Dirigido por David Robert Mitchell, de Corrente do Mal e Under the Silver Lake, O Fim da Rua pega uma família comum, coloca todo mundo no meio de um acontecimento completamente absurdo e deixa o resto acontecer. O resultado é uma aventura que mistura dinossauros, ficção científica, conflitos familiares e uma boa dose de nostalgia.

A história acompanha Denise (Anne Hathaway) e Greg (Ewan McGregor), um casal que atravessa uma fase complicada no relacionamento enquanto tenta cuidar dos dois filhos adolescentes. A rotina já não anda muito bem, mas tudo fica ainda mais complicado quando um estranho fenômeno cósmico atinge Oak Street.

De uma hora para outra, aquela rua residencial passa a dividir espaço com um passado muito mais distante. Dinossauros aparecem entre as casas, plantas pré-históricas tomam conta do lugar e a família precisa descobrir como continuar vivendo enquanto algo impossível acontece bem diante de seus olhos.

O roteiro tenta dar uma explicação para o fenômeno usando conceitos de espaço-tempo, buracos de minhoca e referências a Carl Sagan. Mas o mais interessante é que o filme não fica preso à necessidade de explicar cada detalhe. Ele apresenta a situação, estabelece suas regras e deixa a história seguir.

Um filme que entende os anos 80

O grande mérito de O Fim da Rua está na maneira como ele reproduz o espírito das aventuras daquela época.

Não é só uma questão de figurino, carros ou objetos antigos espalhados pelos cenários. O filme parece entender como aquelas histórias funcionavam. Uma família comum se envolve em uma situação absurda, crianças acabam no meio do problema e o perigo aparece de todos os lados.

Existe uma liberdade no roteiro que lembra muito as produções que passavam na televisão durante os anos 80 e 90. É aquela lógica em que ninguém perde muito tempo perguntando se determinada situação faz sentido. Se existem dinossauros na rua, então o jeito é descobrir como lidar com eles.

Nesse aspecto, O Fim da Rua lembra The Twilight Zone. A realidade continua aparentemente normal até que alguma coisa completamente inexplicável aparece e muda tudo. A partir daí, o acontecimento estranho serve para colocar os personagens diante de problemas que já estavam escondidos.

Dinossauros no meio da vizinhança

O filme também se diverte bastante com os clichês das aventuras familiares.

Há o garoto valentão que continua perseguindo um dos protagonistas mesmo quando a vizinhança está tomada pelo caos. Tem também o cachorro hiperativo que parece ter saído diretamente de uma comédia familiar como Beethoven.

Essas situações poderiam parecer bobas em outro filme, mas aqui fazem parte da proposta. O Fim da Rua sabe que está brincando com esse tipo de história e não tenta transformar tudo em algo mais sério do que precisa ser.

As referências a Os Goonies, Querida, Encolhi as Crianças, Jumanji e Jurassic Park também aparecem de maneira bastante natural. O filme não precisa copiar essas produções para lembrar delas. Basta colocar seus personagens em situações que remetem àquele tipo de aventura.

É justamente essa mistura que dá personalidade ao longa.

Denise é muito mais do que a mãe da família

No meio de toda essa confusão, Denise acaba sendo a personagem mais interessante.

Ela é mãe, esposa e responsável por uma parte importante da rotina familiar, mas existe uma insatisfação que vai aparecendo aos poucos. Denise sente que deixou algumas coisas para trás e começa a perceber que sua própria vida acabou ficando em segundo plano.

Isso aparece principalmente através de um livro que ela escreve escondida. É uma escolha simples do roteiro, mas suficiente para revelar uma parte da personagem que não aparece nas conversas com o marido ou com os filhos.

A comparação com Francesca, personagem de Meryl Streep em As Pontes de Madison, faz sentido nesse ponto. As histórias são bem diferentes, mas existe uma questão parecida: a mulher que percebe que existe uma vida além dos papéis que assumiu dentro da família.

O filme não aprofunda tanto esse assunto quanto poderia, mas pelo menos permite que Denise tenha uma história própria.

Anne Hathaway segura o filme

Anne Hathaway é quem melhor aproveita esse material.

Denise precisa reagir aos dinossauros, ao caos e às situações absurdas, mas também está lidando com problemas pessoais que não desaparecem só porque o mundo ficou de cabeça para baixo.

A atriz consegue passar essa mistura sem transformar a personagem em alguém excessivamente dramático. Denise continua sendo uma pessoa comum colocada em uma situação que definitivamente não é comum.

E talvez seja justamente por isso que ela funciona tão bem. Mesmo com toda a loucura acontecendo ao redor, dá para entender suas frustrações.

O filme poderia ter ficado mais tempo com seus personagens

O principal problema de O Fim da Rua está no desenvolvimento.

O filme apresenta várias questões interessantes envolvendo Denise, Greg e os filhos, mas nem sempre permanece tempo suficiente com elas. Quando alguma situação começa a ficar mais interessante, a aventura acaba puxando a história para outro lado.

Isso é mais perceptível nos conflitos familiares. Existe material para entender melhor o que cada personagem está sentindo, mas algumas dessas questões passam rápido demais.

Não chega a estragar o filme. Só deixa aquela sensação de que algumas cenas poderiam ter respirado um pouco mais.

No fim, os dinossauros são só parte da história

Apesar de toda a loucura envolvendo dinossauros, fenômenos cósmicos e espaço-tempo, O Fim da Rua funciona melhor quando lembra que sua história também é sobre pessoas.

Denise está tentando entender o que quer da própria vida. Greg precisa lidar com um relacionamento que não está no melhor momento. Os filhos estão crescendo e enfrentando seus próprios problemas.

O mundo pode estar completamente fora do lugar, mas os conflitos continuam sendo os mesmos.

É isso que faz o filme funcionar. O Fim da Rua não precisa ser uma aventura perfeita para ser divertido. Ele abraça suas referências, brinca com o cinema de aventura dos anos 80 e 90 e coloca uma família comum diante de uma situação que ninguém teria como imaginar.

No meio de dinossauros e fenômenos inexplicáveis, existe uma história bastante simples sobre pessoas tentando descobrir o que fazer quando a vida que conheciam deixa de fazer sentido.

Avaliação geral
Nota do crítico
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Esdras Barbosa
Além de fundador e editor-chefe do Almanaque Geek, Esdras também atua como administrador da agência de marketing digital Almanaque SEO. É graduado em Publicidade pela Estácio e possui formação técnica em Design Gráfico e Webdesign, reunindo experiência nas áreas de comunicação, criação visual e estratégias digitais.
critica-o-fim-da-rua-transforma-dinossauros-e-ficcao-cientifica-em-uma-divertida-viagem-ao-cinema-dos-anos-80O Fim da Rua usa dinossauros, espaço-tempo e uma rua dos anos 1980 para contar uma história sobre uma família que já estava enfrentando problemas antes do mundo sair do lugar. A produção acerta ao recuperar o jeito das aventuras daquela época, com referências a Os Goonies, Querida, Encolhi as Crianças e Jurassic Park, sem transformar o filme em uma simples coleção de referências.Anne Hathaway se destaca como Denise, uma mulher que começa a questionar as escolhas que fez ao longo da vida e o espaço que deixou para os próprios desejos. Esse conflito dá ao filme uma dimensão mais pessoal, embora o roteiro pudesse desenvolver melhor os personagens e algumas das questões familiares.A principal força está na mistura entre aventura e conflitos domésticos. Os dinossauros são o elemento mais absurdo da história, mas servem para colocar a família diante de problemas que já existiam. O resultado é uma produção que olha para o cinema dos anos 1980 e 1990 sem abandonar discussões mais atuais.

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