
Poucos diretores conseguem transformar um poema escrito há quase três mil anos em um dos maiores lançamentos do ano. Christopher Nolan acaba de provar que faz parte desse grupo. A Odisseia arrecadou US$ 51,2 milhões apenas na sexta-feira (17), seu primeiro dia em cartaz nos Estados Unidos. É a maior abertura diária de um filme live-action em 2026 e um resultado que muda completamente a conversa sobre o potencial comercial da produção.
Antes da estreia, havia quem enxergasse o longa como uma aposta arriscada. Afinal, adaptar um dos textos mais importantes da literatura ocidental não parece, à primeira vista, a fórmula mais fácil para conquistar o grande público. O desempenho nas primeiras horas de exibição indica exatamente o contrário. O interesse pelo filme foi suficiente para lotar sessões em diversos formatos, principalmente IMAX, onde a procura começou dias antes da estreia.
A arrecadação também coloca A Odisseia em um patamar raro para filmes que não pertencem a franquias já estabelecidas. Nos últimos anos, grande parte das maiores bilheterias de abertura veio de continuações ou adaptações de marcas conhecidas do entretenimento. Nolan chegou a esse resultado apresentando uma história que o público conhece mais pelos livros escolares, pela mitologia e pelas inúmeras referências feitas pelo cinema do que por adaptações recentes para as telonas.
Por que essa abertura muda o cenário do filme?
Um primeiro dia forte não garante que um longa se tornará um fenômeno, mas costuma revelar o tamanho do interesse inicial do público. No caso de A Odisseia, os US$ 51,2 milhões vieram acompanhados de outro dado importante: as projeções para o primeiro fim de semana cresceram conforme as sessões avançavam.
Quando as primeiras estimativas começaram a circular, analistas trabalhavam com uma abertura próxima de US$ 100 milhões. Depois da sexta-feira, esse número passou a ser revisado para cima, aproximando o filme da marca de US$ 120 milhões apenas no mercado americano.
Esse crescimento durante o próprio fim de semana costuma indicar que o público respondeu positivamente ao longa e que a procura não ficou concentrada apenas entre quem correu para assistir na primeira sessão disponível.
Outro fator observado pelo mercado é o CinemaScore, pesquisa realizada diretamente com quem acabou de sair da sessão. A Odisseia recebeu nota A, uma avaliação reservada para produções que costumam apresentar boa sustentação nas semanas seguintes. Em outras palavras, a tendência é que o boca a boca ajude a manter o filme em evidência.
O que explica tanta curiosidade em torno do longa?
Christopher construiu uma posição incomum em Hollywood. Hoje, seu nome funciona quase como uma marca própria. Muitos espectadores escolhem assistir aos seus filmes antes mesmo de conhecer todos os detalhes da história.
Foi assim com A Origem, Interestelar, Dunkirk e, mais recentemente, Oppenheimer, que transformou uma cinebiografia de três horas em um sucesso mundial e vencedor de sete Oscars. Depois daquele resultado, havia curiosidade para descobrir qual seria o próximo projeto do diretor.
A escolha surpreendeu justamente por fugir do esperado. Em vez de desenvolver um roteiro original ou assumir uma franquia conhecida, Nolan decidiu adaptar A Odisseia, poema atribuído a Homero e considerado um dos pilares da narrativa ocidental.
Embora a história de Odisseu seja conhecida há séculos, ela raramente recebe produções dessa escala em Hollywood. O diretor enxergou no texto algo que costuma aparecer em seus próprios filmes: personagens obrigados a conviver com as consequências das próprias escolhas, enfrentando desafios que vão muito além da ação física.
Como Nolan transformou um poema antigo em um blockbuster?
O filme acompanha Odisseu depois do fim da Guerra de Troia. O conflito terminou, mas a volta para casa se transforma em uma travessia que dura anos. No caminho aparecem figuras clássicas da mitologia grega, como Polifemo, Circe, Calipso e as Sereias.
Quem conhece o poema percebe rapidamente que Nolan não tratou esses episódios como pequenas aventuras independentes. Eles fazem parte de uma narrativa maior sobre sobrevivência, liderança, culpa e resistência.
Essa leitura também aparece na escala da produção. Com orçamento estimado em US$ 250 milhões, A Odisseia é o filme mais caro da carreira do diretor. Em vez de concentrar as gravações em estúdios, a equipe passou meses filmando em países como Grécia, Itália, Marrocos, Escócia e Islândia, utilizando cenários naturais para recriar parte do Mediterrâneo descrito por Homero.
Outro detalhe importante foi a decisão de registrar todo o filme com câmeras IMAX de 70 mm. Nolan já utilizava esse formato havia anos, mas nunca em uma produção completa. A escolha ajuda a explicar por que tantas sessões premium esgotaram ainda na pré-venda.
O investimento pode ser recuperado rapidamente?
Filmes dessa dimensão precisam manter um bom desempenho por várias semanas para recuperar seus custos de produção e divulgação. Ainda é cedo para afirmar qual será o resultado final de A Odisseia, mas a estreia oferece sinais bastante positivos.
A combinação entre uma abertura forte, avaliações favoráveis do público e a presença constante do filme nas salas IMAX cria um cenário confortável para as próximas semanas. O comportamento das bilheterias internacionais, incluindo mercados como Brasil, Reino Unido, França e Japão, será decisivo para definir o tamanho desse sucesso.
Quem está no elenco?
Se o tamanho da bilheteria impressiona, o elenco ajuda a explicar por que A Odisseia virou um dos filmes mais comentados do ano. Christopher Nolan reuniu atores de diferentes gerações e perfis para interpretar figuras centrais da mitologia grega, misturando nomes já conhecidos em seus filmes com artistas que vivem um dos melhores momentos da carreira.
O centro da história é Matt Damon, escolhido para interpretar Odisseu. Depois de colaborar com Nolan em Oppenheimer, o ator assume um personagem muito diferente dos heróis tradicionais do cinema de ação. Odisseu vence menos pela força do que pela capacidade de improvisar, negociar e sobreviver quando tudo parece perdido.
Para interpretar o rei de Ítaca, Damon passou por uma preparação física intensa e perdeu peso para representar um homem desgastado por duas décadas de conflitos, batalhas e viagens. O visual também recebeu atenção especial. Christopher Nolan preferiu que o ator deixasse a barba crescer naturalmente durante um ano, dispensando próteses e maquiagem para buscar uma aparência mais convincente diante das câmeras IMAX.
Ao lado dele está Tom Holland, que interpreta Telêmaco. Conhecido mundialmente como Homem-Aranha, o ator vive o filho de Odisseu, que cresceu sem saber se o pai realmente sobreviveria à Guerra de Troia. A participação do personagem amplia a história ao acompanhar acontecimentos em Ítaca durante a longa ausência do rei.
Anne Hathaway, colaboradora frequente de Nolan desde Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge, interpreta Penélope. Longe da imagem de uma personagem passiva, ela administra o reino durante anos e precisa lidar com dezenas de homens interessados no trono. Sua resistência se tornou um dos elementos mais conhecidos do poema de Homero.
Entre os antagonistas aparece Robert Pattinson, escalado como Antínoo, o mais influente entre os pretendentes de Penélope. O ator já havia trabalhado com Nolan em Tenet e retorna em um papel completamente diferente.
O elenco ainda reúne Zendaya como Atena, deusa que acompanha Odisseu ao longo da história, Charlize Theron como Calipso, Samantha Morton como Circe, Bill Irwin como o Ciclope Polifemo e Lupita Nyong’o, que interpreta duas personagens importantes da mitologia: Helena de Troia e Clitemnestra.
Outros nomes conhecidos também aparecem na produção, incluindo Jon Bernthal (Menelau), Benny Safdie (Agamenon), John Leguizamo (Eumeu), Himesh Patel (Euríloco), Mia Goth, Elliot Page, James Remar, Corey Hawkins e Logan Marshall-Green.
Uma das escolhas mais comentadas foi a participação de Travis Scott. O rapper interpreta um bardo, figura responsável por narrar histórias oralmente na Grécia Antiga. Nolan explicou que enxergou um paralelo entre esses narradores e artistas contemporâneos que contam histórias por meio da música, o que motivou a escalação.
Por que Nolan decidiu adaptar justamente A Odisseia?
Depois do sucesso de Oppenheimer, muita gente esperava que Christopher Nolan seguisse produzindo roteiros inéditos. Em vez disso, ele voltou quase três mil anos no tempo para adaptar um dos textos mais influentes da literatura ocidental.
A escolha não parece ter sido motivada apenas pelo prestígio do poema de Homero. O diretor encontrou em Odisseu um protagonista que dialoga com personagens recorrentes de sua filmografia: homens marcados pelas consequências das próprias decisões, obrigados a lidar com culpa, perdas e dilemas que não desaparecem com o tempo.
Essa leitura aproxima A Odisseia de outros trabalhos do cineasta, como Amnésia, Interestelar e Oppenheimer. Em todos eles, o conflito principal nasce muito mais das escolhas dos personagens do que da presença de um vilão tradicional.
Como foi a produção do maior filme da carreira de Nolan?
A Odisseia também representa um novo patamar técnico para Christopher Nolan.
Com orçamento estimado em US$ 250 milhões, trata-se da produção mais cara já dirigida pelo cineasta. As filmagens aconteceram entre fevereiro e agosto de 2025 em diferentes países, incluindo Grécia, Itália, Marrocos, Escócia, Islândia e Saara Ocidental.
O diretor optou por registrar todo o filme utilizando câmeras IMAX de 70 mm, tecnologia que já havia empregado parcialmente em obras anteriores, mas nunca durante uma produção inteira.
Essa decisão exigiu uma logística incomum. Equipamentos maiores, transporte especializado e adaptações em locações fizeram parte da rotina das gravações.
A produção ficou novamente nas mãos da Syncopy, empresa comandada por Christopher Nolan e Emma Thomas, com distribuição mundial da Universal Pictures.
















