Nem todo filme de ação quer realmente ser um filme de ação. Meu Querido Assassino deixa isso claro logo nos primeiros minutos. Apesar da divulgação vender a produção como mais um thriller frenético cheio de perseguições, assassinos profissionais e confrontos violentos, o longa dirigido por Taweewat Wantha escolhe um caminho bem menos explosivo e muito mais emocional.

Na prática, o filme funciona quase como um drama melancólico escondido dentro de um suspense criminal. Existe sangue, existe violência e existem cenas de tensão, mas o coração da história está na sensação constante de aprisionamento que acompanha a protagonista do início ao fim.

E talvez seja justamente isso que torna Meu Querido Assassino um filme curioso dentro do catálogo da Netflix. Ele não parece interessado em agradar quem procura apenas adrenalina. O longa quer falar sobre controle, solidão e pertencimento, mesmo que tropece várias vezes tentando equilibrar tantas ideias ao mesmo tempo.

O resultado é uma experiência estranha, irregular e até frustrante em alguns momentos, mas que também consegue escapar daquele visual genérico de muitos thrillers recentes do streaming.

Quem é a protagonista de Meu Querido Assassino?

A história gira em torno de Lhan, personagem vivida por Pimchanok Luevisadpaibul. Desde criança, ela carrega uma condição rara: possui o tipo sanguíneo mais raro do mundo. O problema é que essa característica transforma sua existência numa espécie de prêmio milionário para criminosos e organizações clandestinas.

O filme trabalha uma ideia interessante logo de cara: Lhan nunca é vista como pessoa, apenas como recurso valioso. Seu corpo pertence ao interesse dos outros o tempo inteiro.

Depois que seus pais são assassinados pelo misterioso Pruek, ela acaba sendo levada para a House 89, um grupo secreto de assassinos que passa a protegê-la. Só que essa proteção nunca soa acolhedora de verdade. Pelo contrário. Existe quase uma atmosfera de prisão silenciosa dentro daquele lugar.

Enquanto outros filmes transformariam rapidamente a protagonista numa máquina de combate, o filme segue outra direção. Lhan cresce isolada, insegura e emocionalmente sufocada. Ela observa a violência ao redor sem realmente fazer parte dela, como alguém que vive trancada numa vitrine esperando ser usada em algum momento.

Essa escolha ajuda a diferenciar o longa de várias produções de ação recentes. O filme entende que sua protagonista não precisa parecer poderosa o tempo inteiro para gerar tensão.

O romance melhora ou enfraquece a história?

O romance entre Lhan e Pran, interpretado por Tor Thanapob Leeratanakachorn, funciona quase como o motor emocional da trama. É através dessa relação que a protagonista começa a questionar a própria existência e perceber que talvez exista algo além da vida de confinamento dentro da House 89.

O problema é que o roteiro parece indeciso sobre quanto espaço quer dedicar a esse relacionamento.

Em alguns momentos, o casal tem uma química silenciosa interessante, principalmente porque o filme evita exageros românticos tradicionais. Existe uma tristeza constante entre os dois, como se ambos soubessem que aquela relação dificilmente teria espaço num mundo tão violento.

Mas o longa também cai no erro de transformar o romance em mais uma subtrama perdida no meio de dezenas de conflitos paralelos. Quando a narrativa finalmente começa a aprofundar a conexão entre eles, o roteiro muda o foco para traições, disputas internas e revelações familiares.

Essa falta de equilíbrio acaba afetando a construção emocional do filme inteiro.

O suspense realmente funciona?

Meu Querido Assassino acerta bastante ao criar uma sensação permanente de desconforto. Existe algo melancólico na fotografia, no ritmo lento das cenas e até no silêncio dos personagens. O filme transmite a impressão de que ninguém ali consegue viver normalmente, como se todos estivessem emocionalmente quebrados há muito tempo.

Por outro lado, quando o suspense depende da inteligência dos personagens, a coisa começa a desandar.

A House 89 é apresentada como uma organização lendária formada por assassinos extremamente perigosos, mas várias cenas contradizem completamente essa ideia. Os personagens cometem erros básicos demais, deixam inimigos escaparem sem motivo convincente e frequentemente parecem incapazes de prever situações óbvias.

Isso enfraquece a tensão dos confrontos porque o perigo nunca parece tão real quanto deveria.

O próprio vilão, Pruek, sofre bastante com essa inconsistência. Em algumas cenas ele realmente transmite ameaça, principalmente pela obsessão perturbadora envolvendo Lhan e seu sangue raro. Em outras, porém, o personagem fica tão exagerado que quase entra involuntariamente no território da caricatura.

Existe uma tentativa de transformá-lo numa figura animalesca, movida por instinto e violência, mas o resultado oscila bastante. Às vezes assusta. Outras vezes parece um personagem de outro filme completamente diferente.

O excesso de drama atrapalha o filme?

Muito.

Talvez o maior problema de Meu Querido Assassino seja justamente a necessidade constante de complicar tudo. O roteiro não se contenta em desenvolver apenas a jornada de Lhan. Ele quer falar sobre rivalidade entre órfãos, traumas familiares, herança emocional, disputas internas da House 89, romances proibidos, obsessão, vingança e identidade ao mesmo tempo.

O filme acumula tantas subtramas que várias delas simplesmente não conseguem respirar.

Em vez de aprofundar os personagens, o excesso de informação deixa muitos deles superficiais. Até Lhan sofre com isso. Embora esteja presente em praticamente todas as cenas, a protagonista demora muito para ganhar personalidade própria além do sofrimento contínuo.

Existe uma sensação constante de que o longa está guardando emoções que nunca consegue desenvolver completamente.

E isso pesa ainda mais por causa da duração. Com mais de duas horas, a narrativa frequentemente parece cansada de si mesma. Algumas cenas se repetem emocionalmente, certos diálogos poderiam ser bem mais curtos e várias situações passam a impressão de existir apenas para alongar o drama.

Curiosamente, quando o filme finalmente desacelera e abraça seu lado mais triste e introspectivo perto do final, ele encontra seus melhores momentos.

O final consegue compensar os problemas?

Em partes, sim.

Sem entrar em spoilers, o desfecho de Meu Querido Assassino foge daquela estrutura tradicional de filmes de ação onde tudo termina em triunfo absoluto. Existe uma melancolia inesperada no encerramento, quase como se o longa admitisse que algumas feridas simplesmente não desaparecem.

Esse tom mais amargo combina muito mais com a proposta do filme do que as tentativas ocasionais de transformá-lo num thriller estilizado cheio de poses e coreografias exageradas.

O problema é que a cena extra durante os créditos praticamente desmonta parte do impacto emocional construído anteriormente. Parece uma decisão tomada apenas para criar gancho ou gerar surpresa, mas que acaba enfraquecendo a sinceridade do encerramento principal.

Ainda assim, o final deixa uma sensação interessante justamente porque evita entregar conforto fácil ao público.

Vale a pena assistir Meu Querido Assassino na Netflix?

Depende muito do tipo de suspense que você espera encontrar.

Quem procura um filme acelerado, cheio de luta e reviravolta a cada cinco minutos provavelmente vai sair frustrado. “Meu Querido Assassino” é lento, emocionalmente pesado e muito mais interessado em trauma do que em espetáculo.

Agora, para quem gosta de thrillers asiáticos mais estranhos, melancólicos e imperfeitos, o longa consegue oferecer algo diferente dentro da Netflix. Mesmo bagunçado, ele tem personalidade. Existe uma tentativa sincera de transformar uma história de assassinos numa discussão sobre controle e liberdade emocional.

Nem tudo funciona. O roteiro exagera no drama, o ritmo se perde várias vezes e alguns personagens parecem presos em versões diferentes do mesmo filme. Ainda assim, há uma identidade própria ali que impede a experiência de se tornar esquecível.

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