Desejo não é um suspense feito para surpreender com grandes revelações. O filme mexicano disponível na Netflix segue uma proposta mais incômoda: acompanhar a queda de uma mulher que acredita conseguir controlar uma situação que, aos poucos, passa a controlar sua própria vida.

A história acompanha Lucero, uma advogada de sucesso que parece ter alcançado tudo o que buscava. Ela tem uma carreira construída, uma família e uma rotina estável. Essa imagem de equilíbrio começa a desaparecer quando ela se envolve com o jovem instrutor de natação da filha durante a ausência do marido.

O começo da relação é tratado como uma fuga da rotina, mas o filme deixa claro que o problema não está apenas na traição. A questão central é perceber como Lucero passa a justificar escolhas cada vez mais arriscadas enquanto tenta manter intacta a vida que construiu.

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É justamente nesse ponto que Desejo encontra seu melhor material. O longa não tenta transformar sua protagonista em uma personagem fácil de julgar. Lucero erra, esconde informações e toma decisões difíceis de defender, mas o roteiro acompanha suas contradições sem reduzir tudo a uma simples história de adultério.

Por outro lado, o filme também tem limitações. A narrativa demora para desenvolver algumas situações e nem todos os conflitos recebem o mesmo cuidado. Em determinados momentos, a produção parece mais interessada em criar tensão do que em aprofundar as consequências emocionais dos personagens envolvidos.

A relação entre Lucero e o instrutor de natação começa como o centro da história, mas rapidamente fica evidente que o verdadeiro conflito está dentro da própria protagonista. Ela tenta separar desejo, família e responsabilidade, como se fosse possível manter cada parte da vida funcionando de maneira independente.

Quando Fernando, marido de Lucero, percebe que existe algo errado, a situação muda de tom. A desconfiança transforma o ambiente familiar e coloca a personagem diante de uma realidade que ela tentou evitar durante boa parte do filme.

O grande mérito de Desejo está justamente em não apresentar respostas fáceis. O filme trabalha com uma personagem que não é construída para receber aprovação do público. Lucero é impulsiva, contraditória e, em vários momentos, toma decisões que colocam outras pessoas em risco. Essa escolha torna a narrativa mais interessante, porque obriga o espectador a acompanhar alguém que está longe de ser uma protagonista tradicional.

A atuação de Lucero sustenta boa parte da produção. A atriz consegue transmitir as mudanças da personagem, mostrando uma mulher que começa acreditando estar vivendo uma escolha pessoal e termina tentando lidar com consequências que ultrapassam seus próprios desejos.

Vale assistir Desejo se a intenção for acompanhar uma história mais focada em comportamento humano do que em mistério. O filme não é perfeito e tem momentos em que poderia aprofundar melhor seus conflitos, mas acerta ao mostrar uma protagonista cheia de falhas, longe das figuras idealizadas comuns em produções do gênero.

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