
A física pode estar em uma pesquisa de intenção de voto, em uma partida de futebol ou na dificuldade de armazenar energia produzida por fontes renováveis. É a partir dessas situações, próximas da experiência cotidiana, que o físico Adilson de Oliveira constrói O cosmos ao seu alcance: a natureza e seus fenômenos explicados de modo descomplicado, publicado pela Editora ICH, braço editorial do Instituto Ciência Hoje.
Professor titular da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), Adilson reúne no livro 68 textos originalmente publicados na coluna “Desvendando o cosmos”, da revista Ciência Hoje, desde 2018. Para a edição, os artigos foram revisados e adaptados, permitindo ampliar algumas das discussões apresentadas originalmente.
Em vez de separar a ciência dos acontecimentos que fazem parte da rotina, a obra utiliza justamente esses assuntos como porta de entrada para conceitos que podem parecer distantes do público.
O que uma pesquisa eleitoral tem a ver com física?
Um dos exemplos utilizados por Adilson está nas pesquisas de intenção de voto. O autor recorre a conceitos da mecânica estatística para explicar como uma amostra relativamente pequena pode fornecer informações sobre um universo formado por milhões de eleitores.
A discussão passa por temas que aparecem constantemente no noticiário durante períodos eleitorais, como margem de erro e empate técnico. A proposta é mostrar o que existe por trás dos números apresentados nas pesquisas e por que uma amostra não precisa reproduzir individualmente toda a população para produzir uma estimativa.
O livro também aborda como acontecimentos capazes de alterar rapidamente o comportamento de grupos podem interferir nesse cenário, incluindo a circulação de informações falsas.
E o futebol, onde entra nessa equação?
O esporte aparece como outro caminho para aproximar a física de uma situação facilmente reconhecível.
Uma partida de futebol envolve movimentos, trajetórias, velocidade, decisões coletivas e alterações constantes no comportamento dos jogadores. Uma estratégia pode funcionar durante boa parte do jogo e ser modificada por um acontecimento inesperado.
Ao aproximar esse tipo de situação dos conceitos científicos, o autor mostra como fenômenos aparentemente simples podem envolver relações complexas entre diferentes variáveis.
A ideia não é transformar uma partida em uma aula convencional de física, mas utilizar aquilo que acontece dentro de campo para ajudar o leitor a enxergar conceitos científicos em situações que já fazem parte de seu repertório.
Por que falar de energia vai muito além de trocar gasolina por eletricidade?
A transição energética também ganha espaço no livro. Adilson discute fontes como solar, eólica e biomassa, mas chama atenção para problemas que não desaparecem apenas porque uma tecnologia é considerada renovável.
A geração solar e a eólica, por exemplo, dependem de condições naturais que variam ao longo do tempo. Isso cria desafios relacionados à produção e ao armazenamento de energia.
Os carros elétricos também entram nessa discussão. A tecnologia não se resume à bateria instalada no veículo: existe uma cadeia produtiva relacionada à extração e ao processamento de materiais, à fabricação dos componentes e à própria infraestrutura necessária para utilização dos automóveis.
Ao abordar esses temas, o livro desloca a discussão de respostas simplificadas para as condições técnicas que precisam ser consideradas quando uma sociedade escolhe determinadas tecnologias.
Como explicar mecânica quântica sem transformar o assunto em um enigma?
Além dos exemplos cotidianos, O cosmos ao seu alcance percorre conceitos fundamentais da física e temas relacionados à astronomia, astrofísica, cosmologia e relatividade. A edição também passa por assuntos como buracos negros, estatística, financiamento científico e pseudociência.
A aproximação com o público é resultado de uma trajetória de divulgação científica construída por Adilson ao longo de décadas. O próprio autor relaciona seu interesse inicial pela física ao contato, ainda jovem, com o programa Cosmos, apresentado por Carl Sagan nos anos 1980.
Essa referência também ajuda a entender a proposta do livro: apresentar questões científicas sem abandonar a curiosidade e a relação da ciência com a experiência humana.
O que o livro diz sobre terraplanismo, vacinas e mudanças climáticas?
A divulgação científica ganha uma dimensão ainda mais direta nos capítulos dedicados à pseudociência e à desinformação.
Adilson aborda ideias como o terraplanismo, a desconfiança em relação às vacinas e a negação das mudanças climáticas, examinando os argumentos utilizados nesses discursos e confrontando-os com conhecimentos e evidências científicas.
Outro ponto explorado pelo autor é o uso inadequado de termos da física quântica. Palavras e conceitos associados ao universo quântico aparecem frequentemente em discursos que lhes atribuem significados que não correspondem ao seu uso científico.
Nesse caso, a proposta do livro é também esclarecer o que determinados conceitos realmente significam antes que sejam utilizados para sustentar explicações sem respaldo científico.
Por que um livro de física também fala sobre a própria ciência?
A obra não trata a ciência apenas como um conjunto de respostas prontas. Entre os assuntos discutidos estão também a história da ciência, as contribuições brasileiras para a pesquisa e os desafios relacionados ao financiamento científico.
Essa perspectiva aparece associada à defesa da pesquisa básica e da popularização do conhecimento científico. Para Adilson, compreender como a ciência funciona também ajuda a entender suas limitações, seus avanços e sua influência sobre a sociedade.
O prefácio é assinado por Marcelo Knobel, professor titular do Instituto de Física Gleb Wataghin da Unicamp e diretor-executivo da Academia Mundial de Ciências (TWAS).
De onde veio a ideia de colocar o cosmos ao alcance do leitor?
O título resume a proposta central do livro: aproximar fenômenos que podem parecer enormes ou abstratos de situações que fazem parte da vida cotidiana.
Em 240 páginas, Adilson de Oliveira reúne textos que passam da mecânica estatística às pesquisas eleitorais, dos buracos negros à cultura popular, da energia às discussões sobre pseudociência.





















