Denegrindo Ela, de Luana Génot, parte de uma ideia que já provoca antes mesmo da primeira página: ressignificar a palavra “denegrir”. O termo, historicamente associado à ideia de desqualificação, ganha na obra outro sentido — tornar negro, ocupar espaços, provocar mudanças e transformar aquilo que durante muito tempo foi contado a partir de uma única perspectiva.

O livro reúne crônicas publicadas na Revista Ela, do jornal O GLOBO, e talvez seu maior mérito esteja justamente em não tentar separar a experiência pessoal da discussão social. Luana escreve a partir do cotidiano, mas não trata o cotidiano como algo neutro. Relações, comportamentos, situações aparentemente banais e experiências pessoais tornam-se pontos de partida para discutir racismo, feminismo, representatividade e desigualdade.

Há uma força particular nessa escolha. Em vez de transformar cada texto em um grande manifesto, a autora permite que questões estruturais apareçam também nos pequenos acontecimentos. É justamente aí que Denegrindo Ela encontra sua identidade: na percepção de que o racismo e as desigualdades não estão apenas nos grandes acontecimentos históricos, mas também nas situações que se repetem diariamente e que muitas vezes são naturalizadas.

A escrita de Luana também evita transformar o livro em uma leitura exclusivamente pesada. Existe espaço para afeto, humor, memória e acolhimento. Essa mistura impede que as crônicas sejam reduzidas a textos de denúncia. Elas também são registros de vivências, pensamentos e sentimentos de uma mulher negra ocupando um espaço editorial que, durante décadas, foi marcado por outras vozes.

O próprio título funciona como uma espécie de chave de leitura. “Denegrir” deixa de ser uma palavra utilizada para diminuir e passa a representar uma ocupação simbólica. A proposta é desconfortável de propósito: mexer no significado, questionar o que foi naturalizado e mostrar que mudar a linguagem também pode ser uma maneira de disputar narrativas.

Isso não significa que todas as reflexões precisem provocar a mesma reação em todos os leitores — e talvez esse seja um dos pontos interessantes do livro. Denegrindo Ela não parece interessado em oferecer respostas confortáveis. Suas crônicas convidam ao confronto com experiências que podem ser familiares para alguns e completamente desconhecidas para outros.

Outro aspecto importante é o caráter documental da obra. Reunir sete anos de colunas significa registrar não apenas o pensamento da autora, mas também um período em que debates sobre racismo, identidade e representação ganharam novos espaços na esfera pública. O livro, portanto, funciona tanto como reunião literária quanto como registro de uma presença negra ocupando uma publicação feminina tradicional.

No fim, Denegrindo Ela funciona melhor quando entendido não como um livro que pretende falar por todas as mulheres negras, mas como o registro de uma voz específica que transforma suas experiências em reflexão. Luana Génot escreve a partir de seu lugar, mas abre espaço para que o leitor pense sobre o próprio.

Avaliação geral
Nota do crítico
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Esdras Barbosa
Além de fundador e editor-chefe do Almanaque Geek, Esdras também atua como administrador da agência de marketing digital Almanaque SEO. É graduado em Publicidade pela Estácio e possui formação técnica em Design Gráfico e Webdesign, reunindo experiência nas áreas de comunicação, criação visual e estratégias digitais.
resenha-denegrindo-ela-transforma-o-cotidiano-em-resistencia-e-reflexaoDenegrindo Ela, de Luana Génot, reúne crônicas que transformam experiências cotidianas em reflexões sobre racismo, feminismo, representatividade e desigualdade. Ao ressignificar o termo “denegrir”, a autora propõe uma leitura sobre ocupação de espaços e disputa de narrativas. Com uma escrita que alterna denúncia, afeto, humor e memória, o livro ultrapassa o caráter de reunião de textos e se torna também um registro de uma voz negra em um espaço editorial historicamente marcado por outras perspectivas. Uma obra que provoca, acolhe e convida o leitor a repensar situações naturalizadas do dia a dia.

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