
Marcos Rey tinha uma habilidade particular para transformar situações aparentemente simples em histórias cheias de movimento. Em O Menino que Adivinhava, essa característica aparece logo na trajetória de José, um garoto que começa sendo tratado como alguém extremamente sortudo, mas acaba descobrindo que seu talento pode ter consequências bem menos divertidas do que imaginava.
José chama atenção porque suas previsões parecem funcionar em diferentes situações. Futebol, provas escolares e acontecimentos do cotidiano passam a alimentar a fama de que o garoto consegue enxergar o futuro. O problema surge quando uma de suas previsões envolve um artista famoso e, dessa vez, o acaso deixa de ser uma explicação convincente. O que antes parecia apenas uma brincadeira ganha proporções inesperadas.
A partir daí, o livro muda de ritmo e coloca José diante de um problema muito maior do que a própria fama. Transformado em celebridade por causa de seu suposto dom, ele deixa de ter uma vida normal e passa a despertar o interesse de pessoas que enxergam sua habilidade como uma oportunidade. O sequestro funciona justamente como consequência desse fenômeno: aquilo que parecia ser uma vantagem passa a colocar o protagonista em risco.
É nesse ponto que o livro se mostra mais interessante. José não é construído como um herói perfeito, capaz de resolver tudo simplesmente porque consegue prever acontecimentos. Pelo contrário, sua sobrevivência depende principalmente da inteligência, da criatividade e da capacidade de improvisar. O dom pode indicar um caminho, mas não resolve os problemas sozinho.
O ritmo acelerado também é uma das principais qualidades da obra. Marcos Rey evita prolongar situações desnecessariamente e conduz a narrativa de maneira direta, fazendo com que uma descoberta rapidamente leve a outra complicação. Para o público jovem, essa dinâmica torna a leitura acessível e mantém a sensação de que sempre existe alguma coisa prestes a acontecer.
Por outro lado, justamente essa velocidade faz com que alguns conflitos sejam resolvidos de maneira mais rápida do que poderiam. Há pouco espaço para aprofundar determinadas consequências da fama repentina de José ou explorar mais o impacto psicológico de ser perseguido por causa de uma habilidade que ele sequer escolheu ter.
Ainda assim, O Menino que Adivinhava funciona como uma aventura juvenil divertida e movimentada, mas também levanta uma questão interessante: até que ponto um talento extraordinário continua sendo um presente quando outras pessoas passam a querer controlá-lo? Marcos Rey encontra nessa pergunta o combustível para uma história que mistura humor, suspense e aventura sem complicar sua narrativa.





















