Nova série do History2 investiga os mistérios mais sombrios da humanidade em Maldições da História

Histórias de tragédias inexplicáveis, objetos que carregam séculos de desgraça e cidades que jamais se recuperaram de antigos males. Esses são alguns dos temas centrais de Maldições da História (Cursed Histories), série documental inédita que estreia nesta quinta-feira, 10 de julho, no canal History2.

A produção, que chega com a proposta de unir investigação, arqueologia e história com uma dose de suspense sobrenatural, examina de forma rigorosa e cética as possíveis origens de algumas das maldições mais temidas da história. De múmias egípcias a túmulos esquecidos, de diamantes cobiçados a cidades-fantasma destruídas por guerras, Maldições da História propõe uma jornada entre o real e o mítico — e convida o público a refletir até que ponto o medo pode ser alimentado por séculos de relatos e coincidências.

Quando o passado cobra seu preço

Ao longo dos episódios, a série apresenta casos que desafiam a lógica. Em vez de simplesmente narrar lendas, a produção se propõe a investigar os fatos que deram origem a elas. Através de documentos históricos, análises científicas e entrevistas com especialistas, o programa tenta entender como e por que certas histórias de maldição ganharam força ao longo do tempo — e, em alguns casos, ainda hoje causam temor.

Entre os exemplos abordados estão ruínas de cidades onde a população desapareceu misteriosamente, pergaminhos antigos associados a mortes súbitas, joias consideradas amaldiçoadas por seus proprietários ao longo dos séculos, e até números tidos como “malditos” em diferentes culturas.

Estreia com mistérios congelantes

O episódio de estreia, intitulado “A Maldição do Homem de Gelo e a Cidade dos Gritos”, já dá o tom sombrio da temporada. Nele, três histórias se cruzam em uma narrativa inquietante: um antigo pergaminho europeu que teria provocado mortes misteriosas; a múmia neolítica conhecida como “Ötzi”, encontrada nos Alpes italianos e envolta em uma série de falecimentos súbitos entre os pesquisadores que lidaram com ela; e uma cidade devastada no Afeganistão, onde moradores acreditam que os gritos dos mortos ainda ecoam à noite.

História, medo e o poder das narrativas

Apesar de tocar em temas sobrenaturais, Maldições da História não se limita ao território do misticismo. O foco está na análise histórica e cultural dos fenômenos, buscando compreender como eventos reais foram reinterpretados pela tradição oral, pelo medo coletivo e pela construção de mitos.

Ao separar mito de realidade, a série busca lançar luz sobre o modo como diferentes civilizações lidaram com tragédias, desastres e coincidências — muitas vezes interpretando-os como sinais de punição divina ou forças ocultas.

Ivana Chubbuck traz ao Brasil nova edição de O Poder do Ator, livro que moldou astros como Brad Pitt e Beyoncé

Foto: Reprodução/ Almanaque Geek

Halle Berry com um Oscar nas mãos. Brad Pitt na melhor fase da carreira. Charlize Theron se transformando (literalmente) para viver papéis inesquecíveis. O que todos eles — e muitos outros — têm em comum? Uma mulher por trás das câmeras: Ivana Chubbuck.

Com mais de duas décadas lapidando os maiores talentos de Hollywood, a preparadora de elenco desembarca no Brasil com uma novidade que vai interessar atores, fãs de cinema e até profissionais de fora das artes. Trata-se da nova edição revista e ampliada do seu best-seller “O Poder do Ator”, lançado pela Editora Civilização Brasileira — agora com ainda mais ensinamentos, histórias reais e um mergulho intenso nas emoções humanas.

E nós tivemos acesso antecipado à obra. O que descobrimos? Que atuar, na visão de Chubbuck, não tem nada a ver com fingir. Tem a ver com acessar a verdade — mesmo que isso signifique encarar seus maiores medos, dores e fragilidades.

A técnica que virou culto em Hollywood — e não só lá

Criada a partir de sua própria trajetória de vida e estudo, a Técnica Chubbuck se tornou uma febre entre os atores que buscavam mais do que performance: queriam presença. Não à toa, o método é usado por estrelas como Jake Gyllenhaal, Jim Carrey, Sylvester Stallone e até Beyoncé, que recorreu à abordagem emocional da autora para se preparar para papéis desafiadores em sua carreira como atriz.

Mas o impacto do livro extrapolou o set de filmagem. De forma surpreendente, a Técnica Chubbuck passou a ser utilizada também no mundo corporativo: executivos da lista da Fortune 500 têm aplicado os 12 passos desenvolvidos por Ivana para aprimorar habilidades como liderança, tomada de decisão e inteligência emocional.

Mais do que um manual de atuação

Em “O Poder do Ator”, Chubbuck apresenta uma proposta ousada: transformar vulnerabilidade em potência. O livro orienta o leitor a mergulhar em si mesmo, encarar cicatrizes, entender gatilhos e usar tudo isso para criar — ou viver — com mais verdade. A atuação, nesse sentido, vira ferramenta de cura, transformação e conquista.

Com forte embasamento psicológico, o método convida o artista a deixar de representar para, de fato, existir em cena. Ivana evoca nomes como Stanislavski, Meisner e Uta Hagen, mas leva a atuação para um território mais íntimo, quase terapêutico — algo raro em obras do tipo.

Um presente para atores, criadores e curiosos

A nova edição brasileira, agora com conteúdo ampliado, chega em um momento oportuno: nunca se falou tanto em autenticidade, conexão emocional e saúde mental. Para artistas em formação ou profissionais em busca de reinvenção, Chubbuck entrega mais do que conselhos técnicos. Ela oferece um caminho. E cobra entrega.

Crítica – Superman de James Gunn recupera a essência do herói com emoção e humanidade

Foto: Reprodução/ Internet

Após meses de antecipação, teorias e imagens de bastidores que incendiaram as redes sociais, Superman — primeiro capítulo oficial do novo DCU sob a liderança criativa de James Gunn — finalmente chega às telonas com a difícil missão de reintroduzir o herói mais icônico da cultura pop. O filme não reinventa a roda nem estabelece um novo padrão técnico ou estético para o gênero de super-heróis. Mas talvez isso nem fosse necessário. Em vez de buscar grandiosidade ou rupturas, Superman acerta justamente ao olhar para trás com sensibilidade e seguir em frente com o coração.

James Gunn, conhecido por sua estética irreverente e personagens excêntricos, entrega aqui um trabalho mais contido e respeitoso. Ele compreende o que o Superman representa — não apenas como símbolo de poder, mas como arquétipo de esperança, de nobreza moral e de humanidade em tempos sombrios. Sua abordagem não é cínica nem revisionista. Pelo contrário, o diretor opta por uma leitura clássica e idealista do personagem, ainda que ancorada nas ansiedades do presente: desinformação, crises institucionais, tensões geopolíticas e um mundo cada vez mais cético.

Um Superman de carne, osso e compaixão

No papel do novo Clark Kent, David Corenswet se destaca por uma entrega honesta, que foge da grandiloquência tradicional dos super-heróis. Seu Superman é gentil, vulnerável e, sobretudo, movido por empatia. É um homem que sente antes de agir, que se deixa afetar pelas dores do mundo e que, mesmo com todos os poderes, continua buscando seu lugar entre os humanos.

Sua atuação resgata o espírito de Christopher Reeve, mas com um toque mais introspectivo. Não é apenas um herói solar — é alguém que hesita, que se questiona, que erra. E é nesse espaço entre o mito e o homem que o filme encontra sua força emocional mais genuína.

A força simbólica diante do caos

Gunn acerta ao reposicionar o Superman em um contexto mais turbulento e ético. Os obstáculos que Clark enfrenta não são apenas físicos ou intergalácticos — são morais. Como agir diante da complexidade de um mundo que já não acredita em figuras puras ou verdades absolutas? Como ser um símbolo de esperança sem cair no messianismo ou na ingenuidade?

O roteiro evita o didatismo, apostando numa construção equilibrada entre ação, introspecção e dilemas sociais. Ainda assim, não escapa de algumas armadilhas.

Quando o universo se impõe sobre o protagonista

O maior problema de Superman é estrutural: a tentativa de introduzir um leque extenso de personagens e subtramas que acabam diluindo a jornada do protagonista. Presenças como a Mulher-Gavião e o Lanterna Verde — por mais interessantes que sejam em conceito — pouco acrescentam à trama central e funcionam mais como acenos ao futuro do DCU do que como elementos orgânicos do filme.

Essa pulverização narrativa também afeta a relação entre Superman e seu principal antagonista, Lex Luthor. [Nome do ator], em um desempenho contido e gelado, oferece um vilão que funciona em termos de ameaça, mas não em profundidade emocional. A rivalidade entre os dois, que deveria carregar o peso dramático da história, carece de camadas e conflito interno. O embate se torna quase burocrático, o que destoa da densidade emocional construída ao redor do protagonista.

Gunn mais maduro — e mais contido

Para os que esperavam o tom debochado e colorido de Guardiões da Galáxia ou O Esquadrão Suicida, o novo Superman pode soar surpreendentemente sóbrio. James Gunn demonstra aqui uma faceta menos espalhafatosa e mais madura, claramente ciente da responsabilidade simbólica de dirigir um personagem com tanta bagagem cultural e emocional.

Há espaço para humor e leveza — elementos que humanizam o longa sem comprometer seu coração dramático. Mas a grande virtude do filme está na sua modéstia emocional: ao evitar a tentação de fazer do longa uma vitrine para o novo universo compartilhado, Gunn opta por construir algo mais íntimo e centrado.

Veredito

Superman não é um divisor de águas no gênero nem o blockbuster definitivo que alguns talvez esperassem. Mas é, com todas as letras, um acerto. Um filme que entende a alma de seu personagem, que não tem medo de ser sincero em sua mensagem e que valoriza aquilo que tornou o Superman eterno: sua fé inabalável nas pessoas.

Talvez estejamos tão acostumados à ironia, à violência e ao cinismo, que ver um herói agir com genuína compaixão pareça revolucionário. Mas Superman não tenta ser revolucionário — ele só quer nos lembrar que ser bom ainda é uma escolha possível. E necessária.

Minha Vida com a Família Walter está de volta — e promete abalar corações na 2ª temporada

Foto: Reprodução/ Internet

A Netflix acaba de atiçar nossos sentimentos adolescentes com o primeiro teaser da 2ª temporada de Minha Vida com a Família Walter, que estreia no catálogo no dia 28 de agosto. Se você riu, chorou e se apegou aos Walter na temporada passada, prepare-se: vem aí mais intensidade, mais dilemas e aquela avalanche de emoções que só uma casa cheia de irmãos (do coração ou não) pode proporcionar.

Relembrando a história: do caos à reconstrução

Jackie Howard (interpretada pela carismática Nikki RodriguezOn My Block, My Life with the Walter Boys) teve sua vida virada do avesso. De adolescente sofisticada em Manhattan, viu-se órfã de uma hora pra outra e foi enviada para viver no interior do Colorado — com um tutor que ela mal conhecia e oito garotos completamente diferentes dela.

Mas foi entre o caos da nova rotina e a confusão emocional do luto que Jackie começou a encontrar algo que nem sabia que estava procurando: um tipo de família completamente inesperado, cheia de barulho, tropeços e amor em construção.

O que esperar da nova temporada?

Se a primeira temporada tratou da dor da perda e da adaptação forçada, os novos episódios parecem mergulhar nos dilemas do coração, amadurecimento e pertencimento real. Afinal, agora Jackie já não é mais apenas a menina nova da casa: ela criou laços, viveu atritos, e talvez… esteja começando a se sentir em casa?

O teaser dá pistas de reencontros intensos, decisões difíceis e uma Jackie mais segura — mas ainda em busca de quem realmente é. O clima é de transição: dos lutos silenciosos para os gritos (e beijos) adolescentes.

Um elenco jovem que amadureceu com seus personagens

Além de Nikki Rodriguez, o elenco da nova temporada conta com Sarah Rafferty (Suits, Grey’s Anatomy), Marc Blucas (Buffy, a Caça-Vampiros), Noah LaLonde (Criminal Minds), Ashby Gentry (Wild Indian), Connor Stanhope (Smallville), Johnny Link (Dear Evan Hansen), Corey Fogelmanis (Girl Meets World, Ma), Jaylan Evans (The Resident), Zoë Soul (The Purge: Anarchy), Isaac Arellanes (Ghostwriter), Myles Perez (One Day at a Time) e Alex Quijano (Station 19, The Good Doctor). Um time afiado, que equilibra emoção, carisma e presença de tela — dando ainda mais vida a esse universo caótico e cheio de afeto.

Família a gente encontra nos lugares mais improváveis

Minha Vida com a Família Walter é daquelas séries que a gente começa achando que vai ser só mais um drama teen, mas acaba sendo surpreendido por afetos sinceros, personagens com alma e reflexões que ficam ecoando mesmo depois dos créditos.

E por mais que oito garotos barulhentos sejam um pesadelo para alguns, para Jackie (e para quem assiste), eles se tornaram algo precioso: uma nova chance de amar — e ser amada.

📅 Anota aí: a 2ª temporada estreia 28 de agosto na Netflix. Até lá, vale maratonar a primeira e preparar o coração para o reencontro com os Walter.

A Graça de Sorrentino chega a Veneza com estreia mundial — e distribuição global pela MUBI

Foto: Reprodução/ Internet

A elegância cinematográfica de Paolo Sorrentino está de volta às telonas — e ao coração da crítica internacional. Seu mais novo trabalho, La Grazia, foi anunciado como filme de abertura da Competição Oficial do prestigiado 82º Festival Internacional de Cinema de Veneza, um feito que já o coloca sob os holofotes antes mesmo do primeiro aplauso.

Mas as boas novas não param por aí: a MUBI, que tem se consolidado como mais do que um serviço de streaming — atuando também como distribuidora e produtora — adquiriu os direitos globais de distribuição (exceto na Itália), reforçando seu compromisso em levar cinema de autor ao público mundial. A plataforma ficou responsável pelos territórios da América Latina, América do Norte, Reino Unido, Irlanda, Alemanha, Áustria, Benelux, Espanha, Turquia, Índia, Austrália e Nova Zelândia. Já os direitos da Itália permanecem com a PiperFilm, enquanto a The Match Factory cuidará da venda para os demais mercados.

La Grazia — título que, como já se especula, pode dialogar tanto com o sagrado quanto com o profano — marca mais uma colaboração entre Sorrentino e o ator Toni Servillo, dupla responsável por obras aclamadas como A Grande Beleza (vencedora do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro) e A Mão de Deus. A atriz Anna Ferzetti também integra o elenco principal, prometendo ampliar as camadas sensoriais e emocionais que Sorrentino tão bem sabe explorar.

O longa foi escrito e dirigido pelo próprio Sorrentino e nasce de uma co-produção entre The Apartment Pictures (empresa da Fremantle), Numero 10 e a já citada PiperFilm. A Fremantle, aliás, assina a produção como um todo, dando um selo de sofisticação e consistência internacional ao projeto.

Pouco foi revelado sobre o enredo — como é de costume nos projetos do cineasta napolitano — mas, se o título serve de pista, podemos esperar um mergulho existencial sobre a beleza (ou talvez a angústia) da redenção, da fé ou da própria arte. Com Sorrentino, sabemos: a estética é sempre um caminho para algo mais profundo.

A escolha de Veneza como palco de estreia mundial é simbólica. Além da tradicional relação entre o festival e os grandes nomes do cinema europeu, a cidade flutuante oferece a moldura ideal para o estilo visual barroco.

O Deserto de Akin estreia em 31 de julho e ganha cartaz oficial, imagens inéditas e nova versão do trailer

Foto: Reprodução/ Internet

Com estreia marcada para 31 de julho, o novo filme de Bernard Lessa mistura política, afeto e pertencimento ao contar a jornada de um médico cubano deslocado no Brasil. O longa teve sua estreia na abertura do Festival de Vitória e já deixou claro: é um daqueles filmes que ficam ecoando depois dos créditos finais.

Por trás de cada deserto existe uma travessia — geográfica, emocional ou política. Em O Deserto de Akin, o que se atravessa é o Brasil, mas também os afetos, os silêncios e as fronteiras entre quem chega e quem já está à deriva. Com direção do capixaba Bernard Lessa, o filme chega aos cinemas em 31 de julho, depois de uma estreia de prestígio na abertura do 32º Festival de Vitória, onde concorre na categoria de Melhor Longa Nacional.

A história acompanha Akin, médico cubano vivido pelo premiado Reynier Morales (vencedor de Melhor Ator no Festival do Rio 2024), que desembarca em uma comunidade indígena no Espírito Santo como parte do (agora extinto) programa Mais Médicos. Mas o filme não se limita à função profissional. Akin é um estrangeiro num país à beira do colapso político e afetivo — e o que ele encontra aqui não são só pacientes, mas um espelho: do próprio deslocamento, da solidão e do desejo de se enraizar.O Deserto de Akin

Um filme sobre acolhimento — e suas rachaduras

Durante sua permanência, Akin é acolhido por Érica (Ana Flavia Cavalcanti) e Sérgio (Guga Patriota), dois brasileiros que também carregam suas próprias lacunas, memórias partidas e zonas de silêncio. Não é romance, necessariamente. É algo mais tênue, mais humano. Talvez amizade, talvez afeto suspenso, talvez uma tentativa de pertencimento compartilhado entre quem já não sabe onde — ou com quem — está.

O filme, no fundo, é sobre isso: sobre encontros possíveis em tempos difíceis. E sobre como, às vezes, o gesto de permanecer é um ato de resistência. Entre consultas médicas, caminhadas na mata e conversas atravessadas pelo idioma e pela hesitação, O Deserto de Akin constrói um retrato silencioso e delicado de uma experiência real vivida por centenas de profissionais estrangeiros que atuaram no Brasil — e que, com a mudança de governo em 2018, viram seus contratos encerrados de forma abrupta, em um cenário que flertava com xenofobia institucional.

Do Espírito Santo para o mundo: paisagens, corpos e política

Rodado entre Nova Almeida, Aracruz, Vitória e Vila Velha, o filme valoriza os cenários capixabas com uma fotografia que mistura rusticidade e lirismo. Mas, acima de tudo, valoriza os rostos. Os corpos em trânsito. As vozes contidas. A atuação de Morales impressiona justamente pela contenção — ele diz muito com o olhar, com a hesitação no português, com o desconforto de quem precisa se adaptar sem ser convidado.

Ana Flavia Cavalcanti entrega mais uma performance potente e ao mesmo tempo terna. Érica é uma mulher com dores acumuladas, mas que oferece espaço. E esse gesto, no filme, tem um peso enorme: acolher alguém, mesmo com medo, é também se permitir ser transformado.

No elenco ainda estão Welket Bungué (A Viagem de Pedro) e Patricia Galleto, ampliando a dimensão humana da narrativa com presenças igualmente marcantes.

A estética de um cinema que observa mais do que grita

Bernard Lessa já vinha se destacando por filmes como A Mulher e o Rio (2019) e A Matéria Noturna (2021), premiado no Festival de Brasília. Mas em O Deserto de Akin, ele talvez tenha encontrado seu filme mais maduro. Há uma calma no olhar — mas uma calma inquieta, que observa as rachaduras das instituições, a falência das promessas políticas, e a força dos pequenos gestos de cuidado.

3ª temporada de Alice in Borderland estreia em setembro e promete mergulho mais sombrio na alma dos sobreviventes

Depois de tudo o que viveram — mortes, perdas, jogos cruéis, dor e superação —, parecia que Arisu e Usagi finalmente tinham alcançado aquilo que qualquer sobrevivente deseja: um pouco de paz. Mas se Alice in Borderland nos ensinou algo ao longo de suas duas temporadas, é que a tranquilidade sempre vem com prazo de validade.

A Netflix acaba de anunciar a estreia da 3ª temporada da série japonesa para o dia 25 de setembro, e trouxe também uma prévia que deixou os fãs em alerta: Usagi desapareceu. E o passado que eles acreditavam ter deixado para trás pode não ter acabado.

Amor, trauma e uma nova travessia

Diferente das temporadas anteriores, a nova fase de Alice in Borderland começa com Arisu e Usagi vivendo juntos, agora como casal. Eles construíram uma vida, mas ainda carregam consigo os traumas do que enfrentaram na Terra da Fronteira — aquele universo entre o sonho e o pesadelo, onde a sobrevivência dependia de lógica, coragem e, muitas vezes, sacrifícios impossíveis.

Mas tudo muda quando Usagi desaparece, supostamente guiada por Ryuji (Kento Kaku), um enigmático estudioso da vida após a morte. Abalado, Arisu se vê forçado a voltar ao lugar que quase o destruiu. E é justamente lá que ele reencontra Banda, um rosto conhecido — e perigoso — que traz revelações sobre o paradeiro de Usagi. Para salvá-la, Arisu terá que se reconectar com uma parte dele que tentou enterrar: o jogador, o estrategista, o sobrevivente.

A Terra da Fronteira muda, mas continua viva

Os jogos podem ter acabado, mas a Terra da Fronteira continua existindo. E talvez ela nunca tenha sido apenas um lugar — mas um estado de alma. A nova temporada promete mergulhar em questões mais densas: o que significa realmente voltar à vida depois de um trauma? O que acontece quando sobrevivemos ao impossível, mas seguimos presos ao que perdemos?

Mais do que novas provas físicas, a temporada deve explorar o jogo interno — aquele que se trava dentro dos personagens. A série, que sempre flertou com elementos psicológicos e existenciais, agora parece disposta a encarar de frente o que ficou mal resolvido. E, se conhecemos bem esse universo, sabemos que nada volta igual.

Um fenômeno global com alma japonesa

Lançada em 2020 e baseada no mangá de Haro Aso, Alice in Borderland começou como uma surpresa e se consolidou como um fenômeno de alcance mundial. Misturando ficção científica, ação, filosofia e emoção crua, a série conquistou não apenas pelo espetáculo visual, mas pela profundidade de seus personagens.

No centro da história, Arisu e Usagi formaram um elo raro: duas pessoas marcadas pela dor que encontraram uma espécie de redenção mútua. Agora, com o novo arco dramático, o público poderá vê-los enfrentando uma travessia ainda mais íntima — onde não há cartas na mesa, apenas o coração exposto.

Dica no MUBI: A Substância – Um corpo, duas versões e o preço da perfeição

Foto: Reprodução/ Internet

Já parou pra pensar no que faria se pudesse criar uma nova versão de si mesmo? Uma cópia fiel, só que mais jovem, mais bonita, mais “aprimorada”? Em A Substância, essa fantasia vira realidade — mas o preço, como sempre, é mais alto do que parece.

Dirigido e roteirizado pela francesa Coralie Fargeat (Revenge), o filme é uma bomba estética e emocional, com uma performance corajosa de Demi Moore, que entrega aqui um dos papéis mais impactantes (e autoficcionais) da carreira. Ela vive Elisabeth Sparkle, uma ex-estrela do mundo fitness que, depois de décadas sendo símbolo de juventude e disciplina, é descartada pela TV como quem joga fora um pote de creme vencido.

Humilhada, esquecida e à beira de um colapso, Elisabeth aceita experimentar uma droga experimental — uma substância misteriosa que promete “regenerar” sua juventude. Mas essa não é uma fórmula mágica de rejuvenescimento. É outra coisa. A substância cria outra você. Literalmente.

É aí que entra Margaret Qualley, vivendo a nova Elisabeth — mais nova, mais confiante, mais livre. Por contrato, as duas precisam dividir o mesmo corpo em turnos semanais: sete dias para a original, sete dias para a nova. Simples na teoria. Mas no fundo, quem vai querer abrir mão da própria existência assim, tão facilmente?

Um thriller de identidade com sangue, brilho e crítica social

A Substância é grotesco, estiloso, dolorido e brilhante — tudo ao mesmo tempo. Um terror corporal que conversa com filmes como A Mosca ou Cisne Negro, mas com uma linguagem muito própria. É uma fábula feminista sobre envelhecer sob os holofotes, ser descartada pelo sistema, e sobre o desejo desesperado de continuar sendo vista.

Entre cenas que beiram o absurdo e outras que apertam o peito, o longa constrói uma metáfora visceral sobre fama, vaidade, autoimagem e o terror de ser esquecida. E o mais interessante é que nada disso é pregado com discurso — tudo vem pelo corpo, pela imagem, pelo desconforto que a câmera imprime.

Demi Moore se entrega de corpo e alma. Literalmente. Ao lado de Margaret Qualley (em mais uma atuação física e vibrante), as duas constroem um embate tenso, emocional e até melancólico entre a mulher que tenta manter sua identidade e a outra que só quer existir — custe o que custar.

E no meio disso tudo, o espectador assiste à guerra silenciosa (e às vezes sangrenta) entre essas duas versões de uma mesma mulher. Quem vence, afinal? A que já viveu ou a que promete durar para sempre?

🎬 A Substância (The Substance)
Direção e roteiro: Coralie Fargeat
Elenco: Demi Moore, Margaret Qualley, Dennis Quaid
Duração:
Classificação: 18 anos
Disponível agora na MUBI
Também para aluguel no Prime Video

O Silêncio das Ostras: Filme mineiro emociona e denuncia os impactos humanos da mineração

Foto: Reprodução/ Cred Olhar Filmes

Na tela, a poeira parece não assentar. A lama não seca. As palavras quase não saem — e talvez por isso o silêncio diga tanto. Em O Silêncio das Ostras, primeiro longa de ficção do premiado documentarista Marcos Pimentel, a tragédia de Brumadinho deixa de ser manchete e se transforma em carne, memória e ferida aberta. O filme estreou com aclamação no 26º Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro e chega agora aos cinemas de todo o Brasil como uma das obras mais urgentes, sensíveis e necessárias do nosso tempo.

Narrado pelos olhos da pequena Kaylane (vivida com delicadeza por Lavínia Castelari), o filme não traz heróis nem respostas fáceis. Apenas sobreviventes. Gente comum, como tantas que vivem (ou sobrevivem) nas sombras da mineração em Minas Gerais. Kaylane nasceu e cresceu em um vilarejo de operários onde a paisagem é seca, o tempo é pesado e os sonhos… enterrados. À sua volta, o pai, silenciado por anos de trabalho insalubre; a mãe Cleude (Sinara Telles), exausta de carregar nas costas os cacos de uma vida que a mineração não poupou.

Entre perdas sucessivas, Kaylane aprende cedo a conviver com a despedida. Cresce sozinha, cercada por irmãos que seguem o mesmo destino dos pais, e encontra nos insetos e na natureza — o que ainda resta dela — sua forma de entender o mundo. Há um lirismo estranho e profundo nisso tudo. O filme nos convida a ver pelos olhos dela, a sentir por dentro aquilo que a terra parece gritar, mas ninguém escuta.

“O filme nasceu do desejo de revisitar lugares que foram esvaziados. A mineração não extraiu só o minério — arrancou também a alma dessas comunidades”, conta o diretor Marcos Pimentel. A ficção ganha ainda mais força quando entrelaçada a imagens reais dos rompimentos de barragens, como os de Fundão (2015) e Brumadinho (2019), tragédias que mataram centenas, destruíram ecossistemas e deixaram marcas que seguem pulsando — invisíveis para muitos, mas ainda muito vivas para quem ficou.

O Silêncio das Ostras não é um filme sobre o passado. É sobre o presente que insiste em não mudar. É sobre o cotidiano de quem viu a água virar lama, os vizinhos virarem nomes em placas e os sonhos virarem silêncio. “Retratamos uma dor que ainda é real”, reforça Pimentel.

Mais do que denúncia, o longa é um manifesto poético. Uma tentativa de reocupar os vazios — geográficos e afetivos — deixados pelas mineradoras. A trilha é o silêncio, mas a imagem fala. E como fala.

Foto: Reprodução/ Cred Olhar Filmes

A beleza que resiste

A fotografia do filme aposta em tons ocres, quase sem vida, que contrastam com a imaginação fértil de Kaylane. Ali onde tudo parece morto, ela encontra beleza. Onde muitos já não enxergam saída, ela ainda procura caminhos. Há uma doçura trágica nisso. Uma força que emociona.

Com atuações marcantes de Bárbara Colen, Lavínia Castelari, Sinara Telles e um elenco profundamente comprometido com a verdade da história, o filme transforma um cenário devastado em palco de resistência emocional. É sobre crescer no meio do fim do mundo. E, ainda assim, sonhar.

Estreia nacional

Além de Belo Horizonte, O Silêncio das Ostras entra em cartaz esta semana em diversas capitais e cidades brasileiras, incluindo São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Porto Alegre, Salvador, Fortaleza, Curitiba, Brasília, Manaus, Belém, Vitória, Londrina e Sorocaba.

Entre a batina e o amor proibido: O romance A Voz do Tempo revela escândalo envolvendo ex-padre nos anos 40

Por trás de muitas histórias de família repousam segredos silenciados por décadas. Às vezes, eles estão escondidos em cartas antigas, fotografias desbotadas ou em peças de roupa guardadas em baús. No caso da escritora Lenah Oswaldo Cruz, o segredo estava em uma batina branca com detalhes dourados e em três cadernos manuscritos encontrados entre os pertences do pai. A descoberta, ao mesmo tempo íntima e perturbadora, deu origem ao romance A Voz do Tempo (Leitura Coletiva), que narra o amor proibido entre um padre beneditino e uma jovem da elite carioca, nos anos 1930 e 40.

Misturando memória pessoal, pesquisa histórica e reconstrução ficcional, o livro parte da trajetória real de Dom Xavier, um respeitado professor de filosofia e sacerdote da ordem beneditina que, em determinado momento de sua vida, decide abandonar o sacerdócio ao se apaixonar por Dora, uma jovem de beleza marcante, pertencente a uma família tradicional do Rio de Janeiro. O relacionamento, vivido em segredo até a ruptura definitiva com a Igreja, logo se tornaria público — e escandaloso.

“Quando encontrei os diários, percebi que precisava contar essa história. Não só pela minha família, mas pelo que ela dizia sobre fé, desejo e o peso das escolhas em tempos mais duros”, conta a autora, em entrevista.

Amor, culpa e silêncio: as consequências de uma decisão radical

A união entre Xavier e Dora, selada sob o impulso de um sentimento arrebatador, não trouxe apenas o alívio da libertação. A renúncia de Xavier à vida religiosa foi duramente julgada pela comunidade católica e pela própria família, e o casamento, idealizado como fuga e recomeço, logo revelou rachaduras profundas.

“Eles pagaram um preço alto por terem escolhido o amor. Só que o amor, às vezes, não basta.” Essa é uma das frases recorrentes no romance, que acompanha a evolução da relação do casal ao longo das décadas — da paixão inicial aos conflitos conjugais, das expectativas frustradas à violência doméstica, do sonho romântico à dor cotidiana.

Ao contar a história de seus pais, Lenah não tenta redimi-los. O que ela oferece ao leitor é uma narrativa profundamente humana, em que a coragem de romper com as estruturas tradicionais também abre espaço para o desencanto. Dora, antes musa inspiradora de uma mudança de vida radical, torna-se uma mulher ressentida e melancólica. Xavier, por sua vez, vê-se prisioneiro de uma decisão que o distancia da fé e da vocação, mas não lhe oferece a paz que imaginava encontrar fora da batina.

A memória como reconstrução do que foi (e do que poderia ter sido)

Escrito em primeira pessoa, o romance oscila entre o relato memorialístico e a ficção histórica. Ao longo das páginas, Lenah costura trechos dos diários paternos com lembranças da infância, cenas reconstruídas a partir de relatos familiares e referências ao contexto político e cultural da época. A narrativa atravessa cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Washington e Lisboa, acompanhando os deslocamentos e transformações do casal e de seus descendentes.

Eventos históricos como a Revolução Constitucionalista de 1932, o surgimento de movimentos intelectuais católicos no Brasil e a vida universitária nos anos 50 servem de pano de fundo para a trama. Mas é na dimensão afetiva que o livro encontra sua força. Ao relatar os impactos do casamento conturbado dos pais em sua própria formação emocional, Lenah revela também o esforço de reconstrução — da memória, da identidade e, sobretudo, da escuta.

“Durante anos, essa história foi tratada como tabu na minha família. Escrevê-la foi uma forma de escavar não só o passado, mas o silêncio que ele impôs.”

O poder do romance como lugar de revelação

A Voz do Tempo chega aos leitores não apenas como uma história de amor impossível, mas como um retrato sensível das consequências emocionais de decisões radicais em uma sociedade ainda profundamente marcada pela moral religiosa. Ao dar voz a personagens reais — com todas as suas imperfeições, falhas e contradições —, Lenah Oswaldo Cruz propõe uma reflexão sobre os limites entre vocação e desejo, fé e liberdade, família e ferida.

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