Crítica – Com Unhas e Dentes é pancadaria contra zumbis em ritmo de ação frenética — e nada além disso

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Imagine que o apocalipse zumbi começou… e quem está no centro do caos não é um soldado, nem um cientista genial, muito menos um sobrevivente comum. Quem pega a linha de frente aqui é um ex-lutador de Muay Thai, pronto para meter o cotovelo na fuça de morto-vivo. Assim é “Com Unhas e Dentes”, o novo longa tailandês que chega à Netflix com a missão de entreter sem prometer mais do que pode — e cumpre isso com sangue, suor e muitos chutes na cabeça.

💥 Pancadaria sincera, do jeito que a gente gosta

Dirigido por Kulp Kaljareuk, o filme não tenta reinventar o apocalipse. Ele sabe exatamente o que está fazendo: mistura dois gêneros adorados — zumbis frenéticos e artes marciais coreografadas — e entrega tudo isso num ritmo acelerado e sem frescura. A história é simples, direta e eficaz: Singh, vivido por Prin Suparat, só quer resgatar sua esposa, Rin, presa no hospital onde o surto começou. No caminho, encontra um menino perdido, algumas centenas de infectados famintos e muitas desculpas para descer a porrada.

🧠 Profundidade? Aqui não, irmão.

Com Unhas e Dentes não está interessado em metáforas, críticas sociais ou construção filosófica do apocalipse. Ele deixa isso pros filmes cabeça. Aqui, a narrativa é um videogame em carne e osso: missão, inimigos, lutas e o bom e velho “salvar quem se ama”. O roteiro de Nut Nualpang e Vathanyu Ingkawiwat aposta no clichê com convicção — e isso é parte do charme.

🤜 Zumbi não tem vez contra chute giratório

O que realmente diferencia o longa é a ação. Nada de armas mirabolantes ou explosões genéricas. O protagonista resolve tudo com o próprio corpo como arma. As lutas são coreografadas com precisão, ritmo e impacto. Singh transforma cada corredor do hospital em ringue, com zumbis servindo de saco de pancadas. É brutal, estiloso e, em alguns momentos, até engraçado — do jeito bom.

Se você é fã de filmes como Ong-Bak, Invasão Zumbi ou até aqueles clássicos de ação dos anos 90, vai se sentir em casa. E a fotografia não decepciona: câmera nervosa, muita sombra, closes em olhos arregalados e sangue espirrando como se fosse tinta de aquarela dark.

🧒 Um trio que segura a missão

Singh, Rin e o pequeno Buddy formam o trio que conduz a trama. Não espere profundidade psicológica — mas há carisma. Singh é um herói raiz, movido pela coragem bruta. Rin cumpre bem o papel de resistência emocional. E Buddy… bom, ele é a criança em perigo que serve de motor emocional (e faz a gente lembrar que zumbi e afeto nem sempre combinam).

Crítica | A Mulher que Nunca Existiu: quando desaparecer é a única maneira de existir

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Com estreia celebrada na seleção oficial do Festival de Veneza, o longa A Mulher que Nunca Existiu (Aïcha, no original), do cineasta tunisiano Mehdi Barsaoui, parte de uma premissa potente: e se a única chance de viver for desaparecer? A proposta é provocadora — uma jovem que sobrevive a um acidente fatal e decide abandonar sua vida, seu nome, sua história —, mas o desenvolvimento da trama, embora envolvente em muitos momentos, oscila entre o drama íntimo e a denúncia social sem encontrar o equilíbrio ideal.

Aya, interpretada com intensidade contida por Lili Farhadpour, é uma mulher nos seus vinte e poucos anos, presa a uma existência sufocante no sul da Tunísia: mora com os pais, vive sob regras conservadoras, e seu trabalho em um hotel turístico é sua única conexão com o mundo exterior. Quando a van que a transporta diariamente sofre um grave acidente, e ela se vê como única sobrevivente, surge a primeira reviravolta: a chance de recomeçar do zero. Aya foge, muda de cidade, assume outra identidade e se torna Aïcha. É aí que o filme começa — e também onde ele se divide.

A nova vida, feita de silêncios, receios e pequenos rituais de adaptação, é apresentada com sensibilidade. Há uma riqueza nos detalhes, no modo como a personagem aprende a caminhar em um novo ritmo, como se ajusta ao anonimato, como testa a liberdade que nunca teve. No entanto, a narrativa parece hesitar quando se trata de expandir essa experiência para além do seu drama pessoal.

A segunda grande virada da trama — quando Aïcha testemunha um caso de violência policial — traz de volta a tensão social e política que o filme ensaia explorar. Mas essa subtrama, que poderia alavancar o longa para um outro patamar de contundência, é tratada com um certo distanciamento, quase como se Barsaoui temesse deixar o terreno seguro do drama existencial e mergulhar mais fundo na crítica sistêmica.

O resultado é um filme visualmente refinado, com direção segura e atuações intensas, mas que parece podar o próprio impacto. Os dilemas morais da protagonista — entre manter sua liberdade ou se tornar testemunha de uma injustiça — são relevantes e dolorosos, mas faltam camadas ao conflito. O roteiro não se compromete totalmente nem com a transformação individual, nem com o embate político. Fica entre os dois, e acaba enfraquecendo ambos.

Outro ponto que merece atenção é o ritmo. A primeira metade do filme, focada na fuga e reinvenção de Aya, é envolvente e bem conduzida. Mas ao chegar ao segundo ato, o enredo perde um pouco de fôlego, como se não soubesse exatamente para onde conduzir sua protagonista. Faltam tensão dramática real, escolhas difíceis visíveis em cena, e consequências mais agudas.

Ainda assim, A Mulher que Nunca Existiu é um filme importante. Porque fala, mesmo que com moderação, de uma geração de mulheres árabes que tentam escapar de narrativas impostas, de vidas pré-determinadas, de ausências que doem mais do que a presença. É um filme que merece ser visto, debatido, reconhecido — mesmo que, no fim, deixe a sensação de que poderia ter ido mais longe, gritado mais alto, e feito da sua protagonista muito mais do que apenas uma metáfora da invisibilidade.

Crítica | O Ritual – Entre o sagrado e o psicológico, um horror que flerta com a fé e a dúvida

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No vasto universo dos filmes de possessão, O Ritual se encaixa em um terreno já bem explorado, mas consegue, ainda assim, deixar uma marca própria. Com fortes influências de O Exorcista (1973), a obra busca equilibrar tradição e inovação ao contar mais uma história de fé, medo e perturbação mental. Apesar de não reinventar o gênero, o longa propõe reflexões interessantes ao fundir elementos religiosos com dilemas da psique humana, criando uma tensão que pulsa entre o sagrado e o profano, entre a crença e o ceticismo.

A narrativa gira em torno de Emma, uma jovem que começa a manifestar comportamentos inquietantes, colocando em xeque a linha entre possessão demoníaca e distúrbios mentais. Essa ambiguidade se torna o fio condutor do filme, e talvez o seu maior trunfo. Diferente de outras produções que apostam na explicação sobrenatural como única via, O Ritual prefere manter o espectador em dúvida — um gesto corajoso que enriquece o suspense e dá profundidade dramática à história.

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A dúvida como protagonista

Ao invés de escancarar a presença de um demônio desde os primeiros minutos, o roteiro opta por uma construção mais contida, deixando que os sinais se acumulem de forma gradual. Gritos noturnos, convulsões, frases em línguas antigas — tudo pode ter explicações médicas ou espirituais, e o filme não se apressa em entregar respostas.

Essa escolha é mais do que um artifício narrativo; é uma proposta temática. O Ritual convida o público a entrar na dúvida junto com os personagens, especialmente com as freiras que cuidam de Emma em um convento isolado. São mulheres de fé, mas também de mundo, que oscilam entre o instinto religioso e o bom senso científico. Essa complexidade nas figuras religiosas foge dos estereótipos comuns do gênero e confere à obra um peso simbólico maior.

Atuações que sustentam a tensão

O elenco, embora discreto, é competente. A jovem protagonista entrega um desempenho intenso e contido, sem cair no exagero comum aos papéis de “possuída”. Há uma angústia silenciosa em sua expressão que torna sua situação ainda mais enigmática. O público não sabe ao certo se está diante de uma vítima de forças malignas ou de uma mente em colapso — e isso funciona.

As freiras merecem destaque. Diferentes entre si em temperamento e fé, elas representam os diversos modos de lidar com o sobrenatural: a que acredita cegamente, a que reluta, a que investiga. Cada uma traz uma nuance ao debate silencioso que se trava dentro do convento. Em um gênero que costuma tratar religiosos como meros instrumentos narrativos, é revigorante ver personagens eclesiásticas com personalidade, dúvidas e humanidade.

Estética e atmosfera: um acerto visual

Visualmente, O Ritual é belo em sua escuridão. Os corredores estreitos do convento, a iluminação natural das velas, os vitrais filtrando a luz — tudo coopera para criar uma atmosfera opressiva e sagrada ao mesmo tempo. Há um cuidado estético que aproxima o longa de um terror mais autoral, quase gótico, evocando sensações que vão além do susto.

Os efeitos visuais cumprem seu papel. Não há abusos em CGI, e os momentos mais “fantásticos” são contidos o suficiente para manter a dúvida plausível. Quando surgem, são bem executados: sombras que se movem sutilmente, objetos que vibram sem explicação, vozes que sussurram em latim. O problema está quando o filme recorre ao manual do terror contemporâneo: corpos se contorcendo, sangue jorrando, olhos virando — cenas que, embora esperadas, destoam da elegância do restante da obra e soam forçadas ou caricatas.

A câmera como inimiga

Se há um ponto que realmente compromete a experiência, ele está na direção de fotografia — mais precisamente na movimentação da câmera. Em muitos momentos, especialmente nas cenas de tensão, o filme opta por uma câmera tremida, próxima do estilo found footage, que pretende intensificar o caos e a urgência, mas acaba apenas desorientando. A intenção é compreensível: mergulhar o espectador na confusão dos personagens. Mas na prática, o excesso dessa técnica tira o foco da cena e pode causar desconforto visual que não tem relação com o horror pretendido.

Em uma obra que aposta tanto na ambiguidade e na construção lenta da tensão, uma câmera mais estática, que permitisse ao espectador observar e refletir, teria sido mais eficiente. A tentativa de copiar fórmulas de sucesso, como em A Bruxa de Blair ou Atividade Paranormal, aqui parece fora de lugar.

Psicologia versus fé: um debate silencioso

O grande mérito de O Ritual é provocar reflexão. Mesmo com alguns deslizes de execução, o filme acerta ao deixar o espectador inquieto, não pelos sustos, mas pelas perguntas. Emma está realmente possuída? Ou é uma vítima do abandono emocional e da pressão religiosa? As freiras são santas ou cúmplices de um ritual de negação da ciência?

Esse embate entre fé e razão — velho como a humanidade — é encenado com certa sofisticação. O filme não oferece respostas fáceis. E talvez por isso incomode tantos. Há espectadores que saem decepcionados justamente por não obterem uma explicação clara. Mas talvez essa seja a maior força da obra: assumir que, em algumas experiências humanas, não há conclusões definitivas.

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A experiência que depende de quem assiste

É curioso observar que grande parte das críticas negativas ao filme vêm de dois tipos de público: os que esperavam um terror mais tradicional, com sustos constantes e vilões claramente definidos; e os que preferem obras mais ousadas e experimentais, como Hereditário ou O Babadook. O Ritual está em um ponto intermediário, o que pode gerar frustração para quem queria mais sustos ou mais complexidade.

No entanto, para quem entra na sala com abertura para um terror atmosférico, que valoriza o não-dito e aposta em simbolismos, o filme oferece uma experiência instigante. Não é uma revolução no gênero, mas é um passo firme em direção a uma narrativa de horror mais madura e introspectiva.

Um ritual que vale o risco

O Ritual não é o melhor filme de possessão já feito — longe disso. Mas também não é um fracasso, como algumas críticas mais duras sugerem. Ele encontra força em sua ambiguidade, constrói uma atmosfera envolvente e conta com atuações competentes, especialmente entre as personagens femininas.

Seu maior erro está em tentar abraçar estilos que não condizem com sua proposta mais reflexiva. A câmera tremida e alguns clichês visuais atrapalham o ritmo e tiram a força de cenas importantes. Mas o saldo final ainda é positivo.

Se você está em busca de um terror que assusta menos pelo que mostra e mais pelo que sugere, O Ritual pode ser uma boa escolha. Assista com calma, com a mente aberta — e com o coração pronto para duvidar do que vê.

Crítica | Drácula – Uma História de Amor Eterno mostra um monstro sem alma e uma redenção forçada

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Antes de mergulhar na análise do novo Drácula (2025), é impossível ignorar a figura por trás da câmera: Luc Besson. O cineasta francês, que já foi celebrado por títulos como O Quinto Elemento e Nikita, hoje carrega uma sombra pesada. Envolvido em acusações sérias, incluindo agressão sexual, Besson tornou-se uma presença incômoda no cenário cinematográfico internacional. Essa bagagem ética não apenas contamina a percepção de suas obras, mas também lança um holofote desconfortável sobre os significados e intenções por trás de seus novos projetos — especialmente quando se tenta reescrever a trajetória de um monstro.

Deixando essa questão ética como pano de fundo — por mais incômoda que seja — resta analisar o filme em si. E a verdade é que o filme é, sob praticamente todos os aspectos, um desastre cinematográfico. Um equívoco de concepção, execução e propósito, que beira o desrespeito tanto ao legado de Bram Stoker quanto ao público que ainda se interessa por boas histórias de horror gótico.

Desde os primeiros minutos, percebe-se que há algo profundamente desalinhado. A trama, que bem poderia receber o subtítulo “A Redenção”, entrega de imediato sua proposta problemática: transformar o vampiro mais icônico da literatura em uma figura romântica, trágica, quase heróica. Ao tentar humanizar o Príncipe das Trevas, o roteiro esvazia não apenas a mitologia do personagem, mas todo o simbolismo que fez de Drácula um ícone imortal do medo.

Os personagens clássicos — Mina, Jonathan Harker e Van Helsing — são reduzidos a caricaturas desprovidas de alma, motivação ou impacto dramático. Suas presenças em cena não passam de adereços narrativos. Não há vínculos, não há desenvolvimento, não há empatia. São figuras tão descoladas da trama que, em dado momento, torcemos para que desapareçam, tamanha a irrelevância de suas existências.

A ausência de tensão, elemento vital em qualquer adaptação da obra de Stoker, é gritante. O filme se arrasta por um enredo superficial, onde acompanhamos um Drácula melancólico em jornada existencial ao lado de um padre caçador de vampiros — uma premissa que até poderia render algo, se houvesse densidade emocional, camadas simbólicas ou qualquer vestígio de ambiguidade moral. Mas o que se vê é uma sucessão de cenas previsíveis, frias, destituídas de qualquer pulsação narrativa. Não há sedução, não há mistério, não há horror.

A ambientação, que deveria ser um dos trunfos do longa, é outro desastre. Em vez de mergulhar o espectador em um universo opressor e gótico, o filme opta por cenários genéricos e iluminação genérica. Não há identidade visual, não há atmosferas memoráveis. Em alguns momentos, o longa até tenta introduzir elementos de humor, mas o faz de maneira tão fora de tom que o resultado é constrangedor. Rimos, sim — mas nunca pelas razões certas.

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O roteiro também comete o pecado de violar, sem justificativa, as próprias regras do universo vampírico. Elementos fundamentais da mitologia de Stoker são descartados ou modificados conforme a conveniência da cena. A luz do sol, por exemplo, é mortal em um momento, mas inofensiva no seguinte. Essa inconsistência não apenas destrói a suspensão de descrença, como também escancara uma preguiça narrativa que mina qualquer chance de imersão.

Os diálogos são outro ponto fraco. Soam artificiais, sem lirismo, sem a densidade filosófica ou melancólica que se espera de um bom Drácula. Falas genéricas, superficiais, que poderiam estar em qualquer outro filme — e que não revelam nada sobre os personagens ou seus dilemas. Falta peso, falta ritmo, falta alma.

Mas talvez o aspecto mais perturbador do filme seja sua subtexto. É difícil não enxergar na jornada de redenção de Drácula uma tentativa de reescrever, ainda que metaforicamente, a própria imagem do diretor. Ao transformar o monstro em alguém digno de amor, compreensão e perdão, Besson parece buscar para si mesmo uma catarse artística. A obra se torna, assim, um espelho torto onde o monstro e o criador se confundem. E o desconforto vem não da ficção, mas da intenção por trás dela.

Claro, personagens clássicos podem — e devem — ser revisitados sob novas perspectivas. Reinvenções são bem-vindas quando feitas com propósito, inteligência e respeito. Mas o que Besson entrega aqui não é uma releitura. É uma tentativa rasa de suavizar as arestas do horror, de transformar a escuridão em romance barato, de apagar o subtexto gótico em favor de uma fábula emocionalmente manipulativa.

No fim das contas, o longa-metragem falha como adaptação, falha como filme de horror, falha como romance e falha, sobretudo, como cinema. É uma obra sem alma, sem ritmo, sem poesia. Um produto que parece existir apenas como plataforma para intenções questionáveis, e que trata sua audiência com desdém — como se qualquer história fosse suficiente, desde que envolta em figurino de época e discursos sobre amor e redenção.

Ao sair da sessão, a sensação não é apenas de tempo perdido, mas de frustração diante de uma oportunidade desperdiçada. Drácula, mesmo após mais de um século, segue sendo uma das figuras mais complexas da literatura. Reduzir essa complexidade a um melodrama artificial, conduzido por um diretor com pendores narcisistas, é mais do que um erro artístico — é um desserviço ao mito.

Crítica | GOAT é um retrato cru e perspicaz da pressão no esporte de elite

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O título original do filme, Him, carrega uma ambiguidade instigante ao estabelecer uma conexão direta com Deus, funcionando como uma metáfora inteligente para uma narrativa que explora o culto à excelência e a idolatria no esporte contemporâneo. No Brasil, a escolha do título GOAT — acrônimo de Greatest of All Time — reforça a temática esportiva e conecta imediatamente o público ao universo da NFL, onde a expressão já é consagrada para designar os maiores atletas de todos os tempos. Essa adaptação linguística evidencia o cuidado da obra em se comunicar com diferentes públicos sem perder sua essência crítica.

Narrativamente, o filme consegue equilibrar humor, drama e crítica social. A história acompanha a trajetória de jovens quarterbacks que enfrentam pressões quase sobre-humanas, lidando com expectativas da mídia, dos fãs e do próprio sistema esportivo. O roteiro não se limita a glorificar o sucesso, mas aprofunda-se nos bastidores do esporte, abordando lesões que comprometem carreiras, os efeitos devastadores do trauma craniano, o uso de substâncias para aumento de desempenho, além da corrupção e da manipulação nos bastidores das franquias. Dessa forma, GOAT oferece uma reflexão contundente sobre a dualidade entre divinização pública e exploração institucional de atletas, um tema raramente abordado com tanta clareza no cinema esportivo.

O uso de metáforas religiosas é uma das marcas da obra. A associação entre conquista esportiva e fé — comum entre atletas profissionais — é explorada de maneira recorrente, reforçando o caráter quase sacro que o público confere às estrelas da NFL. Embora algumas cenas, como a referência à Última Ceia, possam soar excessivamente literais, a estratégia simbólica contribui para a crítica central do filme: a transformação de atletas em figuras quase divinas enquanto são tratados como produtos dentro de um sistema competitivo e mercantilizado.

No que se refere às performances, o elenco entrega atuações consistentes. Há química convincente entre os protagonistas e momentos de autenticidade que sustentam as tensões dramáticas. Visualmente, o filme apresenta soluções criativas e impactantes, como as sequências em raio-X que mostram o corpo humano em sua fragilidade e mecanicidade, reforçando a ideia de atletas como máquinas de alto desempenho. O estilo do desfecho, com referências tarantinescas, traz ousadia e irreverência, contribuindo para um fechamento que mistura suspense, humor e crítica social. Pequenos deslizes técnicos, como o uso incorreto de equipamentos, são perceptíveis para os fãs mais atentos, mas não comprometem a experiência geral.

Entretanto, nem tudo é impecável. O desenvolvimento de personagens deixa lacunas significativas. A relação entre Cam e seu pai carece de profundidade emocional, reduzindo o impacto de seus conflitos internos. O arco de Isaiah White, outro personagem central, poderia ter sido explorado de maneira mais detalhada, oferecendo camadas adicionais à narrativa e fortalecendo a densidade dramática da obra. Ainda assim, a progressão do roteiro mantém o ritmo e evita que o público se desengaje, o que é um mérito importante em produções que combinam crítica social com entretenimento esportivo.

O filme também se destaca ao capturar a tensão psicológica inerente à carreira de um atleta de elite. A pressão por resultados, o medo constante do fracasso e o peso da mídia são retratados de forma autêntica, proporcionando ao espectador uma compreensão mais profunda do custo pessoal do sucesso no esporte de alto nível. Além disso, a trilha sonora de Jean Dawson contribui para criar uma atmosfera contemporânea e envolvente, reforçando momentos de tensão e celebração, e complementando a narrativa com um tom moderno e urbano.

GOAT encerra sua trajetória com uma mensagem clara e poderosa: a retomada do controle do próprio destino. Após enfrentarem sacrifícios físicos, emocionais e éticos, os atletas protagonistas emergem não apenas como competidores, mas como indivíduos que desafiam um sistema que frequentemente os vê apenas como mercadorias. Esse desfecho confere ao filme um peso simbólico, elevando-o acima do mero retrato esportivo e transformando-o em um comentário social relevante sobre meritocracia, idolatria e humanidade no esporte.

Embora não se configure como uma obra-prima, GOAT é ousado, incisivo e, em muitos momentos, surpreendentemente perspicaz. Consegue unir crítica social, entretenimento e estética visual de maneira coesa, oferecendo uma experiência cinematográfica refrescante dentro do gênero esportivo-dramático. A obra provoca reflexão sobre a natureza da fama, do sucesso e da pressão contemporânea sobre atletas, ao mesmo tempo em que diverte e entretém, mostrando que o cinema esportivo ainda tem espaço para inovação e relevância cultural.

Crítica | Predador: Terras Selvagens reinventa a saga ao colocar o monstro no centro da história

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Três anos atrás, ao revisitar toda a saga Predador antes de assistir ao mais recente filme dirigido por Dan Trachtenberg, percebi o quanto nutria uma afeição genuína pela franquia. Curiosamente, apesar de composta quase inteiramente por produções medianas, há algo de cativante em cada capítulo — seja pela ambientação, pelo gênero ou pelos personagens. A fórmula nunca mudou de forma radical, mas cada obra conseguia renovar o universo de maneira sutil, evitando a sensação de repetição.

Com Predador: Terras Selvagens, Trachtenberg realiza, finalmente, um desvio significativo. O diretor assume o risco ousado de transformar o próprio Yautja — o Predador — no protagonista da história. Essa escolha redefine a essência da franquia, oferecendo não apenas uma nova narrativa, mas também um olhar inédito sobre o que tradicionalmente era visto como o “monstro” da trama.

Transformar o Predador em personagem central exige mais do que destacá-lo em cena: é necessário explorar seu ponto de vista, desenvolver um arco emocional, conferir propósito e trajetória. O resultado técnico é notável. Embora a criatura continue sendo interpretada por um ator em traje físico, a adição de CGI e captura de movimento ao rosto do Yautja cria expressividade e naturalidade inéditas. Mandíbulas que vibram com a respiração, músculos faciais que reagem sutilmente — pela primeira vez, o espectador sente estar diante de uma criatura viva, dotada de sentimentos e conflitos internos. Essa dimensão expressiva é essencial para a eficácia do conceito, e o filme acerta plenamente ao torná-lo tangível.

O prólogo exemplifica essa harmonia entre forma e conteúdo. O tema central — a natureza da caça e a reflexão sobre o código de honra dos Yautjas — é apresentado de maneira clara, enquanto o roteiro, coerente com o princípio de “escrever sempre com base no tema”, conduz a narrativa com firmeza. Desde as primeiras cenas, é possível antever o percurso do protagonista, mas isso não compromete o impacto da história. Ao contrário, a previsibilidade estrutural é equilibrada pela força simbólica e pela consistência dramática. O filme constrói uma base sólida, que guia o espectador do início ao fim sem perder o rumo.

Em diversos momentos, Terras Selvagens flerta com o gênero de sobrevivência, lembrando uma versão sombria de Avatar, em que fauna e flora se tornam antagonistas constantes. Ainda assim, Trachtenberg evita que o espetáculo visual se sobreponha à narrativa. Ele mantém o foco na essência do enredo, questionando o significado de ser um caçador, o valor da empatia e a possibilidade de transformação.

Essa relação entre instinto e consciência forma o núcleo do filme. Os personagens — cada um à sua maneira — desafiam suas funções e descobrem um propósito além do que foram programados para cumprir. Essa construção narrativa não é mero artifício, mas se conecta diretamente à proposta de Trachtenberg de repensar o mito do Predador.

Do ponto de vista técnico, Terras Selvagens é um filme competente e inventivo. As estratégias e armamentos do clímax são engenhosos, coerentes com o tema e repletos de referências sutis ao filme original. Mesmo os momentos de fan service, quando presentes, soam justificados — nada parece gratuito. Trachtenberg demonstra que homenagear não significa repetir, mas evoluir. Cada escolha estética revela cuidado, propósito e paixão.

Contra todas as expectativas, Predador: Terras Selvagens mostra que ainda há espaço para inovação em uma franquia que parecia esgotada. Ao colocar o monstro no centro da história e tratá-lo com humanidade, o filme amplia o universo e a complexidade da saga. É uma obra audaciosa, coerente e surpreendentemente emocionante, que entrega não apenas ação, mas também uma reflexão sobre moral, instinto e transformação.

Crítica – Truque de Mestre: O 3º Ato é um espetáculo de ilusão que não tenta reinventar a mágica, apenas nos diverte com ela

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Os Cavaleiros voltaram — ou quase. Uma década após o primeiro Truque de Mestre conquistar o público com seu equilíbrio entre charme, truques impossíveis e tramas cheias de reviravoltas, a franquia retorna com uma energia renovada, mas consciente de que o verdadeiro segredo nunca foi a complexidade dos truques, e sim o prazer de vê-los acontecer. Truque de Mestre: O 3º Ato aposta em nostalgia e frescor, colocando as antigas e novas gerações de mágicos frente a frente — e o resultado é um espetáculo despretensioso, mas irresistivelmente divertido.

Nesta nova aventura, o mundo dos ilusionistas entra na era digital. O lendário grupo original — liderado por Atlas (Jesse Eisenberg) — é surpreendido ao ver uma nova geração de golpistas tomando seu lugar nas redes sociais. Charlie (Justice Smith), Bosco (Dominic Sessa) e June (Ariana Greenblatt) se autoproclamam os novos Cavaleiros e reproduzem os truques do passado com tanto carisma que o público mal nota a diferença. Essa releitura cheia de filtros e likes desperta o espírito competitivo do grupo original, forçando uma reunião inesperada e repleta de feridas antigas.

O grande antagonista da vez é Veronika Vanderberg (Rosamund Pike), herdeira de uma dinastia de diamantes e especialista em transformar lavagem de dinheiro em arte. Seu plano envolve um diamante em forma de coração, um símbolo de poder, cobiça e vaidade — um MacGuffin tão vistoso que parece saído de um heist clássico dos anos 2000. Naturalmente, os Cavaleiros decidem roubá-lo — não apenas pelo valor, mas pelo prazer de provar que ainda dominam o jogo.

Sob a direção de Ruben Fleischer, conhecido por Venom e Zumbilândia, o filme assume de vez seu caráter de espetáculo. Fleischer filma com ritmo ágil, cortes precisos e um senso de humor que transforma até os absurdos mais improváveis em momentos de pura diversão. A narrativa é construída como um número de mágica: o que importa não é entender o truque, mas se deixar enganar por ele. Quando as reviravoltas surgem, é quase impossível não sorrir — mesmo quando o roteiro desafia qualquer noção de lógica.

O elenco veterano retorna com energia familiar. Jesse Eisenberg continua impecável como Atlas, mesclando arrogância e genialidade com naturalidade irritante. Woody Harrelson rouba cenas com seu sarcasmo e olhar de “já vi de tudo”, equilibrando o tom cômico e cínico que a franquia sempre cultivou. O restante da equipe segue a fórmula: carisma acima de profundidade. É um time que brilha mais quando está junto do que quando tenta brilhar sozinho.

Já os novos integrantes, liderados por Justice Smith, representam o contraste entre gerações. São influenciadores digitais transformados em mágicos, com truques moldados pela estética das redes — rápidos, superficiais e impressionantes. Essa atualização traz fôlego à narrativa, mas também reforça o subtexto irônico do filme: na era dos filtros e das deepfakes, a verdadeira mágica é fazer alguém acreditar em algo real.

O roteiro, por sua vez, não busca surpreender com originalidade. A estrutura segue o padrão da franquia — um golpe dentro de um golpe, revelações que mudam tudo no último ato, e aquele toque de “ah, era isso o tempo todo”. Mas o que poderia soar repetitivo ganha graça pelo ritmo e pela autopercepção. Truque de Mestre: O 3º Ato sabe rir de si mesmo, e isso o torna mais leve, mais honesto e até mais coerente do que muitos blockbusters que se levam a sério demais.

Visualmente, o longa é um deleite. As cenas de ilusionismo são coreografadas como balés visuais, com truques que misturam tecnologia, edição e efeitos práticos de forma fluida. Fleischer entende que o público não quer realismo, quer deslumbramento — e entrega isso com sobras. Mesmo os momentos mais inverossímeis têm estilo o bastante para justificar sua existência.

No campo temático, o filme toca brevemente em discussões sobre autenticidade, legado e relevância — questões que poderiam render um drama mais denso, mas que aqui aparecem apenas como pano de fundo para a diversão. O recado é simples: em um mundo saturado de ilusões digitais, a magia ainda pode ser uma arte genuína.

O primeiro Truque de Mestre (2013) foi um sucesso inesperado justamente por entender essa simplicidade. Entre críticas mornas e elogios ao ritmo, conquistou o público por ser puro entretenimento — um show de escapismo, brilho e ilusão. A sequência tentou expandir o universo, mas perdeu parte do encanto. Agora, o terceiro capítulo encontra o meio-termo perfeito: nem tão sério quanto o segundo, nem tão inocente quanto o primeiro. Apenas divertido, charmoso e consciente de suas próprias limitações.

Em tempos em que franquias buscam justificar cada sequência com drama e peso excessivo, o terceiro filme faz o oposto: assume que seu papel é entreter. E faz isso com a mesma confiança de um mágico que já conhece as reações da plateia. O truque pode ser o mesmo, mas a execução continua impecável.

Crítica – Filho de Mil Homens constrói um mosaico de solidão e identidades em conflito

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A adaptação de O Filho de Mil Homens é um projeto ambicioso que, no entanto, revela irregularidades que comprometem sua força dramatúrgica. O roteiro hesita em assumir plenamente o peso emocional do romance de Valter Hugo Mãe; dispersa energia em desvios, alonga conflitos sem necessidade e, por vezes, sacrifica densidade em troca de contemplação vazia. Ainda assim, o filme encontra potência quando decide encarar de frente aquilo que tem de mais genuíno: as feridas abertas de seus personagens.

A solidão como espinha dorsal do filme

Rodrigo Santoro interpreta Crisóstomo com sobriedade, mas sua performance raramente alcança a complexidade anunciada pela campanha de divulgação. Falta à construção do personagem um mergulho mais visceral em sua angústia, em sua carência quase infantil de pertencer a uma família. Em contraponto, Miguel Martines (Camilo) entrega uma atuação de grande sensibilidade, traduzindo fragilidade sem perder presença. Rebeca Jamir, como Isaura, carrega no corpo as marcas de humilhação, violência e resistência; sua atuação se sobressai justamente por não pedir piedade, mas por expor dignidade ferida. Johnny Massaro compõe Antonino como um espelho doloroso do pavor de existir em um mundo que pune quem escapa da norma — e talvez seja ele quem mais deixa marcas.

Juliana Caldas amplia o espectro emocional do longa. Sua personagem vive uma solidão que não é vazio, mas resultado direto das exclusões sociais e da crueldade que se abatem sobre corpos dissidentes. Ela adiciona uma camada de sensibilidade e verdade que o filme nem sempre consegue sustentar em outras frentes.

A solidão, portanto, não surge como um estado contemplativo, mas como um produto estrutural de abandono, rejeição e traumas que atravessam todos esses personagens.

O desejo de pertencer, mesmo quando dói

O filme ganha fôlego justamente quando aborda o impulso — sempre fraturado — de criar laços. Crisóstomo se agarra ao papel simbólico de pai na tentativa de justificar sua própria existência. Camilo anseia por um afeto que o reconheça para além da carência. Isaura procura um espaço onde sua dignidade não seja continuamente violada. Antonino luta para pertencer primeiro a si mesmo, antes que o mundo o reduza a estereótipos.

O pertencimento, aqui, é sempre inacabado, sempre doloroso. É um gesto de procura que retorna como frustração.

Entre revelar-se e esconder-se

A identidade é tratada como um território instável, moldado por vergonha, desejo, culpa e coragem. O filme encontra grande força nessa tensão: o medo de existir por inteiro se mistura com uma urgência desesperada de ser visto. Essa dualidade, presente em todos os personagens, poderia ser ainda mais explorada, mas funciona como um dos motores mais consistentes da narrativa.

Homofobia, violência sexual e imposições sociais

A obra não se furta a temas contundentes — homofobia, violência sexual, abuso psicológico, intolerância religiosa — que atravessam e moldam as trajetórias dos personagens. Ainda que nem sempre aprofundados como poderiam, esses elementos são apresentados com firmeza suficiente para expor o modo como a sociedade cria e perpetua suas violências. O filme mostra, mais do que discute, como essas marcas se transformam em silêncios e cicatrizes permanentes.

O que permanece?

Permanece a dor, permanece a imagem de personagens que continuam ressoando muito depois do fim da projeção. Permanece também a sensação de que, apesar das irregularidades narrativas e estéticas, o filme captura algo essencial: a tentativa de sobreviver emocionalmente em um mundo onde o afeto é escasso e a hostilidade é regra.

Filho de Mil Homens não atinge todo o alcance que promete, mas, quando acerta, acerta no ponto mais sensível — o lugar onde a vulnerabilidade humana revela sua força mais profunda.

Crítica – Sonho de Trem reafirma a potência cinematográfica da simplicidade poética

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Sonho de Trem surge como uma adaptação de notável maturidade estética, que respeita a densidade literária do conto de Denis Johnson e a converte em uma obra cinematográfica de rara delicadeza. O filme encontra seu vigor na atenção aos detalhes, no ritmo contemplativo e na capacidade de transformar gestos mínimos em acontecimentos carregados de significado. É um cinema que não se apressa e, justamente por isso, alcança profundidade emocional e rigor artístico.

A atuação de Joel Edgerton como Robert Grainier é construída com precisão e sutileza. Ele interpreta um homem ordinário que atravessa tempos extraordinariamente duros, marcado pela força do trabalho, pela solidão das longas distâncias e pelas transformações abruptas da modernização. Edgerton conduz o personagem com intensidade contida, estabelecendo um retrato verossímil de alguém que tenta preservar sua humanidade diante de um mundo cada vez mais impessoal e hostil. Sua performance sustenta o eixo emocional do filme e oferece ao público um protagonista silencioso, mas profundamente expressivo.

A narração que permeia a narrativa cumpre um papel essencial. Longe de ser apenas um recurso adaptativo, ela funciona como elemento estruturante, ampliando a dimensão histórica, social e afetiva da obra. A voz serena do narrador costura passado e presente com precisão, oferecendo ao espectador uma compreensão mais ampla do que está em jogo. Ao estabelecer esse diálogo entre memória individual e memória coletiva, o filme reforça sua ligação com a literatura e alcança um equilíbrio raro entre intimismo e crítica social.

A representação da expansão ferroviária é um dos elementos mais contundentes do filme. Sonho de Trem não ignora a violência inscrita no processo de modernização do início do século XX. A devastação ambiental, o deslocamento de comunidades inteiras e a exploração de trabalhadores imigrantes aparecem com clareza e sobriedade. O longa evidencia como o progresso, muitas vezes celebrado, foi construído às custas de vidas invisibilizadas e territórios feridos. Essa crítica se integra organicamente à narrativa, sem perder o foco humano que permeia toda a história.

No coração da trama, Felicity Jones entrega uma interpretação comovente como Gladys Grainier. Sua presença introduz ao filme uma camada de ternura, estabilidade e profundidade emocional. A relação entre Gladys e Robert é construída com cuidado e realismo, sem artifícios melodramáticos, e traduz de forma precisa o afeto que sobrevive aos desafios de uma vida marcada por ausências, trabalho árduo e incertezas. É nesse vínculo afetivo que a obra encontra sua porção mais luminosa.

A fotografia é um espetáculo à parte. A luz natural domina a composição das cenas, preenchendo-as com textura, poesia e autenticidade. Cada tomada parece buscar o encontro entre a beleza da paisagem e a fragilidade humana que nela habita. Essa abordagem estética reforça o tom contemplativo e eleva o filme a uma experiência visual que permanece na memória do espectador.

Sonho de Trem é, acima de tudo, um estudo sensível da condição humana em tempos de mudança. A obra celebra o poder dos silêncios, a importância das pequenas histórias e a força de quem vive às margens do grande curso da história. Com elegância narrativa, precisão técnica e profundidade emocional, o filme se estabelece como uma das adaptações mais refinadas de sua categoria, capaz de honrar o texto original ao mesmo tempo em que cria sua própria identidade cinematográfica.

Crítica – Família de Aluguel observa afetos terceirizados e a solidão em uma cidade estrangeira

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Família de Aluguel acompanha Phillip, interpretado por Brendan Fraser, um ator americano vivendo em Tóquio que tenta reorganizar a própria trajetória profissional enquanto lida com a frustração de uma vida que não se concretizou como imaginava. Estrangeiro em múltiplos sentidos, ele carrega o peso do deslocamento cultural, do fracasso artístico e de uma solidão que se impõe de forma constante e silenciosa.

Para sobreviver financeiramente, Phillip passa a trabalhar para uma agência especializada em serviços de substituição afetiva. Seu ofício consiste em ocupar lugares simbólicos na vida de desconhecidos. Ele atua como pai de uma menina, finge ser um jornalista interessado na obra de um escritor esquecido pela mídia e assume outros papéis que exigem escuta, empatia e encenação emocional. São vínculos temporários, rigidamente regulados por contratos, horários e pagamentos, nos quais a presença é real, mas a relação tem prazo de validade.

A partir dessa premissa, o filme constrói uma reflexão delicada sobre a solidão contemporânea e a mercantilização dos afetos. Ao transformar cuidado, companhia e atenção em serviço, a narrativa expõe um mundo onde até a intimidade pode ser organizada como produto. A abordagem evita julgamentos diretos e prefere observar os pequenos gestos, os silêncios constrangedores e as tensões que emergem desses encontros provisórios, deixando que o desconforto fale por si.

A solidão retratada não se limita à ausência de companhia física. Ela surge como um estado permanente de observação do outro, de tentativas frustradas de conexão e de vínculos que nascem já condenados à interrupção. Mesmo quando o filme empurra seus personagens para o isolamento, preserva um fio invisível de desejo, memória e necessidade de pertencimento. É nesse espaço ambíguo que a obra encontra sua camada mais melancólica.

Brendan Fraser entrega uma atuação contida e precisa, equilibrando humor sutil e dramaticidade sem recorrer a excessos. Seu Phillip é um homem marcado por expectativas interrompidas e por uma identidade profissional que nunca se consolidou plenamente. Ainda assim, o filme opta por não aprofundar de forma mais incisiva as relações construídas durante os serviços prestados, o que reduz o impacto emocional de situações que se anunciam potentes, mas acabam resolvidas de maneira rápida ou superficial.

Dirigido por Hikari, cineasta reconhecida também por seu trabalho na série Tapa, da Netflix, o longa adota uma mise en scène discreta e contemplativa. Visualmente, constrói se como uma espécie de retrato melancólico de Tóquio, apresentada não apenas como cenário, mas como extensão emocional do protagonista. A cidade surge organizada, silenciosa, pulsante e, ao mesmo tempo, profundamente solitária, refletindo o estado interno de Phillip.

Família de Aluguel é um filme sobre a importância da presença, da memória e dos afetos, mesmo quando mediadas por contratos e performances. Um retrato delicado e triste sobre a tentativa de conexão em um mundo que transforma até o sentir em serviço. Embora nem sempre alcance a profundidade emocional que sua proposta sugere, o longa se sustenta pela sensibilidade do olhar e pela melancolia discreta que atravessa toda a narrativa.

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