Crítica – Supergirl ganha identidade própria e entrega uma das aventuras mais promissoras da nova DC

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Supergirl chega aos cinemas com a difícil missão de apresentar uma nova versão de Kara Zor-El após diferentes interpretações da personagem ao longo dos anos. Sob a direção de Craig Gillespie (Cruella e Eu, Tonya), o longa abandona a tentativa de aproximar a heroína do estilo tradicionalmente associado ao Superman e aposta em uma aventura espacial mais agressiva, emocional e distante da imagem clássica da personagem.

A produção também marca um novo começo para Supergirl após a participação de Sasha Calle em The Flash e o sucesso da série televisiva protagonizada por Melissa Benoist. A responsabilidade de assumir esse legado fica com Milly Alcock (House of the Dragon), que entrega uma Kara Zor-El mais impulsiva, ferida e carregada por conflitos internos.

A história acompanha a heroína durante seu aniversário, enquanto ela tenta conviver com os traumas deixados pelo passado e com o peso de ser uma sobrevivente de Krypton. A situação muda quando sua nave é roubada e Krypto, seu cachorro, é gravemente ferido. A busca por uma cura leva Kara para uma jornada pelo espaço ao lado de Ruthye (Eve Ridley), uma jovem determinada a encontrar Krem, responsável pela morte de sua família.

O filme acerta principalmente quando entende que a força da personagem está justamente em explorar territórios diferentes. Em vez de repetir a fórmula de histórias anteriores da família Superman, Supergirl constrói uma aventura com escala galáctica, trazendo criaturas, mundos e conflitos que ampliam o universo da heroína.

Visualmente, a produção é um dos pontos mais fortes. O design de produção demonstra cuidado na criação dos ambientes e dos personagens, enquanto a combinação entre efeitos práticos e computação gráfica resulta em uma experiência consistente. As cenas de ação têm peso e conseguem transmitir a sensação de uma verdadeira aventura espacial, sem depender apenas do espetáculo visual.

Porém, é justamente nesse aspecto que surge uma das maiores frustrações do longa. A adaptação da HQ Supergirl: Woman of Tomorrow, de Tom King e Bilquis Evely, tinha espaço para uma abordagem visual ainda mais ousada e diferente. O filme apresenta bons momentos no espaço, mas raramente se entrega completamente ao potencial criativo de seus mundos. Faltam cenários mais marcantes e uma identidade visual capaz de transformar cada planeta em uma descoberta.

No papel principal, Milly Alcock é o grande destaque. A atriz entende a complexidade da personagem e cria uma Supergirl muito diferente do Superman apresentado recentemente nos cinemas. Sua Kara não é uma figura idealizada ou sempre confiante; ela carrega raiva, insegurança e uma dificuldade real de lidar com as próprias perdas. Alcock sustenta o filme mesmo quando a narrativa ao redor dela perde força.

A participação de Eve Ridley como Ruthye funciona em alguns momentos, mas a personagem nem sempre acompanha o impacto da protagonista. A relação entre as duas deveria ser um dos pilares emocionais da trama, porém algumas escolhas do roteiro fazem essa dinâmica parecer menos envolvente do que poderia ser.

Quem surpreende positivamente é Jason Momoa, que retorna ao universo da DC em uma nova função após interpretar Aquaman. Como Lobo, o ator abraça completamente o exagero e o humor do personagem. Momoa demonstra uma liberdade que combina com o papel, e suas cenas ao lado de Supergirl estão entre as mais divertidas da produção.

O maior problema está no roteiro. Apesar de apresentar boas ideias, a história não consegue desenvolver todo o potencial de seus conflitos. Krem, o antagonista, é o elo mais fraco da narrativa: falta presença, motivação e uma ameaça capaz de justificar a jornada enfrentada pelos protagonistas. Ele funciona apenas como um obstáculo para movimentar a trama, sem deixar uma marca significativa.

Na direção, Gillespie mostra domínio principalmente nas sequências de ação. O cineasta conduz os momentos de combate com clareza e energia, incluindo uma sequência em plano-sequência que se destaca pela construção e pelo ritmo. A câmera acompanha Kara de maneira dinâmica, valorizando a força da personagem e o desempenho físico de Milly Alcock.

Outro mérito do filme está na forma como ele se distancia de Superman. Embora façam parte do mesmo universo, as duas produções possuem propostas diferentes. Enquanto Clark Kent representa uma visão mais esperançosa e inspiradora do heroísmo, Kara é apresentada a partir de uma perspectiva mais turbulenta e pessoal. Essa variedade de estilos é uma das características mais interessantes da nova fase liderada por James Gunn.

A trama está longe de ser uma produção perfeita, mas encontra um caminho próprio para a personagem. O longa é prejudicado por um roteiro irregular e por um vilão pouco desenvolvido, mas compensa com uma protagonista forte, uma direção segura e uma aventura que finalmente coloca Kara Zor-El no centro da própria história.

Mais do que apresentar uma nova versão da heroína, o filme prova que Supergirl não precisa existir como extensão do Superman. Ela funciona melhor quando assume suas próprias dores, sua própria personalidade e seu próprio espaço dentro do universo da DC.

Crítica | Brick é um thriller psicológico que prende pela tensão, mas tropeça na profundidade

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Foto: Reprodução/ Internet

Imagine acordar e perceber que o mundo sumiu. Não há mais sinal de celular, nem internet, nem vizinhos batendo à porta. Apenas um muro preto de tijolos cercando seu prédio, isolando você de tudo que existia lá fora. Esse é o ponto de partida de Brick, novo longa alemão da Netflix, dirigido por Philip Koch, que mistura suspense, drama conjugal e ficção científica em um experimento claustrofóbico sobre o medo — do outro, do silêncio e de si mesmo.

A trama acompanha Olivia (Ruby O. Fee) e Tim (Matthias Schweighöfer), um casal que já vinha se afastando antes mesmo do confinamento começar. Eles estão no limite do desgaste emocional quando se veem obrigados a permanecer juntos — não por escolha, mas por sobrevivência. Um muro inexplicável ergue-se ao redor do prédio, transformando a rotina cinzenta em uma prisão silenciosa. Lá dentro, a comida começa a faltar, a esperança se dissolve e a relação entre os moradores se deteriora aos poucos, como os mantimentos na despensa.

O que poderia soar como mais um filme de suspense pós-pandêmico se revela, aos poucos, uma metáfora poderosa sobre isolamento e convivência, costurada com tensão crescente e dilemas profundamente humanos. Koch, também roteirista, opta por não oferecer explicações fáceis: não há inimigo visível, governo opressor ou experimento científico para racionalizar o absurdo. O mistério do muro, ao fim, é menos importante do que o que ele revela: o que sobra de nós quando o mundo nos some?

Foto: Reprodução/ Internet

A força do filme está justamente nesse retrato íntimo da vulnerabilidade. Olivia, analítica e resiliente, tenta manter o controle emocional em meio ao caos. Tim, impulsivo e inquieto, oscila entre o instinto de proteção e o desespero. A dinâmica entre os dois é viva, cheia de fraturas antigas e silêncios pesados, o que dá ao filme um toque de realismo emocional que muitas vezes falta em thrillers do gênero.

O elenco de apoio, embora com boa presença, é tratado mais como pano de fundo do que como força narrativa. Há vizinhos que surgem com potencial dramático — o paranoico, a enfermeira, o cético —, mas eles desaparecem antes que possamos conhecê-los de fato. É uma escolha que mantém o foco no casal protagonista, mas que limita a complexidade da comunidade enclausurada. Em um cenário onde a convivência poderia gerar grandes confrontos éticos e morais, o roteiro opta por resoluções mais contidas, quase apressadas.

Visualmente, o filme se destaca. A fotografia acinzentada e o uso de luz natural reforçam o tom opressivo da história, enquanto o próprio prédio — com seus corredores abafados, janelas fechadas e portas trancadas — se transforma em um personagem. A câmera se move com parcimônia, quase como se hesitasse junto aos personagens, criando uma atmosfera densa, sufocante.

Mas talvez o aspecto mais desconcertante de Brick seja o desconforto silencioso que ele provoca. O espectador, assim como os moradores do prédio, é privado de respostas. Por que o muro surgiu? Quem está por trás disso? Vamos sair algum dia? Essas perguntas ficam no ar, sem promessas de resolução. E, curiosamente, isso não soa como uma falha, mas como parte da proposta.

Porque, no fundo, o longa não é sobre o muro. É sobre o que ele revela quando não podemos mais fugir de quem somos. Ele nos obriga a encarar o outro — parceiro, vizinho, estranho — como espelho, e isso, por si só, já é mais aterrorizante do que qualquer invasão alienígena ou conspiração apocalíptica.

Em tempos em que o isolamento deixou de ser ficção, “Brick” ressoa com uma força incômoda e atual. É um filme sobre confinamento, mas também sobre os limites do amor, da empatia e da própria sanidade. Uma obra que, mesmo tropeçando em algumas escolhas narrativas, nos prende pela alma antes de prender pelos olhos.

Resenha – Todo Pirata Quer Uma Colher de Chá é uma aventura caótica e deliciosamente divertida

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Foto: Reprodução/ Almanaque Geek

Nem toda aventura precisa de tesouros ou batalhas épicas — algumas só precisam de um bule de chá e um pouco de caos romântico. Todo Pirata Quer Uma Colher de Chá é uma daquelas histórias que parecem ter nascido de uma conversa entre fãs de Our Flag Means Death e Café & Lendas, que se perguntaram: “E se piratas lésbicas também tivessem direito a uma comédia romântica de respeito?” O resultado é uma fantasia queer vibrante, engraçada e, por vezes, mais emotiva do que parece à primeira vista.

A trama acompanha Kianthe e Reyna, duas mulheres com uma missão aparentemente simples: encontrar ovos de dragão para garantir a paz na cidade de Tawney. Mas, como toda boa jornada literária, o destino decide complicar as coisas. Para conseguir as pistas que precisam, elas acabam envolvidas em uma caça completamente inesperada — atrás de Serina, uma ex-agricultora que virou pirata por pura teimosia (e fome de aventura, claro).

Ao lado delas está Bobbie, guarda leal e amiga de infância de Serina, que talvez ainda carregue um sentimento mal resolvido pela pirata. O trio improvável acaba preso em uma trama que mistura ação, romance e muitas trapalhadas emocionais. Enquanto o grupo tenta cumprir a missão original, o que realmente se desenrola é um naufrágio amoroso em câmera lenta, daqueles que a gente observa torcendo para que o barco (ou o coração) não afunde de vez.

O grande trunfo do livro está no tom espirituoso e afetuoso da narrativa. A autora não se leva tão a sério — e isso é ótimo. Os diálogos são rápidos, cheios de ironia e com aquele humor afiado que transforma até as situações mais absurdas em momentos de pura diversão. Mas, por trás das piadas e da estética “caótica e gay”, há uma história sincera sobre amizade, vulnerabilidade e autodescoberta.

Outro ponto forte é o ritmo cinematográfico. A narrativa flui como uma série de aventuras episódicas, repletas de criaturas mágicas, feitiços e confusões marítimas. É fácil imaginar cada cena em uma adaptação para streaming — entre duelos espirituosos e olhares que valem mais do que mil confissões.

Ainda assim, nem tudo é perfeito. O livro às vezes se perde nas próprias piadas, sacrificando a profundidade emocional em troca de um riso rápido. Algumas subtramas surgem e desaparecem antes de causar impacto, e há momentos em que o enredo parece mais preocupado em ser engraçado do que em desenvolver suas personagens. Mas nada disso impede que a leitura seja envolvente e, acima de tudo, divertida.

No fim, Todo Pirata Quer Uma Colher de Chá é sobre como o amor pode florescer mesmo em alto-mar, entre um saque mal planejado e uma xícara quente. É sobre tropeçar, rir e tentar de novo — porque, no fundo, o que as personagens procuram não é só dragões ou tesouros, mas um pouco de paz e pertencimento.

Com representatividade natural, carisma de sobra e um humor que desarma, o livro se destaca entre as fantasias românticas atuais por lembrar que o romance também pode ser bagunçado, leve e imperfeito — e ainda assim, profundamente humano.

Resenha – Sob o Céu dos Andes transforma uma história de família em um suspense marcado por violência e interesses ocultos

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É fácil encontrar thrillers que colocam o crime organizado no centro da história. O difícil é encontrar um que saia dos lugares mais conhecidos. Sob o Céu dos Andes faz justamente isso. Em vez das grandes cidades ou das rotas tradicionais do tráfico, a trama se passa na província de Loja, na fronteira entre Peru e Equador, onde antigos conflitos armados, mineração e narcotráfico acabam dividindo o mesmo espaço.

Nadine chega à região para rever a família, mas o reencontro toma outro rumo quando ela percebe que as pessoas mais próximas escondem muito mais do que simples desentendimentos. Aos poucos, a protagonista deixa de ser apenas alguém que observa os acontecimentos e passa a fazer parte deles. É uma mudança que acontece de forma natural na maior parte do livro, porque cada descoberta abre espaço para outra ainda mais delicada.

O aspecto mais interessante da obra está na forma como ela conecta interesses que, à primeira vista, parecem distantes. A exploração das minas, a presença de mercenários contratados por uma empresa estrangeira e a influência do narcotráfico não aparecem como histórias separadas. Tudo faz parte da mesma engrenagem, e o livro mostra como quem vive naquela região acaba sendo afetado por decisões tomadas muito longe dali.

Nem tudo funciona com a mesma força. O romance envolvendo Nadine, o jornalista espanhol e Sean ocupa um espaço que poderia ser usado para aprofundar personagens e conflitos familiares. Em alguns momentos, a impressão é de que a história perde um pouco da tensão construída anteriormente para dar atenção a relações que não despertam o mesmo interesse. O suspense cresce quando o foco permanece nos segredos da família e na disputa pelo território, não quando a trama tenta transformar esses encontros em um dilema amoroso.

Nadine também convence mais pelos momentos em que demonstra insegurança do que quando assume uma postura decisiva de uma hora para outra. Algumas escolhas importantes acontecem rápido demais e mereciam um desenvolvimento mais cuidadoso. Ainda assim, ela permanece uma personagem fácil de acompanhar justamente porque reage aos acontecimentos como alguém que foi surpreendida por uma realidade completamente diferente daquela que imaginava encontrar.

Outro ponto positivo é a ambientação. O autor não trata a fronteira apenas como pano de fundo. A região influencia o comportamento dos personagens, determina alianças e ajuda a explicar por que tanta violência consegue permanecer escondida durante tanto tempo. Essa relação entre espaço e narrativa dá identidade ao livro e faz diferença ao longo da leitura.

Sob o Céu dos Andes talvez não aproveite todo o potencial dos personagens que apresenta, mas acerta ao construir um conflito que vai além da ação. O livro fala sobre famílias marcadas pelo silêncio, comunidades presas entre interesses muito maiores do que elas e pessoas obrigadas a decidir até onde estão dispostas a ir para continuar vivas. Quando termina, fica menos a lembrança dos confrontos e mais a sensação de que ninguém atravessa aquela fronteira sem carregar alguma consequência.

Crítica: Looney Tunes: O Filme é um retorno à essência da animação clássica, com humor afiado e alma nostálgica

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Em meio a uma enxurrada de animações genéricas e altamente digitalizadas, Looney Tunes: O Filme – O Dia em que a Terra Explodiu surge como um verdadeiro sopro de frescor. A produção acerta em cheio ao resgatar o espírito original da turma mais insana dos desenhos animados, apostando no traço clássico 2D, no humor físico e nas gags irresistíveis que tornaram os personagens eternos.

A dupla Gaguinho e Patolino continua sendo o coração cômico da história. A química entre os dois é atemporal: enquanto um é a calma desajeitada, o outro é o caos com penas — e juntos, garantem risadas do começo ao fim. É uma dinâmica que funciona há décadas e, felizmente, segue intacta aqui, com timing cômico preciso e piadas que agradam tanto os nostálgicos quanto uma nova geração de espectadores.

O enredo é simples, direto e deliciosamente divertido. Mesmo para quem nunca acompanhou os episódios clássicos, o filme se mostra acessível e envolvente. Há espaço até para um musical inesperado e hilário, que surge no meio da trama como uma grata surpresa — mostrando que, sim, Looney Tunes ainda sabe brincar com gêneros e linguagens sem perder a identidade.

Outro ponto positivo é a fidelidade ao estilo tradicional de animação. Nada de efeitos 3D exagerados ou misturas com live-action que tentam, muitas vezes sem sucesso, modernizar o que já era perfeito em sua simplicidade. A escolha por manter a estética clássica faz toda a diferença e mostra respeito ao legado da série, ao mesmo tempo em que entrega uma obra atual e vibrante.

O clímax traz um inesperado plot twist que, embora não reinvente a roda, adiciona um charme extra à narrativa. É o toque final que mostra como a produção se preocupa em entregar algo redondo e memorável.

Looney Tunes: O Dia em que a Terra Explodiu é, acima de tudo, uma celebração da boa animação. Com personagens carismáticos, humor na medida certa e uma boa dose de nostalgia, o filme conquista com leveza e personalidade. Vale — e muito — a pena assistir.

Crítica – Eternidade é um filme que emociona, mas não escapa de escolhas seguras

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“Eternidade”, novo longa dirigido por David Freyne, parte de uma premissa naturalmente comovente: após 65 anos de casamento, Larry e Joan morrem com poucos dias de diferença e se reencontram em um mundo intermediário. Ali, cada alma tem uma semana para escolher onde passará o resto da eternidade. O reencontro, que deveria apontar para um desfecho reconfortante, torna-se inesperadamente complexo quando o primeiro marido de Joan, morto na guerra, ressurge após esperar por ela durante 67 anos. Esse triângulo amoroso inusitado funciona como motor da narrativa e, ao mesmo tempo, expõe as virtudes e limitações de um filme que é sensível, porém familiar.

Freyne aposta em um universo futurista esteticamente bem resolvido, com elementos visuais que ajudam a construir um limbo coerente e intrigante. Há, de fato, cuidado na criação desse pós-vida, que funciona como cenário e como metáfora para as zonas cinzentas das relações humanas. Ainda assim, apesar da ambientação elaborada, a obra prefere seguir caminhos bastante seguros no que diz respeito à estrutura dramática.

O roteiro apresenta sutilezas interessantes, sobretudo quando se recusa a transformar qualquer um dos pretendentes de Joan em antagonista. É um gesto louvável dentro de um gênero acostumado a simplificações, e que aqui ganha uma leitura mais madura. No entanto, essa mesma delicadeza narrativa também impede o filme de explorar com mais ousadia o peso dessa escolha. A jornada emocional da protagonista é consistente, mas raramente surpreendente.

O humor, aplicado em doses moderadas, flerta com o sombrio e contribui para equilibrar o tom melancólico. Funciona bem quando surge de forma natural, mas nem sempre encontra o ritmo ideal para sustentar o impacto emocional que o filme deseja alcançar. Em certos momentos, a comédia surge como respiro; em outros, como uma tentativa de suavizar conflitos que poderiam ter sido tratados com mais profundidade.

Ainda assim, é inegável que o longa provoca questionamentos relevantes. A ideia de um pós-vida burocratizado, onde decisões definitivas são tomadas em poucos dias, abre espaço para reflexões sobre luto, memória e responsabilidade afetiva. O público inevitavelmente se coloca no lugar de Joan: seria possível escolher uma eternidade sabendo que pessoas queridas ainda permanecem vivas? A dúvida é real e incômoda, e o filme ganha força justamente quando explora essa ambiguidade.

O trio central sustenta boa parte dessa autenticidade emocional. Elizabeth Olsen entrega uma protagonista sensível, construída a partir de pequenos gestos, ainda que confinada em um arco previsível. Miles Teller e Callum Turner, por sua vez, compõem figuras empáticas sem recorrer à caricatura, tornando o triângulo amoroso genuíno o suficiente para manter o espectador comprometido. O elenco de apoio funciona dentro do que é proposto, dando textura ao universo do pós-vida sem nunca roubar a cena.

No conjunto, “Eternidade” é um filme eficaz, capaz de emocionar e de carregar o espectador até o fim. Entretanto, essa eficiência também denuncia certa falta de ambição. A obra se contenta em ser delicada quando poderia arriscar mais; prefere o seguro quando teria espaço para tensionar as estruturas tradicionais da comédia romântica. Não reinventa o gênero, tampouco pretende fazê-lo, mas encontra conforto em uma fórmula que equilibra sensibilidade e previsibilidade.

Crítica | Perrengue Fashion combina humor, propósito e temas contemporâneos

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Perrengue Fashion é um daqueles filmes que abraçam a leveza sem abrir mão de uma mensagem relevante. Dirigido com ritmo ágil e olhar pop, o longa estrelado por Ingrid Guimarães e Rafa Chalub aposta na mistura certeira entre humor, crítica social e empatia, entregando uma comédia que dialoga com os dilemas contemporâneos da influência digital, do consumo consciente e da busca por reconexão familiar.

Logo de início, o filme mostra que não é apenas sobre o universo da moda — é sobre o que existe por trás dele. A narrativa acompanha uma mãe influenciadora, interpretada por Ingrid Guimarães em mais uma atuação cheia de timing cômico e carisma, que vive mergulhada em compromissos, likes e parcerias publicitárias. Quando o filho (Rafa Chalub) decide se desconectar e embarcar em uma jornada de autoconhecimento voltada à natureza e à sustentabilidade, o contraste entre os dois mundos se torna o coração da história. A frase que define a essência do filme — “a mãe tá on… e o filho off!” — sintetiza com humor e afeto o conflito entre gerações, estilos de vida e prioridades.

Elenco carismático e química irresistível

Um dos maiores trunfos de Perrengue Fashion está na sintonia entre Ingrid Guimarães e Rafa Chalub. A dupla funciona de forma orgânica, equilibrando espontaneidade, improviso e emoção. Ingrid reafirma seu domínio sobre o gênero da comédia popular, mas também deixa espaço para camadas mais sutis — há momentos em que sua personagem expõe vulnerabilidade e solidão, humanizando uma figura muitas vezes idealizada pelas redes sociais. Chalub, por sua vez, surge como uma revelação promissora: sua presença leve e natural dá frescor ao filme, equilibrando a intensidade da mãe com uma calma introspectiva.

O restante do elenco colabora com uma energia afinada. Os coadjuvantes entram com ritmo preciso, contribuindo para as situações cômicas sem sobrecarregar a trama. Essa harmonia ajuda o espectador a mergulhar em um universo que, embora caricatural em alguns momentos, mantém um pé na realidade dos “perrengues” cotidianos.

Moda, consumo e propósito

O roteiro se destaca ao ir além da simples sátira do mundo fashion. Ele mergulha em temas urgentes, como o impacto ambiental da indústria da moda, o consumo desenfreado e a superficialidade das redes. Mas o faz de maneira leve, quase pedagógica, sem se tornar panfletário. É um equilíbrio delicado: o humor nunca anula a crítica, e a crítica nunca sufoca a diversão.

Há cenas particularmente inspiradas que ilustram bem essa dualidade — como os momentos em que a protagonista tenta manter a pose de influenciadora enquanto enfrenta situações inusitadas fora de sua zona de conforto, em um cenário mais natural e despojado. São nessas que o filme brilha: as risadas nascem da desconexão entre a imagem ideal e a vida real, um território no qual Ingrid Guimarães transita com maestria desde De Pernas pro Ar e Fala Sério, Mãe!.

Humor que flui com naturalidade

O humor de Perrengue Fashion é eficiente e bem calibrado. As piadas funcionam não apenas por causa do texto, mas pela entrega dos atores e pelo timing da direção. Não há pressa em fazer rir — o riso surge de situações cotidianas, de pequenos constrangimentos e de contrastes geracionais. Em alguns trechos, o filme flerta com o exagero, mas rapidamente retoma o tom leve e acessível que o público espera.

Diferente de comédias que se apoiam em bordões ou humor físico excessivo, aqui o riso vem do comportamento — do jeito como os personagens lidam com o mundo e consigo mesmos. Essa escolha dá ao filme um charme particular e uma identidade que o diferencia de outros produtos do gênero.

Esteticamente, o longa é um deleite. A fotografia colorida e o figurino exuberante contrastam com os tons mais crus da natureza, reforçando a dualidade entre o artificial e o autêntico. A direção de arte brinca com os símbolos do universo fashion — passarelas, eventos, filtros e ring lights — enquanto os contrapõe a cenas simples e verdadeiras, criando uma experiência visual que acompanha a transformação dos personagens.

A trilha sonora, repleta de batidas modernas e canções brasileiras contemporâneas, reforça o ritmo leve e jovial da narrativa. Ela traduz a energia de um filme que fala sobre reencontro e desconexão digital sem jamais perder o senso de humor.

Por trás das risadas, o filme propõe uma reflexão sobre o valor da presença — estar realmente disponível para quem se ama, desconectar-se das aparências e reconectar-se com o que é essencial. O filme convida o público a rir de si mesmo, a reconhecer exageros e a pensar sobre o que realmente importa na era das curtidas.

É uma comédia que acerta por não se levar a sério demais, mas também por não subestimar a inteligência emocional de seu público. Há empatia na maneira como a narrativa trata os erros e aprendizados de seus personagens. Tudo é feito com leveza, mas também com propósito.

Crítica – Leandro Hassum repete a fórmula, mas garante boas risadas em Uma Advogada Brilhante

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Foto: Reprodução/ Internet

As comédias nacionais vêm enfrentando dificuldades para impressionar o público, muitas vezes por conta de piadas sem graça, tramas previsíveis ou temas já desgastados. Uma Advogada Brilhante foge um pouco desse padrão ao trazer uma narrativa dinâmica e um humor que, mesmo sem grandes inovações, mantém o espectador entretido do início ao fim.

A trama acompanha Mike (Leandro Hassum), cujo nome de batismo, Michelle, gera desconforto por soar feminino. Após sua esposa processá-lo para exigir a pensão alimentícia do filho, ele passa por uma reviravolta ainda maior: é demitido do trabalho, que decide priorizar a contratação de mulheres. Sem outra alternativa, Mike assume um disfarce feminino para continuar empregado, desencadeando uma série de situações cômicas e reflexões sobre identidade e desigualdade no ambiente corporativo.

O grande atrativo do filme está no carisma de Leandro Hassum, nome consolidado na comédia nacional. No entanto, sua performance não apresenta nada de inovador, apostando nos trejeitos e na energia já conhecidos de seus trabalhos anteriores. Isso pode ser um ponto positivo para os fãs do humorista, mas pode também dar a sensação de um produto reciclado para quem busca algo novo.

O roteiro, por outro lado, consegue tornar a experiência menos cansativa, estabelecendo a história rapidamente e sem enrolação. Em apenas 10 minutos, o filme já apresenta toda a premissa, evitando um desenvolvimento lento e garantindo um ritmo ágil. Ainda assim, alguns pontos da trama carecem de profundidade, deixando certas situações um pouco vazias e sem o impacto que poderiam ter.

Apesar de sua proposta principal ser o entretenimento, Uma Advogada Brilhante também toca em temas relevantes, como assédio no ambiente de trabalho e a questão da pensão alimentícia, oferecendo um olhar cômico sobre problemas reais enfrentados na sociedade.

No fim, a produção pode não se destacar no cenário das comédias nacionais, mas entrega exatamente o que promete: diversão leve e algumas boas risadas. Para quem aprecia o estilo de Leandro Hassum, é uma escolha certeira.

Resenha – Kali é um grito de vingança acelerado até a exaustão

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Desde a primeira página, fica claro que Daniel Freedman e Robert Sammelin não estão interessados em introduções delicadas ou construções graduais: aqui, a narrativa começa no impacto e só desacelera quando já é tarde demais. Esfaqueada, envenenada e descartada pela própria gangue de motociclistas, Kali não inicia uma jornada de redenção ou aprendizado — ela entra em modo de sobrevivência absoluta. O mundo ao redor pode estar em ruínas, mas a verdadeira devastação já aconteceu dentro dela.

O cenário é um deserto pós-apocalíptico que parece existir apenas para reforçar a brutalidade da experiência. Não há nostalgia, não há esperança de reconstrução, não há promessas de futuro. Tudo em Kali é presente imediato: o agora da dor, o agora da perseguição, o agora da vingança. A influência de Mad Max é evidente, mas o quadrinho não tenta disfarçar isso — pelo contrário, abraça o excesso como identidade. Explosões, perseguições, corpos em colisão e motores rugindo formam uma sinfonia caótica que sustenta praticamente toda a narrativa.

Kali, como protagonista, é menos uma pessoa no sentido tradicional e mais uma força em movimento. Ela fala pouco, sente pouco (ou, ao menos, não demonstra) e age o tempo todo. Seu corpo ferido — envenenado, sangrando, quebrado — se torna parte essencial da história, quase um cronômetro narrativo: cada página reforça a ideia de que o tempo está acabando. A morte não é uma possibilidade distante, mas uma presença constante, correndo junto com ela na estrada. Essa escolha torna a leitura visceral, mas também impõe limites claros à profundidade emocional da personagem.

O quadrinho não se preocupa em explicar motivações com longos diálogos ou flashbacks extensos. A traição da gangue é apresentada como fato consumado, e a vingança surge não como escolha moral, mas como instinto. Isso dá à obra uma honestidade brutal: não há justificativas, apenas consequências. Kali não quer redenção, justiça ou compreensão — ela quer sobreviver tempo suficiente para causar dano. E, nesse sentido, o roteiro é coerente do início ao fim.

Visualmente, Kali é um ataque sensorial. O traço de Robert Sammelin é agressivo, sujo e deliberadamente exagerado. Os enquadramentos transmitem velocidade e descontrole, enquanto as expressões faciais e os corpos em movimento reforçam a ideia de um mundo onde tudo é extremo. Não há beleza tradicional no desenho, mas há energia — muita energia. Cada página parece vibrar, como se estivesse prestes a sair do papel. É um estilo que pode cansar leitores mais sensíveis à repetição visual, mas que funciona perfeitamente dentro da proposta da obra.

Por outro lado, essa aposta constante no impacto também revela a principal fragilidade do quadrinho. Kali raramente permite pausas. Não há silêncio narrativo, não há momentos de reflexão prolongada, não há espaço para que o leitor respire. Em determinados pontos, a sucessão ininterrupta de ação começa a perder força justamente por nunca variar de tom. O excesso, que inicialmente empolga, pode se tornar saturante. A sensação é a de assistir a uma perseguição interminável — eletrizante, sim, mas emocionalmente plana.

Outro ponto que merece atenção é a construção do mundo. Embora o cenário apocalíptico seja visualmente forte, ele permanece genérico em muitos aspectos. Sabemos que há uma guerra, que há facções, que a violência é regra, mas pouco se explora sobre como esse mundo funciona além da estrada. Isso não chega a comprometer a narrativa, mas reforça a impressão de que o universo existe apenas para servir à ação, não para ser compreendido.

Ainda assim, seria injusto cobrar de Kali algo que ele claramente não se propõe a oferecer. Este não é um quadrinho sobre complexidade psicológica, reconstrução social ou dilemas filosóficos profundos. É uma obra sobre fúria, movimento e resistência corporal. Kali sobrevive não porque acredita em algo maior, mas porque se recusa a cair. E há algo de poderoso nessa recusa silenciosa, quase animalesca.

No fim, Kali se destaca como uma experiência intensa, direta e sem concessões. Não é uma leitura confortável, nem pretende ser. É um quadrinho que entende sua própria natureza e vai até o limite dela, mesmo correndo o risco de se desgastar no processo. Para leitores que buscam ação pura, estética agressiva e um ritmo que não pede licença, a obra entrega exatamente o que pro

Crítica – Five Nights at Freddy’s 2 é um avanço divertido, nostálgico e limitado por suas próprias escolhas

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“Quero ver o que tem dentro da sua cabeça.” A frase ecoa no escuro e sintetiza bem o espírito de Five Nights at Freddy’s 2, um filme que busca acessar o imaginário de quem cresceu com a franquia, explorando memórias, sustos e aquela combinação inconfundível de pânico e fascínio que marcou milhões de jogadores. Dentro dessa proposta, o longa dirigido por Emma Tammi dá um passo mais seguro em relação ao filme anterior. Não é mais ousado, mas é mais consciente do material que tem em mãos.

O grande mérito desta continuação é sua habilidade de transformar referências em atmosfera. A produção não insere apenas easter eggs; ela recria sensações. Os sons metálicos dos animatrônicos, os movimentos bruscos, as luzes defeituosas e os enquadramentos que remetem diretamente às câmeras do jogo ajudam a construir um ambiente que parece genuinamente pertencente ao universo de FNAF. Para quem considera o segundo jogo o ponto alto da franquia, existe uma nostalgia palpável. Cada detalhe visual e sonoro parece projetado para provocar aquele frio familiar na espinha, como se a infância – ou adolescência – retornasse por alguns instantes.

Ainda assim, o filme permanece preso a uma limitação importante. Five Nights at Freddy’s sempre foi conhecido pela combinação de tensão psicológica com violência explícita. Aqui, novamente, o gore é evitado de forma evidente. Cenas que deveriam atingir um impacto mais duro são interrompidas antes do auge, e a estética permanece cuidadosamente controlada para não ultrapassar uma classificação indicativa acessível ao público mais jovem. Essa escolha, embora compreensível do ponto de vista comercial, reduz parte do potencial do terror. Falta peso ao que deveria ser aterrorizante.

Apesar disso, FNAF 2 apresenta avanços narrativos em relação ao primeiro filme. O roteiro é mais coeso, a mitologia é desenvolvida com maior clareza e há mais atenção à lógica interna da história. O percurso dramático ainda é previsível, mas funciona melhor justamente porque a obra abandona qualquer timidez e assume sua vocação de fan service. Em vez de tentar agradar a todos, o filme se concentra em agradar quem realmente importa: o fã que conhece os jogos, acompanha teorias e aguarda há anos para ver determinadas cenas ganharem vida.

Essa honestidade acaba sendo um dos pontos altos. Five Nights at Freddy’s 2 não tenta reinventar o terror. Não pretende ser mais profundo do que realmente é. Sua intenção é divertir, provocar sustos moderados e alimentar o entusiasmo da base de fãs. Para quem nunca teve contato com os jogos, o longa pode soar como um terror adolescente convencional, com criaturas bizarras e enredo por vezes confuso. Para quem jogou, porém, é como revisitar um espaço temido, mas curiosamente acolhedor.

O elenco também funciona melhor nesta continuação, beneficiado por um roteiro que permite mais tensão e interação entre os personagens. Os animatrônicos continuam sendo o grande chamariz visual da franquia e, aqui, parecem ainda mais presentes, expressivos e ameaçadores.