
Quem chega à Ilha de Itamaracá encontra, logo nas primeiras caminhadas, uma paisagem marcada por cores vivas, pinceladas precisas e letras desenhadas à mão. Presentes em embarcações, fachadas de comércios, placas e oficinas, esses letreiros fazem parte da identidade da ilha há décadas. A partir deste sábado (4), esse patrimônio gráfico passa a ocupar o centro das atenções com a exposição Letras da Ilha, aberta ao público na Embaixada da Ciranda Lia de Itamaracá, com entrada gratuita.
A mostra nasceu de uma pesquisa iniciada em 2020 pela designer gráfica e pesquisadora Lili Nascimento, que percorreu diferentes regiões da ilha registrando a produção dos pintores letristas locais. O trabalho começou durante a vigência da Lei Aldir Blanc em Pernambuco e ganhou continuidade na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), onde se transformou em seu Trabalho de Conclusão de Curso, orientado pela professora Solange Coutinho.
O resultado é um acervo que reúne fotografias, vídeos, obras e letreiros originais capazes de revelar como a tipografia popular se tornou parte da paisagem de Itamaracá. A exposição apresenta uma produção artística construída no cotidiano, distante dos grandes centros urbanos, mas profundamente ligada à memória coletiva da população.
Entre os artistas retratados está Natanael Pires, conhecido como Tuca Pintor, um dos nomes mais tradicionais da pintura de letreiros na ilha. Há mais de quarenta anos, ele assina trabalhos em jangadas, baiteiras, fachadas comerciais, placas, velas e nos tradicionais bandeirões utilizados durante a Buscada de Nossa Senhora do Pilar, uma das celebrações religiosas mais importantes da região.
A pesquisa também destaca Dilza Fernanda, única mulher pintora letrista identificada durante o levantamento. Autodidata, ela iniciou sua trajetória produzindo pinturas para campanhas eleitorais e, ao longo dos anos, passou a desenvolver fachadas, paisagens, letreiros e pinturas decorativas, construindo uma carreira em um ofício historicamente ocupado por homens.
Outros nomes presentes na exposição são John Alex, artista paulista radicado em Itamaracá que atua com murais, fachadas e sinalização comercial, e Edilson Catanha, que desde 2019 vem deixando sua marca em mercados, embarcações e diversos espaços públicos da ilha.
A mostra também contextualiza o papel desses profissionais durante a preparação da Buscada de Nossa Senhora do Pilar, tradição com mais de dois séculos de história. Antes da celebração, barcos e jangadas passam por manutenção, recebem novas pinturas e têm seus letreiros renovados, preservando um costume que atravessa gerações e continua fazendo parte da cultura local.
O projeto ainda se desdobra em outras iniciativas. A pesquisa dará origem ao livro Letras da Ilha, atualmente em fase de produção com recursos do Funcultura, reunindo textos de Lili Nascimento e Solange Coutinho, além das fotografias de Ytallo Barreto, com lançamento previsto para o fim deste ano.
Encerrando a programação, será realizada uma oficina de pintura de letreiros voltada para jovens da região. A atividade será conduzida por Lili Nascimento e Solange Coutinho em parceria com os próprios mestres letristas, criando um espaço de troca entre diferentes gerações e incentivando a continuidade de um conhecimento construído na prática.
















