Durante anos, Madá conhece cada canto da casa onde trabalha. Sabe quais quartos precisam ser preparados antes da chegada dos convidados, quais funcionários resolvem os problemas mais rápido e até o horário em que os patrões gostam de servir o café. Enquanto a família aproveita as férias em uma mansão à beira-mar, é ela quem mantém tudo funcionando.

É dessa rotina aparentemente comum que nasce Três Verões, filme escolhido pela Sessão de Sábado para este sábado, 18 de julho. Dirigido por Sandra Kogut (Campo Grande, Mutum), o longa parte de uma história doméstica para mostrar como um escândalo financeiro atravessa a vida de pessoas que nunca participaram dele.

O que muda quando a casa deixa de receber convidados?

Todos os finais de ano seguem o mesmo ritual. A mansão enche de familiares, amigos e festas. Madá trabalha sem parar, mas alimenta um plano que existe há muito tempo: juntar dinheiro para comprar um terreno e abrir o próprio negócio.

Ela acredita estar perto disso quando aceita um empréstimo oferecido pelo patrão. Só que, antes que consiga colocar os planos em prática, Edgar passa a ser investigado por corrupção. A prisão desmonta a vida da família e arrasta junto empregados, fornecedores e gente que dependia daquele dinheiro para viver.

O filme nunca transforma esse acontecimento em espetáculo. O interesse está nas pequenas consequências. O salário que atrasa. A promessa que deixa de ser cumprida. A casa que vai ficando vazia. Aos poucos, o cenário luxuoso perde o brilho, enquanto Madá tenta descobrir como seguir em frente.

Regina Casé faz de Madá uma personagem impossível de ignorar

Madá poderia ser apenas mais uma empregada retratada pelo cinema brasileiro, mas Regina Casé encontra um caminho muito mais interessante. Ela interpreta uma mulher que observa tudo, entende rapidamente o ambiente em que está e aprendeu, ao longo da vida, que reclamar resolve bem menos do que agir.

Ela ri, improvisa, insiste e, quando percebe que ninguém vai resolver seus problemas, começa a encontrar saídas por conta própria. Não existe discurso de superação nem cenas construídas para arrancar aplausos. O filme prefere mostrar uma personagem que continua andando mesmo quando o chão muda de lugar.

Ao redor dela estão Otávio Müller (Tapas & Beijos, Os Normais), Gisele Fróes (Sob Pressão), Jéssica Ellen (Amor de Mãe, Arcanjo Renegado), Rogério Fróes (Meu Nome Não é Johnny) e Edmilson Barros (Bacurau, Aquarius).

Por que a história continua atual?

Embora dialogue com um período bastante específico da história recente do Brasil, Três Verões não depende desse contexto para funcionar. O centro da história nunca está nas manchetes ou nos processos judiciais. Está nas pessoas que seguem trabalhando enquanto outras desaparecem deixando contas, dívidas e promessas pelo caminho.

Sandra Kogut observa esse universo sem transformar ninguém em herói ou vilão absoluto. Em vez de respostas prontas, prefere acompanhar personagens tentando reorganizar a própria vida quando aquilo que parecia estável deixa de existir.

É justamente por isso que Três Verões continua encontrando público anos depois do lançamento. O filme fala sobre dinheiro, poder e desigualdade, mas sempre a partir de quem normalmente aparece apenas ao fundo dessas histórias.

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