pai matasse um cachorro na minha frente. Sem pensar duas vezes, sem parar para arrumar a mala. O que realmente me assusta é perceber que nenhum personagem cogita essa possibilidade óbvia. Então, talvez seja até justo que todos cheguem tão perto da morte. Ninguém aqui merece sobreviver por mérito próprio.

Avaliação geral
Nota do crítico
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Louam Leone
Apaixonado por cinema e atento aos mínimos detalhes, vejo os filmes muito além da tela: são histórias vivas, capazes de despertar emoções e que merecem ser contadas com sensibilidade. Com um olhar apurado para o roteiro e, principalmente, para a força da construção visual, busco analisar a identidade, a estética e as escolhas técnicas que tornam cada obra única.
critica-a-morte-do-demonio-em-chamas-eleva-a-escala-da-franquia-com-efeitos-praticos-angustiantes-ate-escorregar-no-cgiSébastien Vaniček entrega um banquete visual impecável para quem consome terror pelo puro suco do gore. A câmera é inteligente, a sujeira visual funciona e a maquiagem beira a perfeição, mas o roteiro claramente tirou férias. A família no centro da trama toma decisões tão estupidamente suicidas que você inevitavelmente torce para os demônios. Vale pela carnificina absurda, desde que você aceite que a inteligência passou muito longe dessa casa.

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