Resenha – Kali é um grito de vingança acelerado até a exaustão

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Desde a primeira página, fica claro que Daniel Freedman e Robert Sammelin não estão interessados em introduções delicadas ou construções graduais: aqui, a narrativa começa no impacto e só desacelera quando já é tarde demais. Esfaqueada, envenenada e descartada pela própria gangue de motociclistas, Kali não inicia uma jornada de redenção ou aprendizado — ela entra em modo de sobrevivência absoluta. O mundo ao redor pode estar em ruínas, mas a verdadeira devastação já aconteceu dentro dela.

O cenário é um deserto pós-apocalíptico que parece existir apenas para reforçar a brutalidade da experiência. Não há nostalgia, não há esperança de reconstrução, não há promessas de futuro. Tudo em Kali é presente imediato: o agora da dor, o agora da perseguição, o agora da vingança. A influência de Mad Max é evidente, mas o quadrinho não tenta disfarçar isso — pelo contrário, abraça o excesso como identidade. Explosões, perseguições, corpos em colisão e motores rugindo formam uma sinfonia caótica que sustenta praticamente toda a narrativa.

Kali, como protagonista, é menos uma pessoa no sentido tradicional e mais uma força em movimento. Ela fala pouco, sente pouco (ou, ao menos, não demonstra) e age o tempo todo. Seu corpo ferido — envenenado, sangrando, quebrado — se torna parte essencial da história, quase um cronômetro narrativo: cada página reforça a ideia de que o tempo está acabando. A morte não é uma possibilidade distante, mas uma presença constante, correndo junto com ela na estrada. Essa escolha torna a leitura visceral, mas também impõe limites claros à profundidade emocional da personagem.

O quadrinho não se preocupa em explicar motivações com longos diálogos ou flashbacks extensos. A traição da gangue é apresentada como fato consumado, e a vingança surge não como escolha moral, mas como instinto. Isso dá à obra uma honestidade brutal: não há justificativas, apenas consequências. Kali não quer redenção, justiça ou compreensão — ela quer sobreviver tempo suficiente para causar dano. E, nesse sentido, o roteiro é coerente do início ao fim.

Visualmente, Kali é um ataque sensorial. O traço de Robert Sammelin é agressivo, sujo e deliberadamente exagerado. Os enquadramentos transmitem velocidade e descontrole, enquanto as expressões faciais e os corpos em movimento reforçam a ideia de um mundo onde tudo é extremo. Não há beleza tradicional no desenho, mas há energia — muita energia. Cada página parece vibrar, como se estivesse prestes a sair do papel. É um estilo que pode cansar leitores mais sensíveis à repetição visual, mas que funciona perfeitamente dentro da proposta da obra.

Por outro lado, essa aposta constante no impacto também revela a principal fragilidade do quadrinho. Kali raramente permite pausas. Não há silêncio narrativo, não há momentos de reflexão prolongada, não há espaço para que o leitor respire. Em determinados pontos, a sucessão ininterrupta de ação começa a perder força justamente por nunca variar de tom. O excesso, que inicialmente empolga, pode se tornar saturante. A sensação é a de assistir a uma perseguição interminável — eletrizante, sim, mas emocionalmente plana.

Outro ponto que merece atenção é a construção do mundo. Embora o cenário apocalíptico seja visualmente forte, ele permanece genérico em muitos aspectos. Sabemos que há uma guerra, que há facções, que a violência é regra, mas pouco se explora sobre como esse mundo funciona além da estrada. Isso não chega a comprometer a narrativa, mas reforça a impressão de que o universo existe apenas para servir à ação, não para ser compreendido.

Ainda assim, seria injusto cobrar de Kali algo que ele claramente não se propõe a oferecer. Este não é um quadrinho sobre complexidade psicológica, reconstrução social ou dilemas filosóficos profundos. É uma obra sobre fúria, movimento e resistência corporal. Kali sobrevive não porque acredita em algo maior, mas porque se recusa a cair. E há algo de poderoso nessa recusa silenciosa, quase animalesca.

No fim, Kali se destaca como uma experiência intensa, direta e sem concessões. Não é uma leitura confortável, nem pretende ser. É um quadrinho que entende sua própria natureza e vai até o limite dela, mesmo correndo o risco de se desgastar no processo. Para leitores que buscam ação pura, estética agressiva e um ritmo que não pede licença, a obra entrega exatamente o que pro

Crítica – O Morro dos Ventos Uivantes é uma adaptação visualmente deslumbrante que sacrifica profundidade em nome da intensidade

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Emerald Fennell é, sem dúvida, uma cineasta de imagens fortes. Desde sua estreia na direção, com Promising Young Woman, ficou evidente sua habilidade em criar composições visualmente marcantes, embaladas por uma estética cuidadosamente construída. No entanto, sua trajetória até aqui também revelou uma dificuldade recorrente: transformar impacto visual em narrativa consistente. Se em Bela Vingança o discurso se sobrepunha à complexidade dramática, e em Saltburn a provocação parecia engolir a própria história, em O Morro dos Ventos Uivantes a diretora encontra, finalmente, um terreno mais sólido para exercer seu estilo.

A escolha de adaptar o romance gótico de Emily Brontë, publicado em 1847, representa uma virada estratégica. Ao se apoiar em um material literário consagrado, Fennell se livra da obrigação de criar uma trama original que sustente seu universo estético. Aqui, ela parte de uma história que já carrega densidade emocional, conflitos intensos e personagens moralmente ambíguos. Ainda assim, sua proposta não é de fidelidade absoluta. A diretora assume que o filme não pretende ser uma adaptação tradicional, mas sim uma recriação das sensações que o livro lhe provocou na adolescência.

Essa abordagem tem consequências claras. Fennell opta por ignorar a segunda metade do romance, concentrando-se exclusivamente na relação entre Catherine Earnshaw e Heathcliff. Ao fazer isso, transforma a narrativa em um estudo quase obsessivo sobre desejo, ressentimento e autodestruição. A saga geracional, que no livro amplia o alcance temático da obra, dá lugar a um romance trágico mais direto e visceral.

Visualmente, o filme é arrebatador. As charnecas de Yorkshire surgem como paisagens quase míticas, envoltas em uma atmosfera teatral que beira o onírico. A propriedade dos Earnshaw não é apenas cenário, mas extensão emocional dos personagens. A fotografia privilegia contrastes intensos, enquadramentos amplos e uma iluminação que reforça o clima sombrio e apaixonado. Fennell sabe como transformar espaço em símbolo, e nisso sua direção é segura.

O elenco também contribui para a força dramática da produção. Margot Robbie interpreta Catherine na fase adulta com energia explosiva e certo egoísmo inquietante. Sua Catherine é falante, impulsiva e profundamente contraditória, o que a distancia de representações mais romantizadas da personagem. Jacob Elordi, como Heathcliff adulto, investe na introspecção e na contenção. Seu olhar carrega a dor e a obsessão de alguém que nunca se sentiu pertencente. A química entre os dois funciona, especialmente nos momentos em que o amor se mistura a ressentimento.

Entretanto, os problemas recorrentes da diretora ainda aparecem. Fennell demonstra tendência a introduzir temas de grande peso simbólico sem desenvolvê-los plenamente. A associação inicial entre sexo e morte, por exemplo, surge de forma impactante, mas não se aprofunda ao longo da narrativa. O mesmo ocorre com as questões de classe e pertencimento social, que permanecem como pano de fundo, quando poderiam ter sido exploradas com maior complexidade.

Há também uma inclinação ao exagero que, embora encontre justificativa no tom gótico da obra, por vezes ameaça a sutileza dramática. O Sr. Earnshaw, interpretado por Martin Clunes, é quase uma caricatura do patriarca tirânico. Algumas cenas parecem deliberadamente teatrais, como se o filme oscilasse entre o drama histórico e uma releitura estilizada contemporânea. Para alguns espectadores, essa escolha pode soar como excesso; para outros, será justamente o diferencial da produção.

Ao reduzir a história ao romance central, o filme ganha intensidade emocional, mas perde camadas. A dimensão cíclica da violência e do ressentimento, tão marcante no livro, é atenuada. O foco absoluto na paixão entre Catherine e Heathcliff transforma o enredo em uma narrativa sobre amor impossível e obsessão destrutiva, deixando de lado parte da crítica social e do estudo psicológico mais amplo presente na obra original.

Ainda assim, é inegável que o filme tem potencial comercial significativo. A combinação de um clássico literário, um elenco estrelado e uma estética visual impactante deve atrair tanto admiradores da obra quanto novos espectadores. Para quem não conhece o romance de Brontë, a experiência pode ser profundamente emocional e até arrebatadora. A história é conduzida de forma a provocar identificação e lágrimas, especialmente ao enfatizar o amor trágico como força inevitável e devastadora.

No fim, O Morro dos Ventos Uivantes de Emerald Fennell é um filme de sensações intensas. Não é uma adaptação definitiva nem a leitura mais fiel do clássico, mas sim uma interpretação autoral marcada por excessos, beleza e paixão. A diretora parece mais confortável quando dialoga com um texto já consolidado, e isso se reflete em uma obra mais coesa do que seus trabalhos anteriores, ainda que não totalmente equilibrada.

Entre a grandiosidade estética e a profundidade emocional, o filme caminha em uma linha tênue. Pode dividir opiniões, mas dificilmente passará despercebido. É um romance gótico embalado pelo olhar contemporâneo de uma cineasta que ainda busca amadurecer como contadora de histórias, mas que, ao menos aqui, demonstra estar mais próxima de encontrar esse equilíbrio.

Resenha – Break Room expõe as tensões invisíveis da convivência corporativa em um thriller psicológico inquietante

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E se o maior pesadelo corporativo virasse entretenimento? Em Break Room, a autora best-seller Miye Lee parte de uma premissa provocadora — e quase cômica — para construir um thriller psicológico afiado, desconfortável e surpreendentemente atual. O que começa como uma sátira sobre colegas de trabalho irritantes evolui para uma crítica mordaz à cultura do julgamento, à lógica dos reality shows e à fragilidade das relações profissionais.

A proposta é simples e brilhante: oito pessoas são convidadas para participar de um novo reality show na Coreia do Sul. A promessa? Fama, exposição midiática e um prêmio em dinheiro. A revelação, porém, transforma entusiasmo em constrangimento: todos foram indicados anonimamente pelos próprios colegas como as pessoas mais insuportáveis da copa do escritório. Aquele espaço banal do cotidiano corporativo — onde se disputa micro-ondas, café e paciência — torna-se o centro de uma experiência social extrema.

Miye Lee demonstra habilidade ao transformar algo aparentemente trivial em campo de batalha psicológico. A copa do escritório, símbolo de convivência forçada e pequenas tensões diárias, vira metáfora do ambiente de trabalho contemporâneo: competitivo, silenciosamente hostil e permeado por ressentimentos que raramente são verbalizados. A autora compreende que o desconforto social, quando exposto à vigilância constante das câmeras, se intensifica até beirar o colapso.

O grande trunfo da narrativa surge com a segunda reviravolta: entre os participantes há um impostor, infiltrado pela produção. Para vencer, é preciso identificá-lo antes que o tempo acabe. A dinâmica adiciona uma camada de paranoia ao confinamento. Ninguém confia em ninguém — e, pior, ninguém confia em si mesmo. Afinal, se todos foram escolhidos por serem “insuportáveis”, até que ponto a percepção externa molda a identidade?

A escrita de Miye Lee é ágil, visual e estrategicamente claustrofóbica. Os diálogos são carregados de ironia e tensão, e a construção dos personagens evita caricaturas fáceis. Cada participante carrega inseguranças, traços irritantes e vulnerabilidades que os tornam humanos — e perigosamente reconhecíveis. O leitor inevitavelmente se pergunta: “Eu seria indicado?”. Essa identificação desconfortável é parte essencial da experiência.

Mais do que um simples jogo de desconfiança, Break Room funciona como crítica social. A autora aponta para uma sociedade que transforma constrangimento em audiência e conflito em espetáculo. O reality show dentro do livro espelha programas reais que exploram rivalidades e fragilidades emocionais como combustível de entretenimento. A humilhação deixa de ser consequência e passa a ser produto.

Há também uma reflexão pertinente sobre cultura corporativa. Ambientes que incentivam competitividade extrema e cordialidade superficial frequentemente abafam conflitos genuínos. Em vez de diálogo, acumulam-se pequenas irritações que, no contexto do programa, explodem. A escolha do cenário — a Coreia do Sul, conhecida tanto por sua intensa cultura de trabalho quanto por sua indústria de entretenimento robusta — reforça essa dualidade entre disciplina social e espetáculo midiático.

Se há um ponto que pode dividir leitores, é o ritmo. A tensão psicológica cresce de forma gradual, priorizando o desconforto emocional em vez de grandes reviravoltas explosivas. Para alguns, isso pode parecer contido; para outros, é exatamente o que torna a narrativa mais realista e perturbadora. O suspense não depende apenas da descoberta do impostor, mas da deterioração das relações.

No fim, Break Room não é apenas sobre descobrir quem é o infiltrado — é sobre revelar o que cada participante esconde sob a máscara profissional. O verdadeiro jogo não está na identificação do impostor, mas na exposição das pequenas crueldades cotidianas que praticamos e sofremos no ambiente de trabalho.

Crítica – “Alerta Apocalipse” transforma o medo invisível em espetáculo de tensão e paranoia

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Alerta Apocalipse parte de uma premissa conhecida — um vírus perigoso encoberto pelas autoridades —, mas consegue transformar essa base em uma experiência tensa, inquietante e, em alguns momentos, genuinamente perturbadora. O filme entende que o verdadeiro terror não está apenas na criatura ou na doença em si, mas no silêncio institucional que tenta varrer o problema para debaixo do tapete.

Logo nos primeiros minutos, somos apresentados à descoberta do vírus e à decisão estratégica de forças policiais, cientistas e militares de esconder o caso para evitar o caos social. A justificativa é “proteger a população”, mas o que vemos é uma sucessão de decisões baseadas no medo da repercussão, não no compromisso com a verdade. Esse início é eficiente porque não apela para o susto fácil. Ele constrói um clima de conspiração, quase burocrático, que torna tudo mais real.

Anos depois, a antiga base militar vira apenas um galpão esquecido. A escolha narrativa de avançar no tempo é inteligente, pois cria a falsa sensação de que o perigo ficou no passado. É nesse cenário que jovens funcionários começam a notar ruídos estranhos, áreas isoladas e estruturas escondidas sob a fachada comum do prédio. A curiosidade deles funciona como o gatilho da tragédia.

A descoberta da sala contaminada é uma das sequências mais impactantes do longa. O ambiente transmite abandono, mas também algo pulsante, quase vivo. Animais infectados se mutilando diante da câmera reforçam o horror físico e psicológico. É nesse ponto que o filme deixa claro que não estamos diante de um vírus comum. A infecção não transforma apenas — ela distorce, leva ao limite e culmina em algo ainda mais macabro.

O grande diferencial da narrativa está justamente na forma como o vírus se espalha. Em vez da tradicional mordida zumbi, a contaminação ocorre por explosão do hospedeiro. Humanos e animais infectados se detonam, lançando fragmentos contaminados que atingem novas vítimas. A cena do gato infectado é especialmente simbólica: frágil, ferido, aparentemente inofensivo, ele se transforma em um vetor ambulante de destruição. Ao subir em uma antena e explodir, o filme entrega uma imagem chocante e original, que marca o espectador.

É nesse caos crescente que entram os protagonistas. Travis Meacham, vivido por Joe Keery, representa o olhar inquieto e questionador diante do absurdo. Ao seu lado está Robert Quinn, interpretado por Liam Neeson, cuja presença traz peso dramático e autoridade moral à trama. Já Naomi Williams, papel de Georgina Campbell, equilibra emoção e racionalidade, funcionando como a ponte entre impulso e estratégia.

A dinâmica entre os três eleva o filme a outro nível. Quando percebem que o Exército jamais admitirá o erro ou permitirá uma ação oficial, eles decidem agir por conta própria. A ideia de implodir o local com uma bomba subterrânea adiciona urgência à narrativa. Não se trata apenas de destruir um prédio, mas de eliminar um erro histórico antes que ele se torne irreversível.

A sequência final é carregada de tensão. Cada passo no plano parece poder dar errado. O espectador sente que o vírus, invisível e imprevisível, pode escapar a qualquer momento. Quando a explosão finalmente acontece, há um misto de alívio e dúvida. Eles sobrevivem, quase ilesos, mas o silêncio que vem depois não transmite vitória absoluta — transmite incerteza.

A decisão de expor as provas à mídia acrescenta uma camada política poderosa. O filme deixa claro que o maior erro não foi apenas criar ou armazenar o vírus, mas escolher escondê-lo. A crítica à manipulação institucional ecoa de forma atual e incômoda.

E então vem a última cena. Um detalhe quase discreto: um animal aparentemente infectado. Não há explicações, apenas sugestão. O vírus pode ter sobrevivido. Pode estar à espreita. Pode já estar se espalhando novamente.

Crítica – Acompanhante Perfeita é uma fusão instigante de humor, brutalidade e reflexões existenciais

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O longa Acompanhante Perfeita surpreende ao equilibrar habilmente esboços cômicos com momentos de violência brutal e discussões existenciais provocadoras. No cerne da narrativa, está a reflexão sobre a fronteira cada vez mais tênue entre humanos e robôs: será que as máquinas são realmente capazes de sentir emoções genuínas? E, em última instância, o que define a essência humana em contraste com algoritmos sofisticados?

A direção de Drew Hancock se destaca ao criar um ambiente narrativo que ora diverte, ora inquieta. O humor surge de forma precisa, quebrando a tensão em momentos oportunos, sem comprometer a seriedade das discussões propostas. O elenco entrega performances marcantes: Harvey Guillén traz leveza ao papel de Eli, um personagem vibrante e imprevisível, enquanto Jack Quaid interpreta Josh com uma combinação de ingenuidade e egoísmo que rende cenas memoráveis. A química cômica entre os dois adiciona uma dinâmica envolvente ao filme.

Sophie Thatcher, consolidada como um talento em ascensão nos gêneros de terror e ficção científica, oferece uma atuação visceral e cheia de nuances. Sua personagem enigmática se torna um dos pilares emocionais da trama. Jack Quaid, por sua vez, diverte ao ser deliciosamente detestável, enquanto Harvey Guillén conquista com uma atuação cativante. Rupert Friend merece destaque especial: sua encarnação de um soviético peculiar, cuja senha de cofre é a data de nascimento de Stalin, é uma sacada cômica inteligente que reflete o tom irreverente da produção.

Embora a clássica dicotomia entre homem e máquina possa parecer um tema saturado, Hancock reinventa a discussão com uma abordagem criativa. Sua narrativa presta homenagem a clássicos do gênero sem se tornar derivativa, trazendo frescor ao apresentar questões filosóficas relevantes em um mundo dominado pela inteligência artificial.

Acompanhante Perfeita marca uma estreia promissora para Hancock como diretor, demonstrando uma visão clara e segura. Mais do que um entretenimento leve, o filme provoca reflexões profundas e desafiadoras sobre o significado da humanidade em uma era tecnológica. Com uma execução inteligente e atuações cativantes, a obra se posiciona como uma experiência cinematográfica imperdível.

Crítica – Pequenas Coisas Como Estas é um drama intenso sobre segredos, moralidade e justiça

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Foto: Reprodução/ Internet

Às vésperas do Natal, Bill, um homem de vida aparentemente comum, faz uma descoberta inquietante em um convento próximo ao seu trabalho. O segredo que vem à tona desperta nele um profundo senso de justiça, forçando-o a enfrentar uma realidade silenciada por anos. Conforme se aprofunda na verdade oculta, Bill se vê diante de dilemas morais que desafiam suas crenças e o levam a uma jornada de coragem e autoconhecimento.

O longa Pequenas Coisas Como Estas se destaca pela forma sensível com que transmite as emoções dos personagens, criando uma atmosfera densa e introspectiva. No entanto, a narrativa apresenta um ritmo desigual. O roteiro, embora bem estruturado, inicia-se de maneira arrastada, exigindo paciência do espectador até que o mistério central ganhe força. A segunda metade do filme intensifica a tensão, mas algumas subtramas acabam subaproveitadas, deixando a sensação de que certos aspectos poderiam ter sido melhor explorados.

O elenco é um dos pontos altos da produção, com Cillian Murphy entregando uma atuação impecável. Seu protagonista exibe com profundidade os dilemas internos de um homem dividido entre a omissão e a necessidade de agir. Além disso, o filme insere uma crítica social sutil, porém impactante, ao abordar temas como abuso de poder e moralidade institucionalizada.

Apesar de algumas falhas na execução, “Pequenas Coisas Como Estas” se firma como um drama reflexivo e emocionalmente poderoso. Com questionamentos relevantes sobre ética e a busca pela verdade, o longa provoca no espectador uma inquietação persistente, mostrando que, muitas vezes, são as pequenas coisas que carregam os maiores significados.

Crítica – Presença é um drama de terror emocionante com uma reviravolta surpreendente

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Presença se apresenta inicialmente como uma obra do gênero “horror”, mas logo se afasta desse rótulo de maneira surpreendente. A trama, que se desenrola sob a perspectiva de um fantasma, acaba se revelando um drama familiar profundo, explorando emoções e dilemas pessoais, o que pode deixar o espectador confuso, especialmente aqueles que entram na sala de cinema esperando uma experiência de terror tradicional.

A proposta, ao que parece, poderia despertar curiosidade, mas os primeiros minutos falham em capturar a atenção do público. Em vez de mergulharem em uma narrativa tensa e envolvente, os espectadores se veem apenas curiosos, aguardando algo mais que os prendesse de fato à história. A expectativa é mantida pela promessa de uma reviravolta — uma reviravolta que, de fato, acontece nos minutos finais, fazendo com que o filme escape da superficialidade e ganhe um impulso inesperado.

E que reviravolta! O clímax final do longa-metragem é inesperadamente impactante, especialmente a cena conclusiva, que é repleta de tensão e emoção, provocando arrepios nos mais atentos. Essa reviravolta faz com que a proposta inicial, que parecia falha, encontre uma redenção momentânea, oferecendo uma experiência marcante ao público.

No entanto, ao refletir sobre a experiência como um todo, fica claro que a proposta original, vendida como um filme de horror, acabou gerando expectativas equivocadas. Se Presença fosse rotulado de maneira mais honesta como um “suspense dramático”, talvez os cinéfilos que buscavam momentos de genuíno terror tivessem uma experiência menos frustrante e mais satisfatória.

Em suma, a ideia central do filme tem grande potencial, mas sua execução não é capaz de cumprir totalmente o que foi prometido ao público. A reviravolta final, apesar de não salvar completamente o filme, certamente o torna memorável, ao deixar uma impressão duradoura nos espectadores.

Crítica – Jurassic World: Recomeço é um espetáculo visual que honra a franquia

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Foto: Reprodução/ Internet

Quando a franquia Jurassic Park estreou nos anos 90, ela redefiniu o conceito de espetáculo cinematográfico. Trinta anos depois, Jurassic World: Recomeço tenta equilibrar respeito ao passado com ambições de um novo começo. E embora não revolucione a fórmula, entrega uma produção visualmente deslumbrante, com momentos de pura adrenalina.

Dirigido por Gareth Edwards (Godzilla, Rogue One), o filme impressiona desde os primeiros minutos com sua escala grandiosa e direção segura. O cineasta tem um olhar aguçado para criar tensão e impacto visual, e sabe exatamente como construir a sensação de que o ser humano voltou a ser minúsculo diante das forças da natureza.

🧬 Scarlett Johansson lidera com força e sutileza

Scarlett Johansson estreia com brilho na franquia como Zora, uma cientista marcada por decisões do passado. A atriz traz intensidade emocional e presença magnética, conseguindo transmitir complexidade mesmo quando o roteiro não aprofunda tanto suas motivações. Sua atuação é um dos grandes destaques e confere credibilidade a uma trama que poderia facilmente escorregar para o exagero.

O elenco de apoio também se sai bem, com boas performances e química em cena. Embora falte espaço para desenvolvimentos mais robustos, todos entregam o necessário para manter a história em movimento — com empatia, leveza e ritmo.

🦕 Dinossauros imponentes, ação na medida certa

Se há uma promessa que Recomeço cumpre com louvor, é a de oferecer um verdadeiro show de criaturas pré-históricas. Os efeitos visuais são excepcionais, e as sequências de ação têm energia e coreografia bem resolvidas. Há dinossauros novos, mutações intrigantes e até um toque de terror em certos momentos. O design sonoro e a trilha também ajudam a construir a atmosfera de aventura com tensão constante.

Mais do que sustos e perseguições, o filme também acerta ao apresentar uma ambientação que mistura o tecnológico e o selvagem, refletindo o caos gerado por décadas de manipulação genética. Essa fusão entre passado e futuro é um dos temas que Recomeço aborda com mais consistência.

🔄 Um recomeço cauteloso, mas promissor

Apesar do título ambicioso, o roteiro ainda se prende a estruturas familiares. Elementos como a corporação vilanesca, a criatura que escapa do controle e o embate final grandioso já são conhecidos do público. Mas, diferentemente dos últimos filmes da trilogia World, aqui há mais equilíbrio entre nostalgia e avanço. O filme não tenta apagar o passado, mas dialoga com ele — e isso já representa um progresso.

Há, sim, espaço para mais ousadia em filmes futuros, principalmente em termos temáticos e dramáticos. Mas Recomeço serve como uma ponte bem construída entre o que foi e o que pode vir. Ele planta sementes para uma nova fase — mais sombria, mais reflexiva e, quem sabe, mais surpreendente.

🎬 Uma aventura digna, com alma blockbuster e coração clássico

Jurassic World: Recomeço talvez não seja o capítulo mais inovador da saga, mas é um dos mais bem executados da era moderna. Com visual arrebatador, ritmo eficiente e uma protagonista forte, o longa cumpre seu papel de entretenimento com qualidade.

É o tipo de filme que vale ser visto na tela grande — não apenas pelos dinossauros, mas pelo esforço sincero de entregar algo relevante dentro de uma franquia marcada por altos e baixos. Um recomeço que pode, com os ajustes certos, levar a um novo auge.

Crítica | Ao Seu Lado é um romance que fala mais de solidão do que de amor

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Dirigido por Matt Carter, Ao Seu Lado é um filme que começa com a promessa de algo diferente no cinema LGBTQIA+: um olhar sobre afetos masculinos no ambiente esportivo, longe dos estereótipos clássicos. A ambientação num clube de rúgbi gay, os South London Stags, já sinaliza que o longa deseja mostrar um recorte mais autêntico e menos idealizado das relações entre homens gays. No entanto, apesar de alguns acertos estéticos e dramáticos, o filme tropeça na própria hesitação em ir mais fundo nos sentimentos que tenta retratar.

O enredo acompanha o envolvimento secreto entre dois jogadores do time, Mark (Alexander Lincoln) e Warren (Alexander King), ambos em relacionamentos comprometidos — e, em algum nível, estagnados. O desejo entre eles nasce rápido, quase impulsivo, e se sustenta ao longo do filme por encontros furtivos, olhares cúmplices e silêncios incômodos. Mas Ao Seu Lado não é sobre paixão arrebatadora. É sobre carência. Sobre duas pessoas tentando se agarrar uma à outra para escapar da própria solidão.

Nesse ponto, o filme é honesto, mas também frustrante. O romance nunca ganha a força necessária para nos fazer torcer por ele de verdade. E talvez esse seja justamente o maior acerto e também o maior problema da obra: Carter não quer contar uma história de amor idealizado. Ele quer expor as contradições de um relacionamento construído na sombra, nas ausências, na falta de coragem. Só que o roteiro parece preso em uma indecisão constante — entre o drama íntimo e o romance tóxico — e essa hesitação transparece em cenas longas demais, diálogos repetitivos e uma certa apatia emocional que contamina a narrativa.

A construção visual do filme é cuidadosa, a fotografia é elegante e a trilha sonora discreta, o que reforça o tom mais contemplativo. Mas o ritmo lento cobra seu preço. Em alguns momentos, o longa parece girar em círculos, insistindo em dilemas que não avançam e em personagens que evitam qualquer real transformação. Falta conflito interno mais elaborado, falta coragem narrativa. Quando o clímax chega, já estamos emocionalmente distantes.

Ainda assim, Ao Seu Lado tem seu valor. Ele retrata a fragilidade dos vínculos humanos com sensibilidade. Mostra que, mesmo dentro de um espaço seguro e acolhedor como um time gay, ainda carregamos nossos medos, vícios emocionais e a tendência a repetir velhos erros. O filme fala sobre infidelidade, sim, mas mais do que isso, fala sobre a dificuldade de sermos inteiros diante do outro — e de nós mesmos.

Crítica | Eu Sei O Que Vocês Fizeram no Verão Passado (2025) renova o clássico com suspense e emoção

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Mais de 25 anos após o lançamento do clássico que definiu o slasher para uma geração inteira, Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado retorna em 2025 com um novo olhar, novas vítimas e a mesma sombra aterrorizante do passado. A produção dirigida por Jennifer Kaytin Robinson — conhecida por sua abordagem sensível e moderna sobre juventude e culpa — não é apenas uma releitura do original, mas uma extensão sombria e emocional da mitologia que se iniciou em 1997.

Com roteiro de Leah McKendrick, baseado no romance homônimo de Lois Duncan, o filme traz um elenco jovem liderado por Madelyn Cline, Chase Sui Wonders e Jonah Hauer-King, que vivem cinco amigos marcados por um segredo mortal. A nova versão mescla tensão psicológica, violência gráfica e uma forte carga emocional, que explora não só o trauma coletivo, mas também a herança de uma cidade ainda marcada pelo chamado Massacre de Southport — evento ocorrido na linha do tempo do filme original.

A nova trama: fantasmas do passado em corpos jovens

Logo nos primeiros minutos, o filme estabelece a atmosfera densa e moralmente ambígua que vai permear toda a narrativa. Em uma noite aparentemente comum de verão, cinco amigos celebram o fim do ensino médio. A embriaguez, a euforia e uma série de escolhas impulsivas culminam em um trágico acidente: um pedestre é atropelado e morre na hora. O grupo, tomado pelo pânico, decide esconder o corpo e jurar segredo.

O que parecia um pacto entre amigos se transforma em um pesadelo meses depois, quando todos passam a receber mensagens ameaçadoras: “Eu sei o que vocês fizeram.” O que começa como uma brincadeira mórbida vira terror absoluto quando um misterioso assassino com um gancho começa a persegui-los. Cada membro do grupo é confrontado não apenas com a morte iminente, mas com a culpa que os consome desde aquela noite. No entanto, à medida que investigam os ataques, descobrem que não são os primeiros a viver esse inferno: o passado do massacre de 1997 ainda ecoa.

Em uma virada engenhosa, o roteiro conecta os novos protagonistas aos sobreviventes originais do primeiro filme. Eles buscam a ajuda dos únicos que enfrentaram e sobreviveram ao maníaco há mais de duas décadas. O que parecia apenas um reboot se transforma em um capítulo adicional e sombrio de uma saga sobre culpa, arrependimento e vingança.

Direção afiada e tensão contínua

Jennifer Kaytin Robinson, que já havia demonstrado domínio sobre dilemas juvenis em Alguém Avisa? e Do Revenge, aqui se mostra à vontade no campo do terror, trazendo profundidade emocional sem sacrificar o suspense. Ela entende que o verdadeiro horror não está apenas no monstro com gancho — mas no que somos capazes de fazer uns com os outros para sobreviver ou esconder nossas falhas.

A cineasta também acerta ao utilizar um ritmo cadenciado que equilibra sustos brutais com momentos mais introspectivos. A violência é gráfica, mas nunca gratuita. Ela serve como extensão da dor interna dos personagens, um reflexo físico da culpa que carregam.

A fotografia é escura e opressiva, com uso frequente de névoa e sombras para esconder (e, por vezes, revelar) os perigos que se aproximam. Southport, a cidade fictícia que retorna como cenário, é mostrada como um lugar corroído por tragédias antigas, onde o tempo não apaga os pecados — apenas os esconde melhor.

O elenco: juventude à beira do abismo

Madelyn Cline, conhecida por Outer Banks, entrega uma performance tensa e cativante como a jovem líder do grupo, Emma. Sua personagem oscila entre o desespero e a tentativa de controle, encarnando uma figura que tenta manter todos unidos enquanto o medo os fragmenta. Já Chase Sui Wonders e Jonah Hauer-King interpretam, respectivamente, a melhor amiga de Emma e seu ex-namorado — ambos com segredos próprios que aumentam a tensão interna.

O filme também se destaca ao trazer de volta — em participações especiais e significativas — personagens ligados ao longa original. Embora a produção tenha mantido em sigilo a identidade dos veteranos que retornam, o impacto da conexão é profundo, reforçando que o mal em Southport não tem prazo de validade.

Temas profundos: culpa, juventude e o preço do silêncio

Mais do que um simples filme de terror, Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado (2025) é um estudo sobre juventude, responsabilidade e as consequências dos atos impensados. Ele reflete sobre o pacto do silêncio, frequentemente feito por medo ou vergonha, e como isso afeta toda uma comunidade.

Há uma discussão sutil sobre redes sociais, cancelamento e a nova forma de punição pública na era digital — algo impensável na época do filme original. O assassino, neste contexto, não é apenas um justiceiro mascarado: ele é a encarnação da vergonha e da verdade que sempre vem à tona, mesmo após anos de negação.

Além disso, a obra propõe uma reflexão sobre o trauma geracional. Ao revisitar os sobreviventes de 1997, o roteiro aponta para um ciclo de violência e omissão que se repete, mostrando que lidar com o passado é o único caminho para evitar novas tragédias.

Um novo fôlego para o horror teen

Enquanto muitos reboots se contentam em reciclar fórmulas, Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado (2025) surpreende ao não temer caminhar por novas rotas, mesmo que arriscadas. A produção aposta em um tom mais sombrio, psicológico e maduro, abraçando o slasher com mais consistência e menos dependência de sustos fáceis.

Ao introduzir uma mitologia própria — com pistas de que há algo maior, quase sobrenatural, por trás dos eventos de Southport — o filme abre caminho para possíveis continuações ou até uma minissérie. Em tempos em que o horror teen parecia esgotado, esta produção mostra que ainda há espaço para histórias bem contadas, com emoção e crítica social.

Um dos grandes filmes de terror do ano

Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado (2025) cumpre a difícil missão de reviver um clássico cult e, ao mesmo tempo, se estabelecer como uma obra relevante, independente e emocionalmente forte. É uma história de culpa e redenção, de erros que não podem ser apagados e de como o medo — quando nutrido em silêncio — pode virar um monstro real.

Para os fãs do original, é um retorno ao lar (assustador, mas necessário). Para os novos espectadores, é um convite ao pesadelo moderno, onde o horror não está apenas no escuro — mas no espelho.

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