Antártida é o mais novo filme nacional a apostar na tecnologia das telas de LED para construir sua ambientação. A proposta poderia render um thriller claustrofóbico interessante, especialmente ao combinar uma estação de pesquisa isolada, um grupo de personagens confinados e um crime de violência sexual. O problema é que o longa não consegue sustentar nenhuma dessas ideias. Soterrado por um roteiro superficial e por uma direção pouco inspirada, o filme transforma uma temática urgente em um conflito simplista, sem a profundidade necessária para provocar reflexão ou envolvimento.

Dirigido por Bruno Safadi, o longa parte de uma premissa que, no papel, possui potencial. Um grupo de pesquisadores mantém uma instalação na Antártida e, durante uma festa realizada à noite, ocorre uma queda de energia. Nesse momento, Inês, interpretada por Marina Ruy Barbosa, é estuprada.

A partir daí, surge o principal mistério da história: quem estuprou Inês?

O problema está justamente na maneira como o filme conduz essa investigação. Uma discussão extremamente delicada sobre violência sexual é reduzida a uma espécie de jogo de suspeitas, baseado em perguntas como “foi você?” ou “você seria capaz de fazer isso?”. Em vez de explorar as consequências do crime, as relações de poder, o impacto psicológico da violência ou a dinâmica daquele ambiente isolado, o roteiro se prende a uma estrutura superficial de investigação.

A consequência é um filme que parece querer discutir uma questão social importante, mas raramente consegue transformar essa intenção em dramaturgia.

Quando as subtramas não encontram espaço para existir?

Ao longo da narrativa, outras questões são introduzidas. O filme apresenta outra mulher vítima de violência, acompanha a relação de um casal homossexual e mostra uma mulher negra ocupando, dentro da base, uma função historicamente associada aos homens.

São elementos que poderiam ampliar a discussão proposta pelo longa. O problema é que praticamente nenhum deles recebe desenvolvimento suficiente. As ideias entram e saem da narrativa sem que suas implicações sejam exploradas de maneira significativa.

Isso cria a sensação de que Antártida está constantemente apresentando assuntos que poderiam render boas histórias, mas abandonando todos antes de desenvolvê-los. Em consequência, as subtramas parecem mais recursos inseridos para reforçar determinados temas do que partes orgânicas de uma narrativa.

Inês existe para além do trauma?

A personagem de Marina Ruy Barbosa é outro ponto especialmente problemático. Inês acaba sendo construída quase exclusivamente a partir da violência que sofreu, tornando-se uma personagem definida pelo trauma.

É evidente que um estupro pode provocar consequências profundas e devastadoras. O problema não está em mostrar esse impacto, mas em fazer com que ele seja praticamente a única dimensão da personagem.

O roteiro parece esquecer que Inês existia antes daquela noite. Quem ela era? Quais eram suas relações? O que a motivava? Como ela se comportava antes do acontecimento? Quais características faziam dela uma pessoa específica, e não apenas uma vítima?

Sem essas respostas, o espectador não consegue estabelecer uma conexão verdadeiramente humana com a personagem. O sofrimento está presente, mas falta construção dramática para que ele seja sentido para além da informação narrativa.

E o que a Antártida acrescenta à história?

A escolha da Antártida como cenário também acaba desperdiçada.

A princípio, o isolamento poderia ser um dos principais elementos do filme. Uma estação científica cercada por gelo, distante da civilização e ocupada por pessoas que precisam conviver umas com as outras após um crime poderia criar uma atmosfera de paranoia e claustrofobia bastante eficiente, remetendo, em alguma medida, ao isolamento de obras como O Enigma de Outro Mundo.

Mas o filme raramente utiliza esse potencial.

Na prática, a história poderia acontecer em praticamente qualquer lugar. Japão, Brasil, Grécia ou Antártida: o cenário pouco interfere na dinâmica dos acontecimentos. A localização não possui peso dramático suficiente e tampouco é incorporada à narrativa de maneira significativa.

Até mesmo a tecnologia de telas de LED, que poderia ajudar a construir uma ambientação convincente, não resolve esse problema. A sensação é de que o cenário existe mais como pano de fundo do que como parte efetiva da história.

A montagem também não ajuda

A edição contribui para tornar a experiência ainda mais irregular. Em diversos momentos, o filme recorre a planos distantes das paisagens congeladas e a montagens que parecem funcionar mais como preenchimento do que como elementos narrativos.

Essas inserções interrompem o fluxo das cenas e tornam perceptível uma certa falta de ritmo e organização. Em uma história que deveria trabalhar constantemente a tensão do confinamento, a montagem frequentemente faz o contrário: dispersa a atenção e diminui o impacto dos acontecimentos.

O elenco é melhor do que o filme permite demonstrar?

Talvez uma das maiores frustrações esteja justamente aí.

O elenco reúne nomes capazes de entregar performances muito mais intensas, mas a direção não parece encontrar a melhor maneira de conduzi-los. As atuações frequentemente soam rígidas, e parte dessa limitação parece estar diretamente relacionada à construção dos personagens e aos diálogos.

Não basta reunir bons intérpretes se o roteiro não oferece material consistente e se a direção não consegue extrair deles diferentes camadas. Em Antártida, existe pouco espaço para que os personagens ultrapassem suas funções dentro da trama.

Isso também afeta Marina Ruy Barbosa, que recebe uma personagem com potencial dramático considerável, mas limitada por uma escrita que não consegue enxergar Inês para além do acontecimento que movimenta o filme.

Afinal, o que sobra de Antártida?

Antártida parte de uma ideia que poderia resultar em um thriller nacional interessante, especialmente por combinar isolamento, investigação e uma discussão urgente sobre violência contra a mulher.

O resultado, porém, fica muito aquém desse potencial.

O roteiro trata questões complexas de maneira superficial, as subtramas são pouco desenvolvidas, a ambientação antártica quase não interfere na narrativa, a montagem compromete o ritmo e a direção não consegue extrair do elenco a intensidade que a história exigia.

O maior problema, portanto, não é simplesmente o filme ser lento ou não funcionar como suspense. É a distância entre aquilo que Antártida parece querer discutir e aquilo que efetivamente consegue colocar em cena.

Uma temática tão delicada exigia personagens mais bem construídos, conflitos mais complexos e, principalmente, uma abordagem capaz de compreender a violência sexual para além de um mistério sobre a identidade do agressor.

Avaliação geral
Nota do crítico
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Louam Leone
Apaixonado por cinema e atento aos mínimos detalhes, vejo os filmes muito além da tela: são histórias vivas, capazes de despertar emoções e que merecem ser contadas com sensibilidade. Com um olhar apurado para o roteiro e, principalmente, para a força da construção visual, busco analisar a identidade, a estética e as escolhas técnicas que tornam cada obra única.
critica-antartida-e-soterrado-por-um-roteiro-raso-e-uma-direcao-sem-impactoEm "Antártida", a locação gélida serve apenas como pano de fundo irrelevante para a verdadeira tragédia da obra: o roteiro. O longa tenta emular grandes suspenses confinados, mas escorrega ao tratar um tema tão delicado quanto o abuso sexual de forma superficial, entregando estereótipos rasos e subtramas que não chegam a lugar algum. Um desperdício frustrante de talentos e boas ideias.

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