O novo Resident Evil chegou aos cinemas brasileiros colocando uma questão curiosa para quem acompanha a franquia há anos: como fazer um filme baseado em uma das séries de games mais conhecidas do terror sem adaptar diretamente uma das histórias que já existem nos jogos? Foi esse o caminho escolhido pelo diretor Zach Cregger, que decidiu deixar personagens como Leon S. Kennedy e Claire Redfield fora do centro da trama e criar uma aventura própria durante o surto de Raccoon City.

A escolha naturalmente gerou discussão entre os fãs. Afinal, Resident Evil 2 é um dos capítulos mais conhecidos da franquia e seria um caminho relativamente óbvio para uma nova adaptação. O longa de 2026, porém, não pretende refazer a história de Leon e Claire. Em vez disso, acompanha Bryan, interpretado por Austin Abrams, um entregador de suprimentos médicos que chega à cidade justamente quando o surto transforma Raccoon City em um enorme cenário de sobrevivência.

Cregger sabe que essa decisão poderia provocar críticas. Em entrevista ao The Gamer, o diretor explicou que, na visão dele, nem mesmo uma adaptação extremamente fiel garantiria a aprovação de todo o público. “Se eu tivesse entregado uma história fiel a um desses jogos, eu acredito que as pessoas ficariam chateadas comigo também”, afirmou. Para o cineasta, tentar agradar cada grupo de fãs seria impossível, então a solução foi contar a história que ele considerava mais adequada para o filme.

Por que Leon Kennedy ficou de fora do novo Resident Evil?

A ausência de Leon faz mais sentido quando se entende a proposta do filme. Cregger não quis transformar o longa em uma versão cinematográfica de Resident Evil 2, mesmo utilizando o período em que o jogo acontece como parte da cronologia. A produção se passa durante o surto de Raccoon City, mas acompanha acontecimentos paralelos aos que envolvem Leon e Claire.

Isso permite que o filme explore uma cidade que os jogadores já conhecem sem precisar repetir a mesma aventura. Bryan não é policial, agente especial ou alguém preparado para enfrentar as criaturas da Umbrella. Ele é simplesmente um profissional que estava tentando cumprir uma entrega quando acabou preso no meio do desastre.

A situação começa quando Bryan é contratado pela Dra. Maria Stokes, interpretada por Emily Piggford, para levar um pacote médico até o Hospital Geral de Raccoon City. O que deveria ser apenas mais um trabalho rapidamente se transforma em uma luta pela sobrevivência quando o surto toma conta da cidade.

Essa escolha também ajuda a recuperar uma característica importante dos primeiros jogos: o personagem não sabe tudo o que está acontecendo. Ele precisa descobrir as informações conforme avança, encontrar recursos, entender o comportamento das criaturas e decidir em quem pode confiar.

Então o filme se passa durante Resident Evil 2?

Sim, mas é importante fazer uma distinção. O novo filme utiliza o mesmo período do surto de Raccoon City apresentado em Resident Evil 2, mas não adapta os acontecimentos do game.

Na prática, é como acompanhar outra pessoa em uma região diferente da cidade enquanto os eventos conhecidos pelos jogadores estão acontecendo em outro lugar. Leon e Claire não são necessários para que a história de Bryan funcione, embora o filme utilize elementos ligados à mesma mitologia.

A Umbrella continua sendo uma peça importante nesse cenário, assim como os experimentos que deram origem às criaturas. A produção também incorpora referências visuais e objetos que fazem parte da linguagem dos games.

Essa estratégia permite que Cregger trabalhe com uma história inédita sem transformar o filme em uma adaptação completamente desligada da franquia. Quem conhece os jogos encontra pistas e referências, enquanto quem não conhece pode acompanhar a história sem precisar saber o caminho percorrido por Leon ou Claire.

O que Zach Cregger aproveitou dos jogos?

A relação do filme com os games está menos na reprodução de uma história específica e mais na tentativa de transportar para o cinema a sensação de jogar Resident Evil.

A produção utiliza elementos conhecidos da franquia, como armas, recursos de sobrevivência, criaturas e a própria Umbrella. Também aparecem referências a objetos que os jogadores reconhecem imediatamente, incluindo ervas, sprays de primeiros socorros, máquinas de escrever e quebra-cabeças.

A ideia é que esses elementos façam parte do funcionamento daquele mundo, e não apenas apareçam como referências colocadas na tela para provocar uma reação do público. A estrutura da história segue uma lógica semelhante: Bryan precisa atravessar ambientes perigosos, encontrar maneiras de continuar avançando e descobrir gradualmente o que aconteceu com a cidade.

É uma diferença importante em relação às adaptações anteriores. Em vez de pegar uma campanha dos games e transformá-la em roteiro, Cregger tentou construir uma história nova utilizando algumas das regras que fizeram a franquia funcionar nos videogames.

Quem é Bryan e por que ele está em Raccoon City?

Bryan é um entregador de suprimentos médicos que recebe uma missão aparentemente simples: levar uma encomenda ao Hospital Geral de Raccoon City. Só que a cidade já está entrando em colapso quando ele chega ao local.

A partir daí, o personagem precisa descobrir uma maneira de sobreviver enquanto atravessa uma cidade tomada por infectados. O fato de ele não possuir treinamento militar ou experiência com as criaturas muda bastante a perspectiva da história.

Em vez de acompanhar um personagem que já conhece a ameaça, o público descobre as regras daquele mundo junto com Bryan. O protagonista precisa aprender rapidamente como lidar com o perigo, ao mesmo tempo em que tenta entender por que a Umbrella está envolvida naquela situação.

O elenco ainda conta com Paul Walter Hauser como Paul, um cientista da Umbrella, Zach Cherry como Carl, Kali Reis como Pauline e Johnno Wilson como Max, um xerife do condado de Arklay.

Outros personagens ligados aos experimentos da Umbrella também aparecem na trama, incluindo cientistas interpretados por Will Merrick, Zoé Bellas, Chris Lew Kum Hoi, Griffin Newman e Magdalena Sittovaas.

A Umbrella continua importante na história?

Sim. A corporação continua ligada ao desastre que transforma Raccoon City em um território tomado por criaturas infectadas.

No filme, Paul, Carl e Pauline estão entre os cientistas ligados à Umbrella. A presença deles ajuda a conectar a história de Bryan aos experimentos que fazem parte da mitologia dos jogos.

O longa também apresenta a Dra. Maria Stokes, responsável por contratar Bryan para fazer a entrega que o leva ao Hospital Geral. Aos poucos, fica claro que aquela encomenda está relacionada a algo muito maior do que um simples transporte de material médico.

É nesse ponto que o filme começa a ampliar a história de sobrevivência de Bryan e a apresentar as conexões com a Umbrella.

Por que Cregger preferiu criar uma história inédita?

A decisão parece estar ligada à própria dificuldade de adaptar uma franquia tão conhecida. Se o diretor escolhesse Resident Evil 2, por exemplo, teria que lidar com expectativas muito específicas sobre Leon, Claire, Raccoon City, a delegacia, os monstros e os principais acontecimentos do jogo.

Ao criar Bryan, Cregger consegue trabalhar dentro desse cenário sem precisar reproduzir uma história que o público já conhece.

Foi justamente esse o ponto levantado pelo diretor ao comentar a reação dos fãs. Na entrevista ao The Gamer, Cregger afirmou que acredita que seria criticado de qualquer maneira caso escolhesse uma adaptação extremamente fiel. Por isso, preferiu seguir a própria visão para o longa.

A declaração ajuda a explicar por que o filme não tenta justificar a ausência de Leon colocando outro personagem para ocupar exatamente o mesmo espaço. Bryan existe para contar outra história, não para substituir o protagonista de Resident Evil 2.

Quem dirigiu o novo Resident Evil?

Zach Cregger dirige o longa e assina o roteiro ao lado de Shay Hatten. O cineasta ganhou reconhecimento no terror com Noites Brutais (Barbarian, 2022) e posteriormente dirigiu A Hora do Mal (Weapons, 2025).

O projeto começou a ser desenvolvido pela Constantin Film em 2022, depois da recepção negativa de Resident Evil: Bem-Vindo a Raccoon City, lançado em 2021, e do cancelamento da série da Netflix.

Cregger entrou oficialmente no projeto em janeiro de 2025. A PlayStation Productions, ligada à Sony, também passou a participar da produção, enquanto a Columbia Pictures ficou responsável pela distribuição. As filmagens começaram em outubro de 2025, em Praga.

O longa chegou ao Fantastic Fest em 17 de setembro de 2026 e estreou nos cinemas brasileiros no mesmo período. Com orçamento estimado entre US$ 75 milhões e US$ 80 milhões, o projeto representa uma nova tentativa de levar a franquia da Capcom para as salas de cinema depois de diferentes adaptações ao longo dos anos.

O que os fãs estão achando dessa nova versão?

A reação tem sido dividida principalmente por causa da liberdade tomada por Cregger. Quem esperava uma adaptação direta de um dos jogos encontrou uma história original, sem Leon, Claire ou outros protagonistas tradicionais no centro da narrativa.

Por outro lado, a produção mantém diversos elementos reconhecíveis dos games e tenta aproximar a estrutura do filme da experiência de jogar Resident Evil. A recepção crítica inicial também tem sido positiva em diferentes veículos, embora existam ressalvas sobre ritmo e escolhas do terceiro ato.

No fim, a discussão em torno do longa passa por uma questão bem específica: é mais importante adaptar a história dos jogos ou reproduzir no cinema aquilo que faz os jogos funcionarem?

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