Crítica – Frankenstein, de Guillermo Del Toro é um filme que transforma dor e beleza em um espetáculo gótico inesquecível

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Guillermo Del Toro sempre caminhou na fronteira entre fantasia e dor, entre o belo e o grotesco. Em sua releitura de Frankenstein, esse território híbrido não é apenas cenário; é alma. Desde os primeiros fotogramas, o diretor deixa claro que não pretende apenas revisitar Mary Shelley, mas reinterpretar suas provocações mais profundas com o olhar de um cineasta que compreende a monstruosidade como metáfora da solidão humana.

O filme se abre com uma força visual avassaladora. É Del Toro em seu estado mais puro: meticuloso, artesanal e apaixonado por cada textura. Os salões iluminados por chamas vacilantes, o laboratório úmido e claustrofóbico, a extensão gelada do Ártico que parece engolir a humanidade, tudo compõe um quadro que ultrapassa a mera direção de arte. Cada ambiente funciona como um espelho psicológico, refletindo a deterioração emocional dos personagens. Não é estética pela estética; é narrativa construída a partir da atmosfera.

O que torna Frankenstein de Del Toro mais potente do que uma simples homenagem é sua decisão de humanizar não apenas a Criatura, mas também Victor Frankenstein. Oscar Isaac entrega uma atuação precisa e modulada, que recusa a visão tradicional do cientista como vilão absoluto. Aqui, Victor é ambicioso, mas também vulnerável, aflito e incapaz de lidar com o próprio fracasso moral. Sua arrogância científica não nasce da maldade, e sim da ilusão de que pode controlar a vida sem enfrentar suas implicações. Essa humanidade falha o arrasta para a ruína, e ao vê-lo se desmontar emocionalmente diante daquilo que criou, o espectador testemunha um dos grandes acertos da adaptação: a compreensão de que o verdadeiro horror não está na Criatura, e sim na recusa do criador em assumir o que trouxe ao mundo.

Jacob Elordi reinventa a Criatura como um ser que oscila entre força e fragilidade. Seu corpo imenso contrasta com uma doçura inesperada, reforçando a ideia de que sua monstruosidade é produto da rejeição e não de sua essência. Há momentos em que ele parece quase infantil em sua curiosidade, cenas que Del Toro filma com uma ternura silenciosa e que servem como respiradouros emocionais entre os grandes conflitos. Essa sensibilidade torna a tragédia ainda mais dolorosa: a Criatura se torna monstruosa porque é privada daquilo que qualquer ser precisa para viver, como afeto, acolhimento e pertencimento.

A participação de Mia Goth adiciona sutileza à narrativa. Sua personagem oferece um contraponto à rejeição que persegue a Criatura e suas cenas em conjunto estão entre as mais delicadas do filme. Elas revelam a capacidade de Del Toro de encontrar poesia nos espaços onde o horror costuma dominar. Não são apenas momentos de conexão; são fagulhas de humanidade que contrastam com a violência do mundo ao redor.

Narrativamente, o filme é denso, introspectivo e, por vezes, deliberadamente lento. Del Toro não tem pressa de chegar às grandes revelações. Prefere construir tensões por meio de silêncios, olhares e gestos, deixando que a relação entre criador e criação se torne um espelho rachado. Esse ritmo contemplativo pode não agradar quem espera algo mais explosivo, mas para o público disposto a entrar na cadência emocional proposta, a experiência é imersiva e devastadora.

No desfecho, Frankenstein se consolida como uma tragédia operística sobre culpa e abandono. Del Toro resgata o espírito da obra de Shelley, não o terror superficial, mas o coração filosófico que questiona até que ponto o ser humano está preparado para lidar com aquilo que deseja dominar. A Criatura busca um lugar no mundo; Victor busca escapar da responsabilidade. Dessa colisão entre carência e negação nasce uma destruição inevitável.

É um filme sobre criação, mas também sobre a morte simbólica de quem não sabe amar o que traz à vida. Um conto sobre monstros que surgem, sobretudo, da incapacidade humana de cuidar.

A estética impecável, as atuações poderosas e a profundidade emocional fazem desta versão de Frankenstein uma das interpretações mais ricas e sensíveis dos últimos anos. Não é apenas um espetáculo visual; é um lamento trágico que continua ecoando muito depois que a tela escurece.

Crítica – Bugonia é um delírio brutal sobre um mundo que transforma pessoas em funções

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Bugonia (2024), remake do cult coreano Save the Green Planet! (2003), alcança um equilíbrio raro entre terror psicológico, sátira social, humor corrosivo e drama profundamente humano. A premissa é aparentemente absurda: dois homens sequestram uma mulher por acreditarem que ela é uma alienígena disfarçada e pronta para destruir o planeta. Mas a força do filme não está no delírio conspiratório em si — e sim na forma como ele revela, camada por camada, os mecanismos de um sistema que reduz pessoas a funções, utilidades ou obstáculos. No limite, Bugonia expõe um mundo que não enlouquece apenas os indivíduos, mas também os molda, os sufoca e os descarta.

Sob o comando de Yorgos Lanthimos, tudo ganha textura de desconforto. O diretor escolhe o estranhamento como linguagem, apostando em enquadramentos que comprimem, luzes que intimidam e uma estética que vibra entre o grotesco e o cômico. Emma Stone entrega uma performance visceral, alternando vulnerabilidade, humor nervoso, pavor e uma fisicalidade quase animal. Há uma potência particular em observar a atriz navegar entre o terror e a ironia, revelando aos poucos a complexidade emocional por trás da personagem.

Jesse Plemons, por sua vez, oferece uma de suas interpretações mais intensas. Seu personagem é movido não apenas por teorias conspiratórias, mas por uma dor crua — decorrente do modo como foi triturado por um sistema que transforma vidas em índices, funções e mercadorias. O fanatismo que o domina nasce de uma fratura emocional que o filme nunca trata com simplismo: ele é simultaneamente vítima e agente de uma violência que ultrapassa o âmbito pessoal.

A principal força de Bugonia reside na crítica às engrenagens do capitalismo contemporâneo, com destaque para o poder descomunal das indústrias farmacêuticas. Elas moldam sintomas, discursos e percepções, transformando a saúde em produto e o sofrimento em estratégia de mercado. Lanthimos articula essa crítica com brutalidade estética: golpes, gritos, delírios, manipulação midiática, tudo embalado em um clima claustrofóbico que denuncia como a violência se infiltra nas microestruturas do cotidiano. Em um mundo onde vidas valem pelo que produzem, a crueldade é sistematizada, naturalizada e, muitas vezes, invisibilizada.

A simbologia das abelhas funciona como eixo metafórico poderoso. Pequenos organismos responsáveis por sustentar ecossistemas inteiros são submetidos à mesma lógica utilitarista que recai sobre seres humanos — valem enquanto servem. Lanthimos usa essa metáfora para ampliar sua crítica: o colapso não é repentino; ele é acumulado, silencioso, gradual. O desaparecimento das abelhas ecoa o desaparecimento de indivíduos engolidos por estruturas que não reconhecem singularidades.

Um final provocador e inquietante por outros motivos

Bugonia mantém seu impacto até os momentos finais, mas sua conclusão deixa espaço para leituras ambíguas — e, de certa forma, problemáticas. Assim como Batem à Porta (M. Night Shyamalan), o filme corre o risco de reforçar as mesmas lógicas que critica, ao sugerir que tudo pode ser reduzido a missões, propósitos ou narrativas utilitárias. O desfecho, embora provocador, suaviza o golpe que o filme vinha construindo e perde a oportunidade de apertar ainda mais o cerco sobre os sistemas que desumanizam.

Ainda assim, o conjunto permanece impressionante. Bugonia é um filme que fere, provoca, ri do absurdo e expõe o horror do funcionalismo extremo que estrutura nossas vidas. O terror que ele apresenta não é extraterrestre — é profundamente humano e, pior, profundamente cotidiano.

Crítica – Eternidade é um filme que emociona, mas não escapa de escolhas seguras

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Eternidade”, novo longa dirigido por David Freyne, parte de uma premissa naturalmente comovente: após 65 anos de casamento, Larry e Joan morrem com poucos dias de diferença e se reencontram em um mundo intermediário. Ali, cada alma tem uma semana para escolher onde passará o resto da eternidade. O reencontro, que deveria apontar para um desfecho reconfortante, torna-se inesperadamente complexo quando o primeiro marido de Joan, morto na guerra, ressurge após esperar por ela durante 67 anos. Esse triângulo amoroso inusitado funciona como motor da narrativa e, ao mesmo tempo, expõe as virtudes e limitações de um filme que é sensível, porém familiar.

Freyne aposta em um universo futurista esteticamente bem resolvido, com elementos visuais que ajudam a construir um limbo coerente e intrigante. Há, de fato, cuidado na criação desse pós-vida, que funciona como cenário e como metáfora para as zonas cinzentas das relações humanas. Ainda assim, apesar da ambientação elaborada, a obra prefere seguir caminhos bastante seguros no que diz respeito à estrutura dramática.

O roteiro apresenta sutilezas interessantes, sobretudo quando se recusa a transformar qualquer um dos pretendentes de Joan em antagonista. É um gesto louvável dentro de um gênero acostumado a simplificações, e que aqui ganha uma leitura mais madura. No entanto, essa mesma delicadeza narrativa também impede o filme de explorar com mais ousadia o peso dessa escolha. A jornada emocional da protagonista é consistente, mas raramente surpreendente.

O humor, aplicado em doses moderadas, flerta com o sombrio e contribui para equilibrar o tom melancólico. Funciona bem quando surge de forma natural, mas nem sempre encontra o ritmo ideal para sustentar o impacto emocional que o filme deseja alcançar. Em certos momentos, a comédia surge como respiro; em outros, como uma tentativa de suavizar conflitos que poderiam ter sido tratados com mais profundidade.

Ainda assim, é inegável que o longa provoca questionamentos relevantes. A ideia de um pós-vida burocratizado, onde decisões definitivas são tomadas em poucos dias, abre espaço para reflexões sobre luto, memória e responsabilidade afetiva. O público inevitavelmente se coloca no lugar de Joan: seria possível escolher uma eternidade sabendo que pessoas queridas ainda permanecem vivas? A dúvida é real e incômoda, e o filme ganha força justamente quando explora essa ambiguidade.

O trio central sustenta boa parte dessa autenticidade emocional. Elizabeth Olsen entrega uma protagonista sensível, construída a partir de pequenos gestos, ainda que confinada em um arco previsível. Miles Teller e Callum Turner, por sua vez, compõem figuras empáticas sem recorrer à caricatura, tornando o triângulo amoroso genuíno o suficiente para manter o espectador comprometido. O elenco de apoio funciona dentro do que é proposto, dando textura ao universo do pós-vida sem nunca roubar a cena.

No conjunto, “Eternidade” é um filme eficaz, capaz de emocionar e de carregar o espectador até o fim. Entretanto, essa eficiência também denuncia certa falta de ambição. A obra se contenta em ser delicada quando poderia arriscar mais; prefere o seguro quando teria espaço para tensionar as estruturas tradicionais da comédia romântica. Não reinventa o gênero, tampouco pretende fazê-lo, mas encontra conforto em uma fórmula que equilibra sensibilidade e previsibilidade.

Crítica – Five Nights at Freddy’s 2 é um avanço divertido, nostálgico e limitado por suas próprias escolhas

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“Quero ver o que tem dentro da sua cabeça.” A frase ecoa no escuro e sintetiza bem o espírito de Five Nights at Freddy’s 2, um filme que busca acessar o imaginário de quem cresceu com a franquia, explorando memórias, sustos e aquela combinação inconfundível de pânico e fascínio que marcou milhões de jogadores. Dentro dessa proposta, o longa dirigido por Emma Tammi dá um passo mais seguro em relação ao filme anterior. Não é mais ousado, mas é mais consciente do material que tem em mãos.

O grande mérito desta continuação é sua habilidade de transformar referências em atmosfera. A produção não insere apenas easter eggs; ela recria sensações. Os sons metálicos dos animatrônicos, os movimentos bruscos, as luzes defeituosas e os enquadramentos que remetem diretamente às câmeras do jogo ajudam a construir um ambiente que parece genuinamente pertencente ao universo de FNAF. Para quem considera o segundo jogo o ponto alto da franquia, existe uma nostalgia palpável. Cada detalhe visual e sonoro parece projetado para provocar aquele frio familiar na espinha, como se a infância – ou adolescência – retornasse por alguns instantes.

Ainda assim, o filme permanece preso a uma limitação importante. Five Nights at Freddy’s sempre foi conhecido pela combinação de tensão psicológica com violência explícita. Aqui, novamente, o gore é evitado de forma evidente. Cenas que deveriam atingir um impacto mais duro são interrompidas antes do auge, e a estética permanece cuidadosamente controlada para não ultrapassar uma classificação indicativa acessível ao público mais jovem. Essa escolha, embora compreensível do ponto de vista comercial, reduz parte do potencial do terror. Falta peso ao que deveria ser aterrorizante.

Apesar disso, FNAF 2 apresenta avanços narrativos em relação ao primeiro filme. O roteiro é mais coeso, a mitologia é desenvolvida com maior clareza e há mais atenção à lógica interna da história. O percurso dramático ainda é previsível, mas funciona melhor justamente porque a obra abandona qualquer timidez e assume sua vocação de fan service. Em vez de tentar agradar a todos, o filme se concentra em agradar quem realmente importa: o fã que conhece os jogos, acompanha teorias e aguarda há anos para ver determinadas cenas ganharem vida.

Essa honestidade acaba sendo um dos pontos altos. Five Nights at Freddy’s 2 não tenta reinventar o terror. Não pretende ser mais profundo do que realmente é. Sua intenção é divertir, provocar sustos moderados e alimentar o entusiasmo da base de fãs. Para quem nunca teve contato com os jogos, o longa pode soar como um terror adolescente convencional, com criaturas bizarras e enredo por vezes confuso. Para quem jogou, porém, é como revisitar um espaço temido, mas curiosamente acolhedor.

O elenco também funciona melhor nesta continuação, beneficiado por um roteiro que permite mais tensão e interação entre os personagens. Os animatrônicos continuam sendo o grande chamariz visual da franquia e, aqui, parecem ainda mais presentes, expressivos e ameaçadores.

Crítica – Cães de Caça é um retrato brutal da desigualdade e da corrupção coreana

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A Coreia do Sul vem se consolidando como uma potência audiovisual que vai muito além dos doramas românticos. Nos últimos anos, o país tem explorado, com maestria, os bastidores sombrios de sua própria sociedade — e Cães de Caça é um exemplo contundente dessa virada. Lançada pela Netflix, a primeira temporada da série é um soco no estômago: visceral, estilosa e crítica, ela mistura ação, drama social e comentários políticos, sem perder o ritmo ou a humanidade de seus personagens.

Entre o ringue e a rua: a luta pela sobrevivência

A trama se passa em plena pandemia de COVID-19 — um contexto que, mais do que pano de fundo, serve como metáfora da asfixia econômica e moral que paira sobre a sociedade. Kim Geon-woo (vivido com intensidade por Woo Do-hwan) é um jovem boxeador talentoso e honesto, que vê sua vida desabar quando sua mãe, dona de uma pequena mercearia, se endivida até o pescoço. O sonho de ser atleta profissional se transforma em um pesadelo de cobranças, humilhações e ameaças.

Ao lado do amigo Hong Woo-jin (interpretado por Lee Sang-yi, em um papel de lealdade comovente), Geon-woo acaba ingressando no universo dos empréstimos privados — uma indústria clandestina e brutal, onde cada dívida é uma sentença. Sob a tutela do lendário Sr. Choi (um excelente Heo Joon-ho), os dois aprendem que nem todos os agiotas são monstros — mas todos, em algum nível, estão presos a um sistema podre.

Choi, que outrora dominou o submundo financeiro, ressurge com uma nova proposta: emprestar dinheiro sem juros aos mais necessitados, tentando equilibrar a balança da injustiça. É um ideal nobre, mas ingênuo — e logo o grupo entra em rota de colisão com Kim Myeong-gil (vivido com frieza e carisma por Park Sung-woong), CEO da Smile Capital e símbolo máximo da ganância que consome os vulneráveis.

Corrupção como estrutura, não exceção

A série não economiza nas críticas à corrupção política e econômica que permeia a Coreia do Sul — e, por extensão, qualquer país moderno onde a desigualdade é normalizada. Desde o primeiro episódio, a série escancara o vínculo entre os agiotas e os bastidores do poder, revelando como empresários, políticos e forças policiais se entrelaçam em um mesmo jogo de interesses.

Em vez de transformar o crime em espetáculo, o roteiro faz o oposto: revela como ele se infiltra no cotidiano. As ruas, as academias, as pequenas lojas de bairro e os escritórios luxuosos se tornam arenas de guerra, onde os “caçadores” e os “caçados” trocam de papéis a todo instante.

A violência é seca, física, quase artesanal. Em um país com uma das legislações mais rigorosas do mundo contra armas de fogo, as cenas de luta ganham uma autenticidade visceral. Punhos, facas e canivetes substituem pistolas e explosões, e o resultado é uma brutalidade quase tátil — dolorosa de assistir, mas impossível de ignorar.

O corpo como campo de batalha

O corpo em Cães de Caça é tanto arma quanto símbolo. Kim Geon-woo carrega no rosto uma cicatriz profunda — resultado de um confronto que o marca física e emocionalmente. Essa ferida é mais que um traço estético: é o retrato da violência que o sistema imprime em quem ousa resistir.

A série é repleta de coreografias de luta impressionantes, com direção de ação digna dos melhores thrillers asiáticos. Nada é gratuito. Cada soco é uma escolha moral, cada queda um lembrete de que sobreviver, ali, é um ato de resistência. A ausência de armas de fogo amplifica o realismo e confere um senso de urgência que poucas produções ocidentais conseguem reproduzir.

Entre o drama humano e o noir urbano

Apesar da brutalidade, a trama é, acima de tudo, uma história sobre compaixão. O vínculo entre Geon-woo, Woo-jin e o Sr. Choi é o coração da narrativa. São personagens que tentam, de alguma forma, manter um resquício de ética em um mundo onde tudo tem preço. Há uma sensibilidade latente nos pequenos gestos — como o cuidado do protagonista com sua mãe, ou a solidariedade entre boxeadores em meio ao caos.

Visualmente, a série aposta em uma estética fria e contrastante. As ruas de Seul são filmadas com tons metálicos, enquanto os interiores — academias, lojas, apartamentos modestos — ganham uma luz mais quente e humana. Essa dicotomia reforça o embate central da trama: o sistema desumaniza, mas as relações ainda podem redimir.

Pandemia e desigualdade: um retrato de época

Ambientar a história durante a pandemia não é um acaso. A série transforma esse período recente em espelho social: enquanto muitos tentavam sobreviver ao vírus, outros enfrentavam uma crise econômica devastadora. Cães de Caça mostra como a desigualdade não é apenas estatística, mas uma questão de vida ou morte.

O vírus, nesse contexto, é apenas uma face de uma infecção muito mais antiga — a do dinheiro fácil, da exploração e da ausência de empatia. A mensagem é clara: a pandemia não criou a desigualdade, apenas escancarou o que já existia.

Elenco e atuações: um equilíbrio entre força e fragilidade

Woo Do-hwan entrega uma das atuações mais intensas de sua carreira, alternando vulnerabilidade e fúria com naturalidade impressionante. Seu Geon-woo é o herói relutante por excelência — alguém que apanha, sangra e ainda assim insiste em acreditar na bondade.

Lee Sang-yi funciona como o contraponto perfeito: mais racional, mas igualmente marcado pela lealdade. Já Park Sung-woong rouba todas as cenas em que aparece — seu vilão é tão elegante quanto aterrorizante. E Heo Joon-ho, veterano absoluto, oferece uma performance contida e magnética, transformando o Sr. Choi em uma figura quase mítica.

Crítica – Segunda Chance é um retrato sensível sobre aprender a amar de novo quando o coração ainda está em pedaços

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Há séries que impressionam pelo impacto, pelo choque ou pela grandiosidade. “Segunda Chance”, disponível no Viki, escolhe um caminho diferente e, talvez por isso mesmo, mais honesto: o da delicadeza. É uma história que não grita suas emoções, mas as sussurra. E, nesse sussurro, encontra uma força rara ao falar de luto, amizade, amor e da coragem silenciosa de continuar vivendo quando algo essencial se perde.

A jornada de Sky é o ponto de partida emocional da série. A morte do pai não é apenas um evento do passado, mas uma ausência que atravessa cada gesto, cada silêncio e cada tentativa de seguir em frente. Sky não está “quebrado” de forma espetacular; ele está cansado, sensível, vulnerável. É nesse estado que Paper surge não como um salvador, mas como alguém que simplesmente fica. E talvez seja aí que “Segunda Chance” mais acerta: o amor nasce da presença constante, do cuidado diário, da escuta atenta.

A relação entre Sky e Paper é construída com uma naturalidade comovente. Eles começam como amigos, mas a série permite que o espectador perceba antes mesmo dos personagens que há algo diferente ali. O ciúme aparece sem alarde, o toque dura um segundo a mais do que deveria, o olhar carrega perguntas que ninguém ousa formular. O que poderia ser tratado como confusão adolescente ganha aqui um peso emocional verdadeiro. Não é apenas o medo de amar, mas o medo de perder aquilo que já é tão importante: a amizade.

Quando o sentimento deixa de ser apenas insinuado e passa a ser reconhecido, a série evita o clichê da revelação explosiva. O estranhamento inicial dá lugar a uma aproximação cuidadosa, quase tímida, como se ambos precisassem reaprender a se mover um em torno do outro. É um amor que cresce com hesitação, mas também com ternura. E isso torna tudo mais real, mais humano.

No outro eixo da narrativa está Jeno, um personagem fechado pelas marcas de uma traição que o fez desacreditar nas pessoas e nos afetos. Sua dor é mais silenciosa, quase invisível, mas igualmente profunda. Chris entra em sua vida como alguém disposto a ficar mesmo sem garantias. A relação entre os dois é menos imediata e mais resistente. Não se trata de “curar” Jeno, mas de mostrar que confiar novamente é possível, mesmo quando o passado insiste em machucar.

O que une esses quatro personagens é a sensação de estarem todos tentando sobreviver às próprias feridas. “Segunda Chance” entende que cada pessoa carrega seu tempo, seu ritmo e seus limites. Não há soluções fáceis nem promessas vazias. O amor, aqui, não apaga a dor, mas ajuda a torná-la suportável.

Visualmente, a série acompanha essa proposta com uma estética discreta e acolhedora. A fotografia suave, os enquadramentos próximos e a trilha sonora contida reforçam a intimidade da narrativa. As atuações apostam no não dito, nos silêncios que dizem mais do que longos discursos. É um tipo de drama que exige atenção e entrega do espectador, mas que recompensa com emoção genuína.

Resenha — Esperança mostra que mudar o mundo também começa ao aceitar as próprias fragilidades

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Esperança se apresenta como uma narrativa delicada e profundamente humana sobre recomeços, pertencimento e vulnerabilidade emocional. A obra acompanha a trajetória de uma jovem determinada que, ao se mudar para uma nova cidade, se vê diante do desafio de reconstruir sua identidade, suas relações e sua forma de enxergar o mundo. Mais do que uma história sobre adaptação, o livro se propõe a refletir sobre os limites do idealismo e a necessidade, muitas vezes ignorada, de aceitar ajuda.

A protagonista que dá nome à obra é construída como uma personagem engajada, ativa e movida por um forte senso de justiça social. Seu desejo de combater preconceitos e contribuir para um mundo melhor não surge como discurso vazio, mas como parte orgânica de sua personalidade. No entanto, o livro acerta ao não romantizar esse engajamento. Ao longo da narrativa, fica evidente que carregar o peso de querer salvar tudo e todos pode ser exaustivo, especialmente quando se negligenciam as próprias fragilidades.

O processo de adaptação à nova cidade funciona como um espelho emocional para Esperança. Cada novo ambiente, relação ou conflito expõe suas inseguranças e revela o quanto o sentimento de pertencimento precisa ser construído com tempo, escuta e troca. O texto aborda com sensibilidade os choques entre expectativas e realidade, mostrando que recomeçar nem sempre é sinônimo de entusiasmo, mas muitas vezes de solidão silenciosa.

As relações afetivas ocupam papel central na narrativa. O namoro, as amizades e os vínculos familiares são apresentados como espaços de apoio, mas também de conflito e aprendizado. O livro se destaca ao tratar essas relações de forma honesta, sem idealizações excessivas. Amar, aqui, não significa ausência de problemas, mas disposição para enfrentar dificuldades juntos, inclusive quando isso exige reconhecer limites e pedir socorro.

Um dos temas mais relevantes de Esperança é justamente a dificuldade da protagonista em aceitar ajuda. Acostumada a ser forte, ativa e solidária, ela precisa aprender que vulnerabilidade não é fraqueza. Essa mensagem atravessa a obra de maneira orgânica e toca em uma questão contemporânea urgente, especialmente entre jovens que se sentem pressionados a demonstrar resiliência constante e engajamento irrepreensível.

A escrita é simples, direta e emocionalmente acessível, o que amplia o alcance da história e facilita a identificação do leitor. Em alguns momentos, a narrativa adota um tom mais linear e previsível, o que pode limitar a complexidade dramática. Ainda assim, essa escolha reforça o caráter acolhedor do livro e sua vocação para dialogar com leitores que buscam histórias de conforto, reflexão e reconhecimento pessoal.

Resenha — A Sabedoria das Noviças prova que as inquietações modernas já atormentavam mulheres brilhantes há séculos

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À primeira vista, A sabedoria das noviças: Conselhos do século XVI para problemas do século XX pode parecer apenas um exercício curioso de aproximação entre passado e presente. No entanto, o livro de Ana Garriga e Carmen Urbita revela-se muito mais ambicioso: trata-se de uma obra que revisita a história das freiras dos séculos XVI e XVII para desmontar estereótipos, recuperar vozes femininas silenciadas e, sobretudo, demonstrar que as angústias humanas atravessam o tempo com impressionante persistência.

O ponto de partida do livro é provocador. Em vez de apresentar a vida monástica como sinônimo de isolamento, repressão ou santidade inalcançável, as autoras revelam conventos como espaços de pensamento, estratégia, produção intelectual e até negociação de poder. As noviças e freiras retratadas aqui não são figuras passivas, mas mulheres que encontraram, dentro de estruturas rígidas, maneiras engenhosas de existir, criar e influenciar o mundo ao seu redor.

Santa Teresa de Ávila, Sor Juana Inés de la Cruz e Maria de Jesus de Ágreda são algumas das personagens históricas convocadas para esse diálogo improvável com o leitor contemporâneo. Longe de serem tratadas como santas intocáveis, elas surgem como mulheres de carne, ideias e contradições. Seus escritos, escolhas e episódios biográficos são reinterpretados à luz de problemas atuais, como dificuldades financeiras, desafios no ambiente corporativo, comunicação assertiva, ansiedade social e confusões afetivas.

O grande mérito do livro está na forma como essa transposição é feita. Garriga e Urbita não forçam paralelos nem recorrem a comparações artificiais. Ao contrário, constroem analogias inteligentes e bem-humoradas, capazes de iluminar tanto o contexto histórico quanto as tensões do presente. O famoso episódio da bilocação atribuída a Maria de Jesus de Ágreda, por exemplo, é reinterpretado como uma metáfora poderosa para o sentimento contemporâneo de estar sempre atrasado, desconectado ou perdendo algo nas redes sociais.

Sor Juana Inés de la Cruz ocupa um lugar central na narrativa como símbolo de inteligência feminina, resistência intelectual e domínio da palavra. Sua habilidade retórica e sua postura firme diante de autoridades masculinas servem como inspiração direta para situações modernas, como escrever um e-mail profissional sem parecer agressiva ou submissa. O livro acerta ao mostrar que, muito antes das discussões atuais sobre comunicação assertiva, essas mulheres já dominavam a arte de se posicionar em ambientes hostis.

A escrita das autoras é leve, irônica e convidativa. O texto evita o tom acadêmico tradicional e aposta em uma linguagem acessível, repleta de referências à cultura pop, ao universo corporativo e às dinâmicas das relações afetivas contemporâneas. Essa escolha torna a leitura fluida e prazerosa, ainda que, em alguns momentos, sacrifique maior profundidade teórica. Ainda assim, trata-se de uma decisão coerente com a proposta do livro: aproximar, não afastar.

Outro aspecto relevante é a forma como A sabedoria das noviças contribui para a revisão da história sob uma perspectiva feminina. Ao recuperar essas trajetórias, o livro evidencia o quanto a vida monástica foi, paradoxalmente, um dos poucos espaços onde mulheres puderam estudar, escrever, ensinar e exercer algum grau de autonomia intelectual. Essa leitura não romantiza o convento, mas reconhece sua complexidade como espaço de limitação e, ao mesmo tempo, de possibilidade.

Embora o subtítulo mencione problemas do século XX, o diálogo estabelecido pela obra é ainda mais pertinente ao século XXI. Questões como ansiedade, pressão por produtividade, medo de exclusão social e insegurança emocional atravessam o livro de maneira clara e atual. Nesse sentido, a obra funciona menos como um manual de conselhos e mais como um convite à reflexão, usando o humor e a história como ferramentas de acolhimento.

A sabedoria das noviças é um livro que diverte, informa e provoca. Ao transformar figuras históricas em interlocutoras contemporâneas, Ana Garriga e Carmen Urbita constroem uma obra que questiona nossas certezas, relativiza nossos dramas e oferece um olhar surpreendentemente reconfortante sobre o presente. Uma leitura inteligente e criativa, que reafirma que, independentemente da época, as dúvidas humanas seguem as mesmas e que a sabedoria, muitas vezes, já foi escrita há séculos, apenas esperando ser redescoberta.

Crítica – Song Sung Blue: Um Sonho A Dois é um romance musical que surpreende pela sensibilidade

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Confesso que, a princípio, não havia qualquer expectativa em relação a Song Sung Blue: Um Sonho A Dois. A ideia de mais um filme associado à trajetória de cantores famosos parecia pouco atraente, quase previsível. No entanto, o acaso acabou me levando a essa sessão — e a experiência se revelou uma grata surpresa. Longe de ser apenas um retrato biográfico convencional, o longa se constrói como um drama romântico profundamente emotivo, centrado na conexão entre duas pessoas comuns, mas absolutamente cativantes.

Hugh Jackman entrega uma atuação segura e inspirada. Seu carisma natural, aliado a uma voz potente e a um olhar capaz de transmitir alegria e vulnerabilidade, sustenta grande parte da força emocional do filme. Kate Hudson, por sua vez, acompanha esse brilho com uma performance calorosa: seu sorriso é contagiante e ilumina cada cena em que aparece. O elenco de apoio também merece destaque, especialmente as atrizes que interpretam as filhas do casal, com ênfase na intérprete de Rachel, que oferece um desempenho sensível e memorável.

A trilha sonora, embalada pelas canções de Neil Diamond, funciona como um elo afetivo entre narrativa e público. As sequências musicais são envolventes e evidenciam a química entre Jackman e Hudson, que demonstram genuíno prazer ao dividir o palco e a história. A música, aqui, não é apenas um recurso estético, mas parte essencial da construção emocional dos personagens.

É importante, contudo, preparar o espectador para a mudança de tom. Após cerca de cinquenta minutos iniciais mais leves e otimistas, o filme adota uma abordagem consideravelmente mais densa. Ainda há espaço para momentos de alegria e celebração, mas o peso dramático passa a dominar a narrativa. Algumas situações são particularmente dolorosas e difíceis de assistir sem se emocionar. Não se trata de um típico filme natalino, embora dialogue com temas universais como amor, perda e resiliência.

Apesar de recorrer a certos clichês narrativos e apresentar passagens excessivamente açucaradas, Song Sung Blue não se deixa comprometer por esses deslizes. O conjunto se mantém honesto e envolvente, sustentado principalmente pelas performances de seus protagonistas, ambos em excelente forma. Ao final, o filme se revela uma experiência tocante e sincera, que vale a pena ser conferida não pelo que parece ser à primeira vista, mas pelo que efetivamente entrega: uma história humana, sensível e surpreendentemente comovente.

Resenha – O Livro dos Portais é uma fantasia que transforma escolhas em risco

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Há livros que entretêm, livros que impressionam e aqueles raros que fazem o leitor desacelerar para absorver cada detalhe, com medo de perder algo importante. O Livro dos Portais se encaixa nesse último grupo. Não é apenas uma história sobre magia ou viagens instantâneas — é um convite para refletir sobre desejo, poder e as consequências de atravessar limites que parecem simples demais para serem verdadeiros.

A narrativa começa de maneira quase silenciosa, ancorada em uma rotina comum. Cassie Andrews não é uma protagonista épica à primeira vista. Ela trabalha em uma livraria em Nova York, divide o apartamento com a melhor amiga e leva uma vida que poderia ser a de qualquer leitor apaixonado por livros. Essa escolha é inteligente: quanto mais comum Cassie parece, mais fácil é se identificar com ela. Quando o elemento fantástico surge, ele não explode; ele sussurra. E isso torna tudo ainda mais inquietante.

O famoso Livro dos Portais entra em cena de forma delicada, quase casual, mas carrega um peso simbólico enorme. A ideia de que “qualquer porta pode ser todas as portas” é poética, sedutora e perigosa. O autor entende muito bem o apelo dessa premissa: quem nunca quis escapar instantaneamente, mudar de lugar, recomeçar em outro cenário? A magia aqui não é apenas visual; ela conversa diretamente com desejos muito humanos.

O grande mérito do livro está na construção do seu universo. Em vez de explicar tudo de uma vez, a história revela seus segredos aos poucos, como se o leitor também estivesse sendo testado. Descobrir que existem outros livros mágicos — cada um com uma função específica — amplia o horizonte da narrativa e adiciona camadas de mistério. A Biblioteca Fox, guardiã desses volumes raríssimos, funciona quase como uma entidade moral, levantando a pergunta central da obra: quem deveria ter acesso ao poder?

Os personagens secundários ajudam a sustentar essa complexidade. Izzy não é apenas a “melhor amiga da protagonista”; ela representa o vínculo com a realidade, o afeto e a normalidade que Cassie corre o risco de perder. Já os antagonistas são um dos pontos mais fortes da trama. “A mulher” é uma presença perturbadora, construída muito mais pela tensão psicológica do que por ações explícitas. Sua frieza e obsessão pelos livros criam um desconforto constante. O Caçador de Livros, por sua vez, é quase um símbolo da inevitabilidade: uma força que sempre encontra aquilo que procura.

Outro aspecto que chama atenção é o ritmo da narrativa. O Livro dos Portais sabe quando acelerar e quando parar. Há cenas de suspense que prendem a respiração, mas também momentos de introspecção que permitem ao leitor refletir junto com Cassie. O livro não tem pressa em ser apenas um espetáculo; ele quer ser sentido. Isso pode não agradar quem busca ação ininterrupta, mas certamente recompensa quem aprecia histórias que respiram.

Em termos de escrita, o tom é acessível, envolvente e visual. É fácil imaginar os cenários, sentir a tensão ao atravessar uma porta desconhecida ou o peso emocional de cada escolha. A fantasia nunca se sobrepõe totalmente à humanidade dos personagens, e esse equilíbrio é o que torna a leitura tão cativante.

No fundo, O Livro dos Portais fala sobre limites. Sobre o que estamos dispostos a fazer para alcançar nossos desejos. Sobre como o poder, quando parece simples demais, costuma cobrar um preço alto. A magia não é apresentada como um presente gratuito, mas como uma responsabilidade que exige maturidade e sacrifício.

Ao terminar a leitura, fica aquela sensação incômoda e deliciosa de que algo permaneceu com você. O tipo de livro que faz o leitor olhar para uma porta comum e imaginar possibilidades, mas também refletir se realmente teria coragem de atravessá-la. O Livro dos Portais não promete respostas fáceis — e talvez seja exatamente isso que o torna tão memorável.

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