Quando The Handmaid’s Tale chegou ao fim, muita gente imaginou que seria difícil continuar aquela história sem parecer apenas uma extensão feita para aproveitar o sucesso da franquia. Mas Os Testamentos fez exatamente o contrário. Em poucas semanas, a série saiu da sombra da produção original, cresceu sozinha no streaming e acabou de garantir oficialmente uma segunda temporada no Hulu.

A renovação veio depois que a série ultrapassou 45 milhões de horas assistidas no mundo inteiro. O dado mais curioso, porém, é outro: a audiência não explodiu apenas na estreia. Ela cresceu conforme os episódios avançavam. Segundo o Hulu, o oitavo capítulo teve 76% mais visualizações do que o primeiro, sinal de que muita gente começou a indicar a série depois de entrar de vez naquele universo pesado, desconfortável e cheio de tensão silenciosa.

E talvez esse tenha sido o grande acerto da produção. Em vez de tentar repetir exatamente o clima de The Handmaid’s Tale, Os Testamentos muda o foco da história e coloca adolescentes no centro do caos de Gilead. A série deixa de olhar apenas para quem tenta fugir do regime e passa a acompanhar quem nasceu dentro dele.

O que muda em relação a The Handmaid’s Tale?

A diferença aparece logo nos primeiros episódios. Enquanto a série original acompanhava personagens já quebradas emocionalmente pela violência de Gilead, Os Testamentos mostra garotas crescendo dentro daquele sistema como se tudo aquilo fosse normal.

Agnes, por exemplo, foi criada acreditando que virar esposa de um Comandante era um privilégio. Ela frequenta uma escola onde meninas aprendem etiqueta, religião e submissão ao mesmo tempo em que convivem com punições brutais tratadas como parte da educação.

Já Daisy chega carregando um olhar completamente diferente. Vinda do Canadá, ela enxerga absurdos em situações que as outras garotas aprenderam a aceitar desde pequenas. É justamente esse contraste que move a série.

E funciona muito bem porque a produção abandona discursos exageradamente explicativos. Em vários momentos, o horror aparece em detalhes pequenos: meninas comemorando castigos públicos, adolescentes disputando aprovação das Tias ou jovens tentando parecer felizes diante de casamentos arranjados com homens muito mais velhos.

Tudo parece organizado por fora, mas existe uma sensação constante de sufocamento em praticamente todos os episódios.

Por que a primeira temporada virou assunto nas redes?

Muito disso aconteceu porque a série não teve medo de mostrar o quanto Gilead destrói a juventude das personagens aos poucos. E não apenas fisicamente.

Um dos episódios mais comentados envolve Agnes descobrindo que sofreu abuso sexual durante uma consulta médica feita pelo Dr. Grove, homem respeitado pela elite do regime. O mais pesado da situação nem é apenas o crime em si, mas a forma como as autoridades tentam esconder tudo para preservar a imagem dele.

A série também trabalha bastante o medo constante das garotas. Em Gilead, qualquer deslize pode virar punição pública. Um palavrão, uma pergunta fora da hora ou até demonstrar interesse pela pessoa errada já basta para chamar atenção dos Olhos.

Daisy acaba entrando justamente nesse cenário como agente infiltrada da Mayday, o grupo de resistência que continua tentando derrubar Gilead. Só que a série evita transformar isso em uma história de espionagem cheia de ação. O clima é mais paranoico. Cada conversa parece perigosa. Cada corredor da escola passa sensação de vigilância.

Outro detalhe que ajudou a aumentar o engajamento do público foi o fato de a série explorar lados de Gilead que The Handmaid’s Tale quase não mostrava. Os episódios entram mais fundo nas escolas femininas, nas regras impostas às adolescentes e até nas disputas internas entre as próprias Tias.

Como Tia Lydia ganhou outra dimensão?

Se teve uma personagem que cresceu muito na série, foi Tia Lydia.

A série mostra partes do passado dela logo após o golpe dos Filhos de Jacó, período em que mulheres eram levadas para estádios, avaliadas como mercadoria humana e executadas caso fossem consideradas “inúteis” para o novo regime.

Os flashbacks ajudam a entender como Lydia sobreviveu naquele ambiente. Ela percebeu rapidamente que, para continuar viva, precisaria se tornar importante dentro da estrutura de Gilead. E foi assim que ajudou a construir o sistema das Tias.

Só que Os Testamentos faz algo interessante: Lydia continua cruel em muitos momentos, mas também demonstra desgaste. Aos poucos, ela começa a perceber que as garotas estão sendo esmagadas por um sistema que ela mesma ajudou a fortalecer.

Existe uma cena especialmente forte em que ela escuta relatos de abuso envolvendo meninas da escola e percebe que os Comandantes seguem protegidos independentemente do que façam. A personagem não vira heroína, mas passa a carregar um conflito interno muito mais visível do que na série anterior.

Quem mais chamou atenção no elenco?

Chase Infiniti consegue transmitir muito da transformação emocional de Agnes sem precisar exagerar nos diálogos. A personagem começa a temporada tentando agradar todo mundo ao redor e termina claramente sufocada pela vida que estão tentando impor a ela.

Já Lucy Halliday entrega uma Daisy mais impulsiva, inquieta e emocionalmente exposta. Em vários momentos, ela parece estar a poucos segundos de colocar toda a infiltração da Mayday em risco.

Quem também ganhou bastante repercussão foi Mattea Conforti como Becka. A personagem vive uma trajetória dolorosa e acaba protagonizando um dos momentos mais tensos da temporada nos episódios finais.

Rowan Blanchard também aparece muito bem como Shunammite Hayes, garota da elite de Gilead que começa a perceber que privilégio dentro daquele regime nunca significa segurança de verdade.

Enquanto isso, Mabel Li transforma Tia Vidala em uma presença quase intimidadora toda vez que aparece em cena.

O que a 2ª temporada deve explorar?

O final da primeira temporada praticamente desmonta a falsa sensação de estabilidade que existia dentro da escola das Tias. Agnes começa a romper de vez com as regras de Gilead, Daisy fica cada vez mais exposta como infiltrada e Lydia passa a acumular informações perigosas sobre crimes cometidos pelos Comandantes.

Também existe uma tensão política crescendo nos bastidores. A resistência da Mayday aparece mais organizada, ataques começam a atingir pontos importantes do regime e algumas lideranças de Gilead já demonstram medo de perder controle sobre parte da população.

Mas talvez o ponto mais interessante seja outro: a série parece menos interessada em mostrar apenas a queda de Gilead e mais focada em como essas adolescentes tentam descobrir quem realmente são depois de crescer ouvindo que liberdade é pecado.

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